331- Não consinta em se calar

Uma das explicações para o fracasso de recentes pesquisas eleitorais é o aumento da maioria silenciosa. A não manifestação representa uma divergência com a voz corrente que aparenta dominar, que não é verbalizada por certo constrangimento da mudança representativa de novas tendências.

Este grande silêncio que reforça o conceito do sigilo do voto desdiz o provérbio quem cala consente. Este ditado popular está intimamente ligado a ações consideradas delituosas, significando anuência com uma acusação de crime em que a linguagem verbal de abaixar a cabeça onde há uma feição característica ou um entendimento de conivência por não denúncia.

Todavia, há um calar-se que embora discordante assim acontece por falta de argumento contestador, por introspecção, por subserviência, por tolerância ou até mesmo por conveniência de momento.

Na relação médico-paciente contemporânea o quem cala consente associado ao paternalismo outrora dominante foi substituído pelo não consista em se calar relacionado ao direito à autonomia. Uma dificuldade da aplicação ideal é que a conscientização e manifestação articula-se com uma tomada de decisão e decorrente responsabilidade. Muitos desejam aninharem-se na condição literal de paciente e reagem com conformismo mesclado com expressão de confiança no médico não desejando assumir responsabilidades. Outros pacientes não se sentem capacitados por conhecimentos para participar ativamente do processo de tomada de decisão, mesmo após esclarecimentos do médico. Um percentual minoritário de pacientes participa ativamente dos movimentos e contra-movimentos de decisões diagnósticas, terapêuticas e preventivas.

É missão da Bioética da Beira do leito incentivar o não consista em se calar motivando paciente e médico. Na verdade, o não consista em se calar  tem uma fase pré-consulta onde o paciente dá consentimento a si próprio para não permanecer no silêncio inerte e ir em busca de assistência, vencendo barreiras da sua condição humana, em que a difusão de informações como por campanhas públicas – Setembro Amarelo, Outubro Rosa e Novembro Azul- traz enorme contribuição.

Os rituais de atendimento médico distinguidos pelas diversidades de necessidades associam-se a maior ou menor facilidade para uma atenção mais forte com a palavra de consentimento do paciente. Evidentemente, a disposição do paciente e do médico influencia em cada modalidade. É da Ética brasileira que não deve haver disponibilidade de tempo para o consentimento livre e esclarecido na situação de iminente risco de morte. E também que não deve faltar tempo do médico para o exercício do mesmo em situação eletiva.

Acontece que não é incomum que um um sim débil, quase um calar-se, pode estar escondendo muitas dúvidas e, inclusive, objeções ao devidamente esclarecido, por razões acima citadas como timidez perante a figura de autoridade do médico, coerções familiares veladas e o peso da responsabilidade sobre os ombros.

A análise de antecedentes por ocasião do trabalho de gestão de crises da beira do leito reconhece estes fatores como etiopatogenia de muitos conflitos no decorrer de má evolução dos casos.

Se quem cala consente é inaplicável na beira do leito contemporânea e não consista em se calar é o provérbio idealizado, neste caminhar de consolidação da participação ativa do paciente no processo de tomada de decisão faz-se essencial repercutir que consentimentos por um sim quase calado pode não representar a necessária liberdade e esclarecimento de vontade do paciente para  médico.

A Bioética da Beira do leito preocupa-se com esta realidade de autorização que pode estar jogando para debaixo do tapete muitas bombas de efeito retardado quando riscos de intercorrências e adversidades que o paciente aceitou tornarem-se realidades inadmitidas.

Sempre que for possível, é vantajoso no momento final do processo de consentimento que o médico se comporta com estivesse fazendo uma anamnese dirigida, procurando aprofundar conhecer melhor “queixas ocultas”.     

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