237- Misologia não cabe na beira do leito

misoUma das tradições do médico é não praticar a misologia. De fato, ódio ao raciocínio e à lógica não cabe no seu profissionalismo. O incalculável potencial da Medicina não pode tornar-se realidade benéfica para o paciente sem o raciocínio clínico do médico. Parece óbvio. Mas há um alerta sobre sinais de desmotivação para concatenações nos padrões contemporâneos de realização na beira do leito. A pressão pelo sucesso gera tensões de execução que, não infrequente, são instadas ao alívio por reducionismos na vitalidade e na abrangência do pensamento.

Em tempos de tanto apoio à prática médica por sistematizações  em texto, obtenção de números indicativos de anormalidades e percepções anatomopatológicas transcutâneas ou percutâneas por imagem, é enganoso relegar a utilidade do raciocínio clínico ao segundo plano, pois, assim acontecendo, compromete a imprescindível visão clínica de conjunto.

Pensar e repensar é tarefa que beneficia a deliberação. Por meio do pensamento crítico dá-se ênfase à própria experiência no processo de atenção à saúde do paciente, resulta fazer-se de fato presente, humanamente presente na beira do leito. Assim, o pensamento que dá legitimidade a uma abordagem técnico-científica para satisfazer racionalmente as peculiaridades das necessidades daquele paciente participa da essência profissional e o poder do raciocínio viabiliza a vivência do passado como guia da habilidade do presente.

O ato de valorizar o raciocínio e a lógica sustenta a cultura profissional pessoal, o que significa mostrar-se médico de fato interativo, interposto entre a Medicina e o paciente. Pois, se é verdade que a compreensão do estado da arte em Medicina molda a experiência, é certo que vivenciar as múltiplas variantes ditadas pela condição humana – doente e doença- atribui conteúdo e valor a qualquer forma de aquisição do conhecimento.

O desafio é trabalhar com verdades afuniladas para a mais provável utilidade e eficácia sem colocar de lado o raciocínio clínico. Um embate entre a força do coletivo e o vigor do individual. Uma necessidade de conciliação entre dois bom para: o admissível bom para uma doença e o desejável bom para aquele doente.

Não basta seguir algoritmos como passos seguros rumo à eficiência. Precisões e matematizações seduzem, contudo, para distinguir o que é uso e o que é abuso é capital exercitar mente aguçada e órgãos dos sentidos treinados. É da prudência evitar que generalizações do bom provoquem inadvertidos males particulares. É distintivo no ser médico ético funcionar qual enxadrista que aprende a mentalizar jogadas à frente, as dele e as do adversário, evidentemente, conhecendo a “literatura” e  fortemente adestrado para conduzir-se  perante variantes, até inéditas.

Para frequentar a beira do leito, o estudante de Medicina precisa adquirir uma bagagem pesada de conhecimento. Parte será descartada no caminho, mas parte será matéria prima do atendimento via raciocínio clínico. É fundamental que manchetes de diretrizes não sejam consideradas o bastante para a recomendação. Uns entendem que mesmo manchetes são fontes suficientes para uma tomada de decisão, contudo, creio que desqualifica o ser médico e, inclusive, compromete a eticidade.

Vire e mexe ocorre-me a importância de destacar como os encontros amiúde com diretrizes clínicas e a ânsia pela próxima atualização tendem a provocar certas amnésias sobre aprendizados teóricos e práticos. Lidar com diretrizes clínicas é dinamismo que combate a monotonia de ensinamentos e elimina o obsoleto e o desnecessário? Admito. Uma limpeza nas gavetas da mente com conotação ética?  Aceito. Todavia, é para ser considerado que a mente do médico não pode ser entendida tão-somente como um cabide para que diretrizes sejam penduradas e promovam fascínio por “muito arrumadinha” salvação da eficiência, pois, assim sendo, fomentam, invariavelmente, mortes de fundamentos por desprezo do proveito.

Se o bioamigo concorda que o raciocínio clínico é fundamento inalienável do médico, sustenta a sua autonomia e qualifica o sucesso profissional, então, imagino que deve admitir que diretrizes clínicas trazem o risco do estímulo à misologia. A apenas contraposição que misologia é dispensável e diretriz é necessária não é suficiente para afastar o perigo da combinação fatal. Pois se o médico aceita as diretrizes como algemas, torna-se passageiro de uma condução totalmente heteronômica, corre o risco de tender para uma atitude misóloga – não como figura de ódio, exatamente, seria uma tinta muito forte, mas um distanciamento da benquerença- e, assim, exagerar em sensações de simplificações das complexidades da beira do leito. Mas se pelo contrário, o médico admite diretrizes como bússolas para o norte do raciocínio clínico, ele estará delas usufruindo na medida das sistematizações e mantendo as tradições não misólogas do médico ético.

Mutatis mutandis, seria como alguém tomar suco de laranja de caixinha e canudinho sem conhecer minimamente o processo desde a semeadura na terra até o envazamento na indústria e, além disto, ignorar eventuais diferenças da qualidade nutricional em relação à fruta espremida na hora. http://bioamigo.com.br/a-diretriz-a-laranja-e-o-suco/. Um colega na platéia ao me ouvir sobre a analogia da laranja perguntou se aprender com diretriz seria então o mesmo que ir ao supermercado. Entendo que tal indagação resume o quanto os costumes modificam-se com o tempo e desafiam conservadorismos. Um desafio é a Medicina baseada em evidências que, evidentemente, é ganho do século XX que não dispensa idas-e-vindas de raciocínio clínico guiadas por fundamentos clássicos da Medicina e pela experiência pessoal.

O tempo, a sua falta mais exatamente, confundida com desinteresse muitas vezes, é mau conselheiro quando maldiz o livre pensar ético, inibe a lógica do fazer o correto mas sabendo das incertezas quanto a danos e impede juízos críticos quanto a condutas sob efeito manada.

Qualquer brecha para a misologia representa ameaça ao Pentágono da Beira do leito, em geral e às relações humanas de modo particular. Violências seriam facilitadas porque não pensar compromete a conexão médico-paciente em duas mãos de direção, prejudica a tolerância e afasta tomadas de decisão de humanos objetivos, preferências, desejos e  valores.Pentágono

O ser médico necessita de significação pessoal, de se fazer presente, de se mover em direção aos deveres éticos e de edificar prestígio bem amarrado à eficácia.

A responsabilidade de se manter afastado da superficialidade cognitiva que é muitas vezes materializada pela sucumbência a automatismos profissionais subentrantes tem vários preços para o médico. Um deles, no topo da escala, é de cooperar firmemente para que a misologia não frequente a beira do leito.

 

 

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