332- Fútil, um útil inútil

No jargão da beira do leito, na terminalidade da vida o não mais útil é designado como fútil e nas demais circunstâncias o não útil é designado como inútil – como a dimensão de efeito classe III das diretrizes clínicas. No dicionário, fútil e inútil são sinônimos, entendidos como ineficaz na circunstância.
A utilidade sustenta critérios científicos empregados em processos de tomada de decisão na beira do leito. A objetividade das evidências, contudo, necessita lidar com subjetividades e com circunstâncias de prognóstico e na busca de flexibilizações surgem impasses.
Prescrever ou não prescrever eis a questão que permeia um jogo de objetivos e de preferências inserido no conceito de utilitarismo. Verdadeiros choques térmicos acontecem. De um lado, a frieza clínica do mau prognóstico na aplicação de utilidades conceituais agora uma obstinação pela transformação em futilidades. De outro lado,  o calor humano que hesita pensar na perda da utilidade. Habitualmente,  a frieza  é do médico e o calor do paciente/familiar/representante, mas há a vertente em que é o paciente quem manifesta atitudes de desistência e é o médico quem insiste que a Medicina lhe persiste útil. De qualquer maneira, não faltam casos de cronicidades avançadas em que se sabe do mau prognóstico com próxima privação da sustentação da vida, mas onde não se pode precisar se mais um período de real tratamento poderia provocar benefícios válidos, ainda que transitórios.
A Bioética da Beira do leito envolve-se com as muitas polêmicas sobre a mútua exclusão entre utilidade e futilidade para as quais ela não é nada inútil para ajudar a resolver embates entre o técnico-científico do médico e a auto-determinação do paciente/família/representante. Na terminalidade da vida, onde o conceito de ortotanásia ganha expansão entre nós, discussão capital é a que gira em torno do significado de proveito do uso de recursos para determinar um período de tempo a mais de vida do paciente.
Neste contexto, há cerca de 20 anos, a literatura registrava que não é razoável que uma mulher que está próxima da morte não consentir com uma ordem de Não Ressuscitar porque ela deseja comparecer na formatura da filha apesar das fortes dores que sente. https://www.chausa.org/docs/default-source/health-progress/futility-autonomy-and-informed-consent-pdf.pdf?sfvrsn=0. Certamente, hoje no Brasil com os esforços da humanização, o não é razoável  de atender a um último desejo não seria unanimidade.
A ambiguidade sobre útil/fútil é uma constante inevitável pelo cenário de complexidade clínica que requer ir a fundo para julgamentos sobre a situação médica,  os valores manifestos, as emoções eclodidas, a religiosidade envolvida e os objetivos pretendidos e que façam sentido. Traçar fronteiras entre evitar obstinação e cometer negligência está no centro de muitas escolhas embaraçosas de natureza ética.
É do cotidiano que familiar solicite orientação do médico para a aplicação de cuidados paliativos, pois embora não deseje prolongar o sofrimento do paciente, ele se preocupa em ter que personificar um agente de antecipação da morte. Evidentemente, o médico necessita ser imparcial e a resposta útil é alertar para o day after, o quanto poderá  vir a se sentir incomodado no futuro com a ideia que abandonou o ente querido, afastando-o de qualquer chance de sobrevida. O pensamento que enquanto houver vida há esperança, a sensação de um sonho acordado de Aristoteles (384ac-322ac) é emocionalmente muito forte e costuma dividir famílias.
Muitos fatores contribuem para as dificuldades de se aplicar critérios objetivos válidos para viabilizar a passagem do então útil para o agora fútil perante incertezas clínicas sobre irreversibilidades e dimensões afetivas. Elas incluem mudanças na interpretação da autoridade do médico, crescimento de argumentações baseadas na autonomia, fragmentação do atendimento, carência de tempo para comunicação, sucessiva judicialização da beira do leito, divergências de avaliação sobre a finitude dos recursos e notórias deficiências do sistema de saúde.
A Bioética da Beira do leito é útil para cooperar com uma tomada de decisão ética em confrontos da beira do leito sobre obstinação/negligência e utilidade/futilidade.

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