261- Mais Ética que proíbe o abuso ou mais Bioética que incentiva o bom uso?

conscÉ saudável para o profissionalismo do médico fazer um exame de consciência periódico. A ideia de não fugir de si mesmo deve ser creditada a Seneca (4ac-65dc): assuma primeiro o papel de autoacusador, a seguir o de seu próprio juiz e por fim, torne-se um intercessor. A prática pelo médico que valoriza sobretudo o Princípio fundamental V do Código de Ética Médica vigente- Compete ao médico aprimorar continuamente seus conhecimentos e usar o melhor do progresso científico em benefício do paciente– contribui para reduzir impropriedades da interação entre tecnociência e atitude no âmbito da relação médico-paciente na beira do leito.

Autoacusação

O exercício da autoacusação refere-se ao velho hábito do médico de aplicar métodos estando confiante no sucesso e ao mesmo tempo deixando entreaberta a porta da desconfiança por onde circulam adversidades previsíveis ou não. A motivação para a arguição a si próprio compreende tanto maus resultados constatados quanto comentários desfavoráveis de circunstantes. Há uma circunscrição da análise do que poderia ter sido mal realizado. Ela parte do fato ou do dado que impacta e movimenta a consciência e caminha em marcha-a-ré resgatando passos, assim dando subsídios para os “autos” contra si próprio. Modelo eficiente é aquele em que as autoacusações configuram-se na Bioética como imprudências ou negligências no manejo da Beneficência – interface com os saberes da Medicina, da Segurança – interface individualizada com o paciente e da Autonomia- interface com o direito do paciente de participar ativamente  no processo de tomada de decisão e ultimado no consentimento. É desejável que o ritual não transborde para o campo da hipocondria moral. Situação em que o médico teme constantemente ser culpado por falhas, especialmente porque investe fortemente na sua representação de ser médico e hierarquiza um perfeccionismo praticamente impossível na Medicina moderna de tantas intervenções que o foco numa determinada reversão beneficente não provoque alguma refração maleficente alhures. Se este aspecto negativo da autoacusação é desagradável, por outro lado, o bom senso deve predominar para que iniciativas pelo exame de consciência não sejam desestimuladas pelo conformismo do calejar do médico com a sucessão de sofrimentos pelas doenças e pelas intercorrências de métodos  diagnósticos e terapêuticos.

Juiz de si próprio

Configurada a autoacusação genuína em busca do ponto futuro melhor, o médico deve passar à condição de juiz de si próprio. Para o juízo, ele ouvirá as argumentações da autodefesa. É um solilóquio que pode ser treinado. Esta atuação bimodal do mundo interior é essencial para que o parecer final não seja dominado pela falta de neutralidade do instinto de justificação e, então, aconteça da maneira mais imparcial da justiça cega e equilibrada. A auto-sentença poderá manter-se sigilosa ou ser revelada como ensinamento dentro do espírito hipocrático de “fazer os discípulos participar das lições”. Não pode ser ignorado que aspectos conjugados do caráter e da personalidade/temperamento do médico influenciam a qualidade da auto-sentença, contudo o médico deve estar desde cedo bem esclarecido que se a personalidade/temperamento abre portas, é o caráter que  as mantém abertas-para o bem ou para o mal. A periodicidade do julgamento moralmente necessário, esforço corajoso para um ininterrupto aperfeiçoamento profissional – exigência mesmo, diria- tem tanto valor para a fidelidade à Ética quanto a periodicidade empregada para a atualização técnico-científica. Ambas submetem-se a evidências, termo  que exalta o rigor  com a verdade, que ao configurar o trabalho de interpretação de fatos e de dados organizados, admite a investigação tanto científica universal quanto da própria individualidade profissional.

Intercessor

A força do peso na consciência que foi medida no auto-julgamento é energia de aperfeiçoamento a ser aplicada nos próximos casos. Quanto maior o vigor pedagógico da auto-sentença para um erro/insuficiência profissional, mais intercessora ela deve resultar sobre o profissionalismo do médico. Não é exatamente uma questão de se perdoar a si mesmo, é fortalecer-se nutrindo-se na curva de aprendizado sobre os enigmas do cotidiano, idealmente desde o internato, que acelera na Residência médica e só estaciona quando o médico se aposenta. O ponto a ponto desta curva é construído de duas maneiras. A primeira refere-se a uma Ética da proibição que hierarquiza como não fazer- não desrespeite o direito à autonomia do paciente, não revele o sigilo profissional, não ateste sem examinar, não faça sensacionalismo e auto-proteção, não afronte os colegas. A segunda refere-se à Ética da vontade de fazer que dá destaque à excelência em sua concepção aristotélica de estimular a potência total do crescimento, do desenvolvimento e do florescimento profissional objetivando a realização das melhores práticas. O que se observa é que a vontade de fazer é o que domina o recém-médico como fruto da sua formação, estímulo para a pós-graduação na Residência médica. Quando ele adquire a permissão da sociedade para atuar, representada por um número de CRM e por um exemplar do Código de Ética Médica, o jovem passa a conscientizar-se sobre o mau uso e sobre o abuso. A consistência nos dignos objetivos de zelo e de prudência  no cuidado com paciente corre o risco de ficar desequilibrada pelas preocupações com a visão de negligência e de imprudência pela sociedade (Art. 1º do Código de Ética Médica vigente- É vedado ao médico causar dano ao paciente, por ação ou omissão, caracterizável como imperícia, imprudência ou negligência).  Neste contexto, a chamada Medicina defensiva – na verdade ofensiva ao profissionalismo- está aí rondando as beiras do leito e  cabe à Bioética  minimizar o seu impacto utilizando como uma das ferramentas a missão intercessora deste exame da consciência que autoacusa e auto-sentencia.

A Bioética da Beira do leito valoriza o pensamento que a moralidade comum de uma visão de seguir o bem tem uma forte ramificação no olhar crítico sobre as inadequações profissionais. O Código de Ética Médica vigente as classifica em capítulos e  expõe a eticidade atual nos artigos. É conjunto útil para as boas práticas, contudo insuficiente. Considerando que o que vem de dentro é sempre mais autêntico, o percurso da trilha Vontade de fazer  com seus pedágios auto-acusação, auto-sentença e intercessão contribui para a busca da suficiência pelo valor da coragem moral do médico, que perceptiva e comprometida, aproxima solilóquio a solilóquio excelência e maturidade profissionais.

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