115-A Bioética e o significado moderno de paciente tornar-se sujeito ao médico

ser médicoAprendizado essencial do jovem que “faz Medicina” é o significado moderno de paciente tornar-se sujeito ao médico. Refiro-me ao que o profissional representa de fato para a satisfação das necessidades de saúde de quem o procura quando se sente doente ou preocupado com fatores de risco. De que modo é lícito o ser médico entrar no território do paciente para que realize uma reestruturação de saúde? Em que situações o ser médico deve conter a intensidade do seu poder e abster-se de manipulações pretensiosas?

Idéias sobre aplicações e técnicas a serem aplicadas em nome da Medicina não faltam.  A livre prática de idéias absurdas num passado não tão distante alertou para a necessidade de normatizações de comportamento do médico perante o paciente. Na verdade, a afirmação da tradição hipocrática de respeito interpessoal e o resgate do fio condutor  que guiou o médico  com segurança através do passado.  A profusão de técnicas na Medicina vigente tornou-se exigente de filtros de pesquisa para comprovação de evidências de utilidade, eficácia e segurança. Neste aspecto, a  Medicina Baseada em Evidências deu a sua contribuição  conceitual para o equilíbrio entre idéias e técnicas, enquanto que padrões de dimensão de efeito e de probabilidade de certeza de recomendações passaram a organizar Diretrizes clínicas.

Ideia, pesquisa e validação, portanto, compõem um processo fundamental para o significado ético atual do ser humano paciente tornar-se sujeito ao ser humano médico. A Ciência como plataforma e a Arte  proporcionando ajustes às diversidades do pentagonal encontro Medicina-médico-paciente-instituição de saúde-sistema de saúde.

Paradoxalmente, quanto mais a Medicina fica “organizada”, influenciada pela globalização, aceleradamente aperfeiçoada e mais coerente com a ciência básica, mais se torna necessário um olhar crítico sobre o efeito futuro dos cuidados com o presente mórbido do paciente. O futuro sombrio de tempos passados, que significava a morte próxima pela carência de benefícios, transformou-se num tipo iatrogênico de sombrio do futuro.  Fez-se necessário proceder a um certo ajuste ao hipocrático: se bem não podemos fazer, que não façamos o mal.  Esta fidelidade ao futuro precisou ser adaptada, pelas circunstâncias, para: se bem podemos fazer, que seja feito com o máximo de segurança para o futuro.  E futuro já o imediato do efeito farmacológico, da evolução pós-operatória e da  realidade de um watchful waiting.

É essencial  ter em mente que a visão de obrigação de fazer no presente pode trazer conformismo unilateral em relação a efeitos secundários, portanto futuros. O médico acostuma-se com intercorrências e incômodos, eles acabam fazendo parte do cotidiano de observação do processo diagnóstico e/ou terapêutico, há a possibilidade da banalização- um “preço a pagar” para o controle da situação clínica de gravidade-, conhece-se a estatística universal de adversidades associadas ao método, confia-se em medidas resolutivas das mesmas. Mas, estas considerações profissionais, mesmo assentadas no zelo e na prudência  da tomada de decisão, podem conflitar com valores, desejos e preferências do paciente.

Gerados conflitos, a correta  aplicação  do útil e eficaz  para um órgão doente, para um sistema comprometido ou para uma enfermidade mais difusa, e, ao mesmo tempo,  menos impactante possível sobre o que está saudável e sobre a estabilidade de comorbidades, porventura presentes, suscitam  uma interpretação de ocorrência de violência.

Hanna Arendt (1906-1975) chamou a atenção que construções envolvem violências. Um de seus exemplos é: uma mesa é produto do ato de violar a madeira que, por sua vez, resultou de uma violência à árvore. Para termos a utilidade da mesa, conflitamos com a Natureza, violentamos o ecossistema.

Não parece exagerado dizer que para termos a utilidade de um método diagnóstico e/ou terapêutico, conflitamos com a fisiologia e a anatomia e o racional instabilizaria alguma afeição, com chance de provocar sentimento de violência, passíveis de sublimações. Neste universo plural, tanto cicatrizes perdem o sentido de invasão porque associadas a benefícios, como pacientes operados com sucesso experimentam a sensação de terem sido agredidos, quanto  pacientes que vivenciam insucessos, intercorrências, adversidades reagem como vítimas de violência.

Para o significado moderno de paciente tornar-se sujeito ao médico, a não-violência interpessoal sustenta-se, não somente, na inexistência de coerção ao paciente pela força da “autoridade” do médico, como também pela obtenção do consentimento do paciente devidamente alicerçado nos esclarecimentos afinados ao estado da arte e na liberdade de manifestação, o que confere legitimidade ao ato de saúde. Como Rollo May (1909-1994) nos ensinou,  violência e comunicação se excluem. O esclarecimento pelo médico desfaz a inocência do paciente e lhe dá poder de representação, inclusive para a expressão com autenticidade de sua visão de vida. Comunicação conduz à comunidade.  O compartilhamento resultante é antídoto ao sentimento de violência.

A Bioética da Beira do leito inquieta-se com as realidades de vulnerabilidade do ser paciente sujeito ao ser médico. Mesmo ato de saúde resulta nomeado Indicação quando mediado pela boa comunicação- que mescla expertise técnico-científica e  humanismo e inclui a persuasão pelo paternalismo fraco- e  deve ser nomeado Violência quando suprimida a informação esclarecedora e formadora do consentimento, salvo no iminente risco de morte, conforme normatizado pelo Código de Ética Médica vigente. Uma preocupação na Pesquisa Clínica é a inconveniência de práticas de violência calculada  ao voluntário, centrada na má comunicação, e de violência fomentada, centrada no carreirismo, sob uma pretensa “legítima defesa” do progresso da Medicina.

A vitalidade do profissionalismo em Medicina deste início do século XXI nutre-se da conscientização do valor da sincera prestação de serviço que interessa e não viola (conotação intencionalmente danosa, criminosa mesmo) o ser humano paciente e o ser humano médico. As tensões do cenário  da beira do leito excitam a visão crítica sobre a tríade: verdades científicas de aplicação, esperanças de sucesso concretizadas com crescente frequência e frustrações quer por não benefícios, quer por  adversidades.

Cada época arquiteta a excelência dos cuidados almejados com a saúde que dá o melhor significado a paciente tornar-se sujeito ao médico. Cada médico que faça um auto-exame de consciência sobre este significado no seu cotidiano!

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