326- Bioética e pensamento de complexidade

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O pensador de François-Auguste-René Rodin (1840-1917)

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Hipócrates (460ac-370 ac)

 

São mais de duas dezenas de séculos desde Hipócrates. Nestes cerca de 900 mil dias, o exercício da Medicina foi mudando com maior ou menor aceleração. Desenvolveram-se o diagnóstico, a terapêutica e a prevenção até como praticamos atualmente. A pesquisa sistematizada veio sustentar a assistência. O idiopático, o criptogenético e o essencial ganharam explicações. Médico e paciente ampliaram as mútuas conexões. Sistemas de saúde se desenvolveram e intermediários proliferaram. Deveres e direitos foram definidos. Certos atos médicos praticados em determinados países são proibidos em outros.

Hipócrates teve uma vivência profissional individualizada. Pioneiro, ele contestou a simplicidade da causa divina e desenvolveu pensamentos então complexos entre observações realísticas e manifestações de criatividade. Ele sacou o valor da continuidade profissional tal qual uma herança de pai para filho e do sigilo para evitar o constrangimento por revelações.

Subsequentes experiências profissionais geograficamente restritas, aqui e ali, passaram de geração para geração, foram aos poucos expandindo para outros territórios, até ganhar, num salto histórico, expressão da experiência globalizada em publicações em revistas num vai-e-vem de recepção de manuscritos e de expedição a assinantes. Filtros editorais tornaram-se avalistas de qualidade científica. Mais recentemente, a Medicina baseada em evidências projetou  premissas de aplicação ética e, via diretrizes, reduziu a importância das chamadas Escolas ligadas a professores e a Serviços e as substituiu por padrões de tomadas de decisão subscritas por Sociedades de especialidades. “Aplico diretrizes para dormir tranquilo” é comentário ouvido que ilustra a dimensão do impacto das mesmas na prática profissional.

Não há dúvida que em meio a crescentes complexidades técnico-científicas, as bases para o juízo crítico clínico ficaram facilitadas pela organização em diretrizes clínicas, inclusive por meio de atualizações frequentes. Cada nova edição suscita a sensação de um passo adiante na prestação de serviço ao paciente – “agora será melhor”. A experiência pessoal é desafiada a se submeter a certas revisões e, ao mesmo tempo, ela serve de norte para análise de divergências entre diretrizes de diferentes Sociedades.

Todavia, nem por isso, este auxílio de varredura da literatura e de sistematização de níveis de utilidade e de eficácia simplificou de fato o exercício da Medicina. Pelo contrário, a Medicina persiste complexa. Aliás, ela nunca deixou- nem deixará- de ser desde Hipócrates. Cada manobra de simplificação por mais bem-vinda que seja, tem o alto potencial de se desdobrar numa rede de interdependências que inclui novos desafios. Por menores que possam se situar numa escala de visão do médico, eles são enormes para o paciente, como o claustrofóbico instado a se submeter a uma ressonância magnética.

O desenvolvimento de várias especialidades atesta o desdobramento da complexidade. A busca de certezas em genes pela Medicina personalizada assim confirma. O “carimbo” omeprazol é prova e ele em si associa-se a evidências preocupantes. As bulas, então, contém palavras que provocam comportamento do paciente distinto ao do sugerido na frente do médico que também verbalizou certas advertências e as consequências do niilismo.

Aliás, é “simples” compreender a complexidade em Medicina. Ela está na inter-relação entre o conhecido e o desconhecido e na realidade que cada “novo conhecido” para um ser humano aplicar em outro ser humano desdobra-se qual ramos de uma árvore frondosa em novos desconhecidos. É clássico que a Medicina não pode prometer resultados- que são as certezas-, ela os almeja sustentada pelo empenho, mas a ocorrência de insucessos e de adversidades nunca podem ser desconsiderados.

De uma complexidade hipocrática baseada no desconhecido “absoluto”, a Medicina caminhou para o estágio atual de complexidade ditada por novos desconhecidos – associados à velha imprevisibilidade- da aplicação do novos conhecidos- como translações de pesquisas recentes e inovações tecnológicas de ponta.

As interfaces do aqui (disponível) e agora (atualizado) entre conhecido e desconhecido determinam o pensamento sobre complexidade do médico que possui um número de CRM ativo. Há vários compartimentos a serem percorridos pelos cerca de 500 mil médicos brasileiros. Na pesquisa, eles incluem transitar pela concepção que melhor possa preencher uma lacuna da beira do leito e na assistência, eles incluem  direcionar métodos em função de necessidades de resultados.

A Bioética insere-se no pensamento multi-desdobrante de complexidade.  A chamada Bioética principialista ajusta-se e coopera para que conhecidos e desconhecidos possam ser mais adequadamente reconhecidos na conexão médico/pesquisador-paciente/voluntário de pesquisa em duas mãos de direção.

Entendo que ponto de destaque do pensamento de complexidade deste início de século XXI é o ritual do consentimento pelo paciente. É para ele que convergem o conhecimento – benefício e segurança idealizados pelo médico/pesquisador segundo o estado da arte, a Ética e a legalidade- para o encontro com a revelação de desconhecimentos- do que o paciente não sabe como possibilidades de atuação e evolução clínica e do que o médico/pesquisador não sabe como desejos, preferências, valores e objetivos do paciente/voluntário de pesquisa. Matérias-prima para contraposições mais ou menos resolvíveis, sendo que as que ultrapassam um “sarrafo de complexidade”, são estimuladoras da cooperação da Bioética.

Assim sendo, o desenvolvimento de um atual pensamento de complexidade, herdeiro do clássico raciocínio clínico sustentado pelos órgãos dos sentidos e visivelmente encorpado pela antropotecnologia cada vez mais presente, é tanto mais respeitoso ao paciente/voluntário de pesquisa quanto mais se destaca como um processo preocupado com a construção de esclarecimentos que sustentam a adesão irrestrita ou com recomposições possíveis.

Por este conceito de complexidade, verifica-se que o sim ou o não que é emitido pelo paciente/voluntário de pesquisa ao médico/pesquisador, representa na verdade consentimento- ou não- ao validado pela Medicina da atualidade. Esta noção tem importante implicação ética: prudência e zelo na Medicina contemporânea incluem uma visão crítica e dinâmica da responsabilidade moral da sua missão.

 

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