327- Bioética e pontes de Potter

ponte

São cinco décadas desde o lançamento Bioética uma ponte para o futuro, o livro ponto de partida da Bioética moderna.  Neste período de tempo muito do futuro temido pelo autor Van Rensselaer Potter (1911-2001) tornou-se atualidades de novas formas de pensar e de aplicar Medicina e assim continuará.

Podemos, então, mentalizar um conjunto de pontes de Potter que fluem distintas combinações de ciência e humanismo comungando uma missão básica: preservação da consciência profissional e da auto-determinação.

Esta comunhão de resguardo ético transitando pelas pontes de Potter é essencial para que pressupostos da ciência pensados como viáveis não sejam aplicadas como um salto no escuro para a beira do leito. Este processo  de maturação “em caminho” de novas formas de pensar e de aplicar Medicina facilita o desenvolvimento de aceitabilidades ao translacional, desde a harmônica com o “trânsito local” da beira do leito até a que suscita turbilhões, pororocas até ser incorporada. Ademais entendimentos de inaceitabilidades ao translacional fomentam bloqueios ao trânsito e, inclusive, implosões de ponte.

Assim, o “em caminho” pelas pontes de Potter proporciona o encontro do pensar-aplicar ciência e humanismo com a consciência profissional e o direito à auto-determinação.

Em relação à consciência profissional, é marcante o impacto de uma Medicina que está ficando cada vez mais objetiva por imagens qualificadas para  “ver” órgãos internos, testes funcionais fidedignos, amplificações de recursos terapêuticos, reduções da invasibilidade e eficiência preventiva. A clássica A Clínica é Soberana calcada em sintomas e achados clínicos e a futurística “vacina cirúrgica” sustentada por um ante-diagnóstico de gravidade pela análise do genoma compõem extremos do binômio pensar-aplicar Medicina. O entremeio desta que Medicina estou praticando evidencia a tendência de substituição da modalidade individual do binômio pensar-aplicar – pratico a minha Medicina- por uma consolidada coletiva – pratico a Medicina sugerida. Ademais, é inequívoco que o médico lidará cada vez mais com ciência apoiada por inteligências artificiais possantes, para a qual deverá voltar sua consciência profissional crítica pela prudência e pelo zelo.  Neste contexto de dúvidas quanto a reais benefícios e segurança das recomendações, bem como a desafios por conflitos de interesse e a efetiva infra-estrutura para realizar, a Bioética facilita as gerações atuantes de médico manterem o sentido tradicional de consciência profissional  das antepassadas no exercício dos ajustes para a prática da Medicina atualizada de seus tempos. Quem ultrapassou algumas décadas recentes de atividade profissional rapidamente modificada sabe bem de que se trata esta responsabilidade da consciência profissional.

Em relação ao direito à auto-determinação, ele subentende uma expressão de subjetividade. Hoje em dia, o médico apresenta uma recomendação ao paciente e solicita o seu consentimento sem muita informação sobre as chances de concordância. Muito embora a maioria dos pacientes em nosso meio dê o aceite sem restrições, a minoria demonstra um quê de imponderável nas discordâncias que dificulta exercícios apriorísticos por parte do médico sobre comportamentos de auto-determinação do paciente.

Temos então que as objetividades “cruas” de pensar e de aplicar Medicina que pretendem o bem biológico do cidadão não são unanimidades na população em geral? Duas respostas parecem corretas. Numa primeira, a sociedade deseja a disponibilidade da Medicina que, objetivamente, mais atenda às necessidades de bem-estar e de saúde e aos desejos de muitos anos de vida. Numa segunda, as individualidades não necessariamente exibem a disposição para aceitação para si.

Sabe-se que o sim ou o não do paciente no momento do consentimento pretensamente esclarecido e livre carrega influências externas. Todavia, é difícil  individualizá-las, saber o que é causado por palavras ditas como “conselho de outrem” ou por informações lidas ou pela memória de infelicidades. Mas, parece que o futuro nos reserva grandes perspectivas de avanços no conhecimento do perfil de comportamento da pessoa ou de grupo na prática do consentimento. Ele falará por si próprio? Valorizará a palavra dos familiares? Consultará o Dr. Google? Será veloz na tomada de decisão? Será sensível a certos argumentos? Reproduzirá as expectativas do passado? acredita-sepoderão ser previstos.

Assim como passos de leitura num dispositivo eletrônico terão capacidade para analisar preferências e reações como o historiador israelense Yuval  Noah Harari (nascido em  1976) nos previne, num futuro próximo haveria meios sofisticados para analisar dados armazenados em computadores que “nunca esquecem” e prever modos de reação do paciente à solicitação de consentimento para a aplicação da recomendação médica.

Este “dataísmo” no “em caminho” pelas pontes de Potter que leva consigo o terrível potencial de conhecer o paciente melhor do que ele próprio será admitido como ético? Perdas da naturalidade dos esclarecimentos por ajustes “espertos” de atitudes e de comunicação do médico ao paciente, “seleção de estratégias pró-interesse de uma das partes”, em função da antecipação de eventuais impactos indutores de respostas negativas poderiam ser consideradas uma forma de paternalismo coercitivo, vale dizer com restrição à auto-determinação do paciente? Incógnita na assistência e, especialmente, no processo de captação de voluntários para pesquisa clínica. Algo de grande interesse da teoria dos jogos!

Como se pode depreender, haverá sempre espaço para sequentes reproduções da ponte de Potter!

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