93-A Bioética vista através da fila

filaÀs 6h30, iniciam-se filas no InCor. Olho-as faz tempo. Imagino cada paciente trazendo consigo necessidades e expectativas. Sentidas ao próprio modo de ser. Vejo-as como uma procissão equivalente e confiante. Um passo a passo avançando com fé na estrutura de atendimento, que se habilitou a cuidar com excelência das  infinitas heterogeneidades. Em cada olhar atento ao indivíduo à frente uma evidência que há um caminho para si. A sensação que não se está só no desejo do encontro do acolhimento num ambiente de apreensão para muitos. Ali de corpo presente, mas com a mente adiante. Impulsionada pelo desejo de participar e de usufruir de um processo em prol da sua Saúde.

Uma multidão com relação de forças sob um equilíbrio e com potência pelo direito de cidadão carrega um potencial de conflitos. Cada história individual, cada vontade trazida de casa, cada percepção num ambiente de novidades podem efetivá-los sob várias naturezas e diferentes intensidades. De certa forma, toda relação médico-paciente contém  um conflito em algum momento, quer latente, quer percebido, quer manifesto.

Todo médico coleciona divergências, discussões e ataques à beira do leito, uns mais emocionais, outros mais racionais, uns produtos de ilusões, outros de desilusões. Assim, dia após dia, reforço o valor dos pioneiros mundiais da Bioética que enxergaram as inconveniências dos conflitos nos encontros entre a ciência e a natureza humana e recomendaram princípios para ascensão do beneficio sobre o malefício. E, consequentemente, a utilidade da sua difusão e do seu aperfeiçoamento “verde-amarelo” no Brasil.

Beira do leito é metáfora para o cuidado humanizado com a saúde. Onde se encontra tudo aquilo que a pessoa na fila pretende que esteja à disposição. A Bioética aplaude as iniciativas visando a contar com uma beira do leito qualificada na provisão de material e de pessoal. O mesmo respeito interpessoal da ordenação da fila espelhado na organização dos espaços subsequentes de atendimento. A  realização  da convicção que a sua vez chegará  para que o médico em conjunto com os demais profissionais da saúde num ambiente tecnicamente preparado preste a correta assistência. Para satisfazer os desejos de Saúde pela técnico-ciência no topo do possível pela Medicina.

O médico brasileiro é um líder da beira do leito brasileira, como em qualquer país. Ele tem as peculiaridades nacionais de formação e sofre influências internacionais. Influxos não somente da literatura globalizada, como também da Saúde global e da Diplomacia da Saúde, um binômio de cooperação transfronteiriça para benefício dos povos em geral.

É evidente que políticas e experiências de outras beiras do leito costumam ser bons exemplos e motivações para adoção e reciprocidade. Todavia, o que a Bioética da Beira do leito entende que carece ficar claro é o quanto é preciso de ajustes das políticas e dos fluxos da Medicina em outros sistemas de Saúde para as nossas realidades. O Brasil comunga a técnico-ciência global, o clássico e a inovação, num alto nível. Valorizamos as diretrizes que contribuem para normatizações do uso. Há vários setores onde referências balizadoras de paradigma são estudos brasileiros.  É aspecto acadêmico relevante. Mas, não bastante para a excelência da beira do leito brasileira. A  excelência só existe com o concomitante respeito à Ética.

O médico conta com a sua formação, a básica da educação “de berço” e do colégio –  estimada em 18-20 anos, idade em que o jovem entra na Faculdade de Medicina- e a profissionalizante. Esta tem um tempo definido – os 6 anos de graduação- e um indefinido que começa na Residência Médica e vai até a aposentadoria, que é melhor rotulado como de transformação.

Formação e transformação do médico estão intimamente ligadas à qualidade da beira do leito. A Bioética da Beira do leito lida especialmente com o transformar do ser médico pelos pacientes que vemos, diariamente, nas filas. Cada registro hospitalar é prontuário, é receptor de Medicina, é indivíduo – organismo e humano, é fonte de maturação profissional.

Neste contexto, Aristóteles (384ac-322ac) nos legou  dois ensinamentos complementares: Nós somos aquilo que fazemos repetidamente. Excelência, então, não é um modo de agir, mas um hábitoÉ fazendo que se aprende a fazer aquilo que se deve aprender a fazer.  Uma finalidade diagnóstica, uma finalidade terapêutica.

O médico nunca permanece o mesmo profissional. Ele muda constantemente. O número do CRM que é imutável.  Ele segue tendências. Ele se retroalimenta da expertise espiralada. A modulação é individualizada sobre plataforma sempre renovada do estado da arte, quer sob forma de atividade rotineira, quer como surpresas do caminho- foram incontáveis as vezes em que me lembrei do no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho de Carlos Drumond de Andrade (1902-1987). Surpresas biológicas ligadas às imprevisibilidades da Medicina e do caráter das pessoas. Com alto potencial transformador de atitudes do médico.

O médico é um ser humano, portanto sujeito a vulnerabilidades. Estas têm poder de influência no processo de transformação, numa resultante afinada  ou não afinada com o respeito à Ética.

Comportamento inadmissível acontece.  Absolutamente não imaginado quando o futuro transgressor recebe o seu diploma, faz o Juramento de Hipócrates e incorpora um número de CRM. Muito menos a ocorrência deles pela fila ansiosa. Em geral,  incursões  antiéticas  repetidas ficam ocultas por um período.  O cinismo de  considerar a sua realidade anti-ética como norma. A não revelação impede que uma Comissão de Ética ou uma Comissão de Bioética tenham a oportunidade de trazer um ainda a tempo aconselhamento reversor, numa visão otimista. Infelizmente, os nomes dos que agem como “eticopatas” acabam compondo ementas e manchetes, com o agravante da apresentação como um médico. Um rastilho curto  para um efeito generalizador sobre a classe médica, ultimamente.

Há o mau comportamento revelado já ao nascedouro. Ele permite que a Bioética, uma vez antecipadamente acionada, cumpra um papel pedagógico, inclusive, evitação de uma pena formal, pelo reconhecimento do ilícito e pela aceitação do incentivo para que formule desculpas sinceras à parte prejudicada, ainda no calor do acontecimento. Uma auto-advertência, uma auto-censura catalizadas pelo diálogo. Uma compreensão com alta chance de “imunização” ética.

O ideal, na visão da Bioética da Beira do leito, é  contar com a oportunidade de tecer uma análise crítica sobre as “pedras” – conflitos e dilemas- reconhecidas “pelas retinas fatigadas”, antes da tomada de atitude. O valor da prevenção  com fundamento na Prudência. A contribuição dos fundamentos da Bioética para reflexões sobre prós e contras de atitude na visita da beira do leito, na discussão de anfiteatro e na elaboração dos pensamentos solitários. Uma catálise para o processo de transformação do médico por meio  de matérias-primas apreendidas de casos não vivenciados por aquele médico. Até então!

A fila anda, o paciente evolui e o médico progride.

Um comentário sobre “93-A Bioética vista através da fila

  1. Esse fragmento de Manoel de Barros “Uma didática da invenção” nos ensina o quanto é necessário entrar em estado de fila para atuarmos o acolhimento:

    IX

    Para entrar em estado de árvore é preciso
    partir de um torpor animal de lagarto às
    3 horas da tarde, no mês de agosto.
    Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
    em nossa boca.
    Sofreremos alguma decomposição lírica até
    o mato sair na voz .
    Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

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