256- O melhor dos sentidos

maqSentados extasiados no foguete expansor da tecnologia rumo a outros mundos, incluindo o mundo da lua, esquecemo-nos dos nossos órgãos dos sentidos. Deixamos de  reconhecer a alta tecnologia do quinteto- visão, audição, gustação, olfato e tato- que possuímos. Muitas vezes, é na perda que nos conscientizamos do valor. É o deficiente visual que se vale da audição, por exemplo. O antigos diziam que o bom médico é uma mistura do cego que vê pelo tato e do surdo-mudo que se comunica pela visão. Uma manifestação de valorização da entrada do médico  no território do paciente, uma simbolização da aceitação de que a aproximação interpessoal é profissionalmente necessária, por vezes, até com rapidez.

O uso dos órgãos dos sentidos compõe a história da Medicina. Desde Hipocrates (460ac-370ac) eles se tornaram ferramentas de trabalho do médico graças a percepções intuitivas sobre o benefício para a realização de diagnósticos. Dois deles aposentaram-se: a gustação que fazia a língua em contato com a urina açucarada reconhecer  o diabetes melito e o olfato que facilitava o médico identificar cetoacidose do diabético e insuficiências renal e hepática ao entrar no domicílio do paciente em coma urêmico ou hepático, situações que se tornaram raras. Testes laboratoriais já centenários permitiram a referida aposentadoria, contudo no caso do olfato, a função diagnóstica ressurge no desenvolvimento do chamado nariz eletrônico, um velho sonho associado à cromatografia e à espectrometria, útil para analisar o odor emanado de um carcinoma basocelular, por exemplo, e numa “terceirização” pelo adestramento de cães farejadores capazes de latir “patognomonicamente” perante certos tumores internos.

Os três sobreviventes estão bem vivos e saudáveis. Visão, tato e audição persistem essências do exame físico do paciente. De fato, a utilização da inspeção, da palpação e da ausculta pelo médico possibilitam – em certas situações de maneira insubstituível-  a identificação de sinais sustentadores de fortes hipóteses diagnósticas para o paciente. É trio clássico da propedêutica física com alta expectativa de imortalidade. Se ele está sendo subutilizado, é uma pena, subtração da captação com recursos apenas do que a natureza deu ao ser humano médico de mensagens do corpo doente por vícios de formação que precisam ser combatidos, porém onde estão os semiologistas? Como se sabe quem não bem aprende não pode bem ensinar e nesta concepção a arte do exame físico acelera ladeira abaixo, deixando espaço para as máquinas movimentarem-se ladeira acima.

A carência de tempo conspira contra a aproximação do médico na chamada distância íntima (15-45 cm) para o exame físico ou até mesmo na distância pessoal (45-75cm) para uma boa anamnese. Por outro lado, não faltam vozes exclamando que a modernidade da Medicina tornou sem sentido o uso dos órgãos dos sentidos como instrumento do diagnóstico clínico. Ora, considerar órgãos dos sentidos sem sentido no lidar com o ser humano é robotizar o ato médico, uma aberração intelectual que desvaloriza, habitualmente em nome da tecnologia de imagem, o infalível olhar para a palidez do paciente, o informativo toque num fígado crescido e a resolutiva escuta de chiado vindo dos pulmões. Evidentemente, não se deve exigir dos órgãos dos sentidos uma visão de raio x, um tato de profundeza ou uma audição numa frequência não humana. O uso criterioso dos mesmos dentro dos limites humanos dá uma partida ao pensamento que chamamos de raciocínio clínico e que inclui em suas ponderações modernas a recomendação da busca por imagens essenciais que complementem os movimentos de saída da fase de diagnóstico para a da interdependente terapêutica.

Não é antiquado dizer que vivemos uma era em que a Clínica continua soberana, é até contemporâneo quando expressamos o respeito por esta soberania ao lado do reconhecimento de que a Imagem tornou-se poderosa na governança da beira do leito.

A Imagem cada vez mais reveladora do conteúdo do corpo humano adquiriu o poder que era até poucas décadas reservado à anatomia patológica, que fazia com os médicos destituídos de benefícios terapêuticos aguardavam o óbito do paciente para confrontar os achados necroscópicos com as anotações clínicas e assim capacitar-se para o diagnóstico clínico. Hoje, o órgão do sentido chamado de visão  é utilizado de forma indireta através da imagem captada desde o interior do corpo do paciente, assim permitindo in vivo a obtenção da excelência da correlação possibilitada pela morte. A Imagem desenvolveu-se rapidamente e passou a sustentar diagnósticos de certeza que, a minha formatura, eram possíveis apenas pela inspeção  direta de órgãos envolvidos, além de facilitar a realização de tratamentos menos invasivos, portanto menos agressivos, o que é  altamente bem-vindo para a segurança biológica do paciente.

O sentido da visão tornou-se o representante do quinteto dos sentidos para dar sustento à força da imagem na Medicina contemporânea. A sua contribuição para a representatividade clínica da imagem ocorre numa espiral ascendente, pari-passu com o ganho de nitidez  possibilitado pelo apuro tecnológico da captação e do processamento.

E por falar em imagem, a comunicação é capital para a qualidade da imagem profissional do paciente. Neste contexto, os supervisores dos Residentes de Medicina que valorizam a conexão médico-paciente utilizam-se de metáforas sobre órgãos dos sentidos do tipo: o médico deve ter gosto em ouvir o paciente, dialogar com tato, interpretar com visão de conjunto e aprender a sentir o cheiro da importância dos fatos revelados.

A sociedade está de olho no médico, notícias a respeito de desgostos pelo atendimento hospitalar crescem, repete-se que o médico não ouve o paciente como fazia antigamente, reclama-se da falta de tato na condução de insatisfações, há cheiro de descaso com a saúde em muitos ambientes profissionais.

Redirecionamentos às boas práticas poderiam acontecer pelo maior equilíbrio entre o poder informativo da alta tecnologia concentrada em máquinas e da alta tecnologia que está sendo esquecida na cabeça ouvinte, cheirante, degustadora e observadora e nas mãos dos muitos tatos do médico.

A Bioética da beira do leito estimula o bom senso na integração das tecnologias dos órgãos dos sentidos e das máquinas pelo médico na beira do leito que maximiza as chances do mais possível benefício associado à elevada segurança e ao supremo respeito ao direito à autonomia.

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