312- Bioética, aviação e segurança do paciente

chapecoense-1024x673O blog bioamigo não poderia deixar de expressar o seu sentimento de pertencimento à massa de pessoas no Brasil e no mundo em luto pelo acidente que envolveu o time da Chapecoense e demais passageiros.

Chapecó é palavra de origem indígena e significa pequeno local onde é avistado o caminho da roça. Caminho da roça significa ir para algum ligar, pegar o caminho da roça é ir embora, voltar para casa. Infelizmente, o significado, de repente, associou-se a pensamentos e manifestações de tristeza.

Ouvi um especialista em gerenciamento de risco dizer que “pessoas já morreram em acidentes da aviação para que houvesse mais segurança nos voos, normas rígidas, risco chegado ao zero”. De fato, relatório recente da Boeing apontou uma queda do número de mortes de 450 para 250 ao ano, mesmo com o exponencial aumento do número de horas de voo no mundo, atribuída ao rigor com segurança http://www.boeing.com/resources/boeingdotcom/company/about_bca/pdf/statsum.pdf

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Crédito: http://www.boeing.com/resources/boeingdotcom/company/about_bca/pdf/statsum.pdf

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Crédito: http://www.boeing.com/resources/boeingdotcom/company/about_bca/pdf/statsum.pdf

Lembrei-me que a segurança em aviação é ponto de referência para a segurança do paciente em hospitais. Há 15 anos, Will airline safety models work in healthcare? foi um capítulo do livro Medical error: What do we know? What do we do? que estimulou o aprendizado de lições da aviação para aplicação na beira do leito.

Chesley Sullenberger (nascido em 1951) é o heroico comandante do voo US Airways 1549 que pousou no rio Hudson, em emergência, em 2009, logo após a decolagem e choque com aves, decisão dramática que preservou a vida dos passageiros e dos tripulantes. Em 2013, ele declarou que caso houvesse o nível de mortes evitáveis que acontecem na Saúde na aviação, as companhias aéreas parariam de voar, os aeroportos fechariam e ninguém teria permissão para voar até a resolução dos problemas.

Pontos fundamentais para a cultura de segurança em geral incluem comunicação interpessoal – atenção a qualquer apontamento de insegurança-, liderança- prudência e coragem em decisões finais-, espírito de equipe – cooperação entre as áreas de atuação-, mentalização e treinamento em intercorrências graves – facilitação para seleção imediata de conduta, seguimento de passo-a-passo e evitação do pânico-, emprego de checklist prévio à “decolagem” – precaução contra as limitações cognitivas humanas- e uso da “caixa preta”- revisão do acontecido para melhor compreensão, aprendizado e desenvolvimento de aperfeiçoamentos saneadores e preventivos.

A Bioética da Beira do leito acompanha a elevação do nível mundial de preocupação com a segurança em assuntos da Saúde. Cada vez mais observa-se que os pensamentos sobre segurança excedem os relativos ao benefício. O direito do paciente para manifestar consentimento ou rejeição ao recomendado impregnou de modo indelével a tomada de decisão sobre ato médico.

O episódio do voo da LaMia na Colômbia caminha para admitir a adjetivação de revoltante pelas informações e evidências que rapidamente se acumularam. As análises pré-caixa preta convergem para uma quebra da segurança em nível elementar. Erro profissional!

Embora o impacto emocional da tragédia tenha certo efeito paralisante, o calor da emoção de momento é oportunidade para energizar o desenvolvimento de lições para reforço do já aprendido e para aperfeiçoamentos e preenchimento de lacunas. No contexto da analogia aviação/beira do leito no quesito segurança, e tomando o preconizado pela Bioética para a relação benefício/segurança na beira do leito, tomo a liberdade – e com o máximo respeito ao momento doloroso- de fazer um exercício de inversão e imaginar a beira do leito como referência para a aviação. Deixaremos de lado para efeito da reflexão que a segurança na aviação é para um coletivo de pessoas que não costumam apresentar objetivos de segurança distintos e que o profissional responsável está sob mesmos riscos,  enquanto que na beira do leito ela admite individualidades diversificadas e o profissional responsável não se encontra sujeito aos mesmos riscos.

O voo era “eletivo”, ou seja, inexistia urgência real, descontada a ansiedade para chegar ao destino e iniciar os preparativos para a competição. O benefício da utilização de avião para vencer o percurso era inegável e no topo das opções. Já a segurança causou -pelas informações divulgadas- dúvidas na questão do abastecimento de combustível e da autonomia de voo. A chamada margem de segurança estaria, no máximo, muito estreita, configurando divergência inconteste com recomendações oficiais. Aí vem a questão do consentimento, o passageiro não foi informado sobre os riscos de adversidades possíveis pelo plano  de voo assim cogitado e, portanto, não teve a oportunidade de participar ativamente na tomada de decisão ajuizando em função de seu melhor interesse, no caso, a vida. Depreende-se que, sob óptica da Bioética, foi tomada uma atitude de paternalismo forte, um “de cima para baixo” que se valeu da confiança do usuário no bom funcionamento do sistema em seus componentes humano, tecnológico, organizacional e operacional.

A lição de reforço ético para a beira do leito parece clara. Ela vale especialmente para os jovens médicos que afoitos pelo benefício desde as suas mãos devem, previamente, considerar o potencial de adversidades e separar o admissível e até inevitável para a situação do inadmissível. É essencial que tomadas de decisão eletivas e porque envolvem diretamente a vida humana sejam compostas qual um quebra-cabeça. A elaboração feita pelo encaixe pecinha a pecinha, utilizando dois grandes grupos, o primeiro com recortes-padrão insubstituíveis e o segundo com recortes-peculiar dinamicamente redimensionados para compor a figura com a “melhor cara do paciente”, função das circunstâncias. A vantagem da montagem por um time- tanto melhor quanto mais multiprofissional e interdisciplinar- é fortalecer a responsabilidade pela mútua colaboração que ativa ou imobiliza os encaixes padrão e peculiar.

No processo de união sequencial, o habitual destaque para o manejo pelo profissional que detém o conhecimento não pode prescindir da noção que o paciente tem o direito de participar ativamente do que lhe diz respeito em determinadas fases da composição.

Tão sofisticado, tão simples, tão humano, tão vulnerável!

 

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