364- Bioética e indiferença

cubos_gelo-fogoEnsinaram-me na Faculdade que o médico precisa ser frio na condução técnico-científica e caloroso na relação humana. Disseram-me que o médico que segue esta amplitude térmica evita a indiferença ética e de cidadania, afasta a perda do interesse para perseguir quaisquer condutas com potencial de atender às necessidades de saúde do paciente em situações rotineiras ou anômalas e assegura dar acolhimento ao ser humano, então nomeado paciente. Cinquenta anos de atividade profissional endossaram esta sabedoria mestra da beira do leito que tem mesma raiz da expressão sacerdócio da Medicina utilizada quando poucos recursos técnicos associavam-se a muita contemplação e dedicação ao conforto emocional, o possível de então.  Nenhuma indiferença e escassa eficiência restou marcante de um passado sensível à dignidade humana, hoje a preocupação  é como muita eficiência e muita indiferença.

Muitas interpretações atuais sobre a ocorrência de indiferença na atuação de médicos não significam que eles estejam desrespeitando o Código de Ética Médica vigente, embora amplie o risco. De fato, há circunstâncias em que não há exatamente uma violação aos textos da deontologia médica, mas a conduta carece de movimentos de empenho, assim comprometendo expectativas de atenção a direitos de cidadania. Recorde-se que o Princípio fundamental II do Código de Ética Médica vigente dispõe que o médico deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional em benefício do paciente, contudo, os critérios de avaliação de máximo estão sujeitos a distintas concepções.

A Bioética estimula o médico a sair da zona de conforto proporcionado por  textos orientadores de conduta quando ele perceber que o conceitualmente mais recomendável carece de apoio do paciente ou do sistema de saúde ou quando ele reconhecer que a aplicação não está sendo eficaz, até mesmo mostra-se prejudicial. Nesta circunstância de necessidade de novos planejamentos e de incursões fora do hábito, o que menos precisa ocorrer é uma indiferença performática abrigada em palavras de sustentação da atitude profissional – é a recomendação universal- que, corretamente quentes como normatizadoras da rotina, são frias perante imprevistos clínicos e peculiaridades culturais e sociais. Na beira do leito não deve ser bastante uma sensação de dever cumprido dentro do estado da arte que, na voracidade do dia-a-dia de mil afazeres, anule qualquer disposição para o encontro de caminhos alternativos para manter acesa a esperança do sucesso que escapa. Evidentemente, há limites – como não ingressar na obstinação terapêutica-, mas ir ao encalço de algum atalho eticamente admissível é preciso antes de se conformar com resultados aquém do esperado ou de se decidir por ortotanásia e cuidados paliativos.

É o que se espera do médico cidadão e ético, que, entretanto, não é um profissional sozinho empunhando uma vara de condão auto-suficiente para transformar males em bens. De fato, ele necessita contar com uma infraestrutura – apoio técnico e humano- para viabilizar indicações, correções e substituições de conduta num tempo adequado.

Historicamente, as Unidades de Tratamento Intensivo (UTI) nasceram da rejeição ao desânimo quando do agravamento clínico. Reforcei este valor da Medicina, a ampliação subentrante dos esforços qualificados e vantajosos para o prognóstico, participando de duas criações do emergente conceito de concentração do atendimento, a UTI do Hospital do Andaraí no Rio de Janeiro (então Enfermaria de Graves), em 1968, liderada pelo Dr. José Marcos Fisz (nascido em 1934) e a do Hospital do Servidor Público Estadual em São Paulo, em 1970, comandada pelo Dr. Julio Timoner. Pude perceber o valor da permanente conscientização sobre humanização para neutralizar comportamentos de insensibilidade gerados pela gravidade dos casos e decorrentes chances de insucesso, que, certamente, admitiam algum mecanismo de defesa profissional – talvez um atavismo desde tempos sem recursos.

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As gerações atuantes de médicos são abastecidas com sucessivos progressos da Medicina, preenchimentos de lacunas no diagnóstico/tratamento/prevenção que exigem acréscimos paralelos de comportamentos de atenção, assim elevando a preocupação com possibilidades de interpretações leigas de indiferença do médico no trânsito por zonas cinzentas da significação de (im)prudência e de zelo/negligência. É essencial o auto-exame permanente pelo médico, se necessário com orientações de colegas e de grupos confiáveis.

A Bioética esforça-se para ocupar este papel assessor de confiança, pronta para colaborar com o médico que deseja trabalhar aliando rigor ético -prudência e zelo-  e vigor no relacionamento com a sociedade de que cuida, sugerindo proatividades rotineiras e reatividades em conformidade com circunstâncias. Uma cooperação que faz a diferença!

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