231- O dano, o médico e a Medicina

8950362-Traurig-emoticon-Lizenzfreie-BilderHipócrates (460ac-370ac) ensinou: médico promove o bem e evita o dano.  A hoje obviedade precisou, entretanto, ser construída. O passo inicial foi o afastamento da Medicina dos desígnios dos deuses.

Passados 25 séculos, o artigo 1 do Código de Ética Médica brasileiro vigente dispõe: É vedado ao médico causar dano ao paciente. A atual Medicina científica e tecnológica de crescente qualidade não permite ao médico eliminar-se como agente de males para o paciente, na beira do leito.

Se é fato que o reconhecimento do dano permite justiça nas apenações profissionais, é sabido, por sua vez, que ele promove aprimoramentos na utilidade e eficácia por revisões e inovações. O dano que traça mágoas é, ao mesmo tempo, a borracha para redesenhos reversores.

Dano é termo que tem extensão ilimitada de sentido. Ele pode representar um prejuízo material ou enquadrar-se numa violência moral. Pode também constituir-se em perda do bem-estar físico. Nesta eventualidade, o médico pode ser um  agente profissional causal? Evidentemente que sim.

Na beira do leito, dano admite a conotação de má prática profissional. Mas, também envolve boa prática profissional acolhe danos. É preciso sempre diferenciar a que atribuir a responsabilidade pelo dano. Ao médico imprudente e/ou negligente? À Medicina imperfeita que foi utilizada pelo médico com o correto grau de prudência e de zelo?  A interpretação separadora é destaque permanente no cenário da beira do leito.

Não faltam narrativas sobre suposições da ocorrência de dano ao paciente para serem decifradas inter pares. Elas referem-se a ações e a inações. Um certo percentual materializa-se em casos de notória imprudência ou negligência- os dois pecados-mor do médico. Contudo, a absolvição de infração ética fundamentada no juízo da ausência de desvio da rota ética e da presença de limitação intrínseca à prática ética aplica-se à maioria das situações da beira do leito e que costumam ser nomeadas como adversidades, intercorrências e sequelas.

Não pode ser esquecido que rótulos de danos podem ser apostos animados pelos pacientes pela frustração das expectativas inseridas quando do consentimento do paciente. Destarte, é essencial a atitude profissional na beira do leito de desconectar o paciente com a ideia de risco zero e realçar que sempre poderá haver um dano na aplicação de qualquer ato diagnóstico e/ou terapêutico.

O paciente razoavelmente conscientizado sobre potencial de ocorrência de danos transitórios ou permanentes é salvaguarda que ajuda a reduzir má compreensões sobre os significados de imprudência e de negligência. A boa comunicação contribui sobremaneira para o paciente distinguir dano que faz parte do benefício e dano que não deveria fazer parte. E, ademais, auxilia a discernir que não deveria fazer parte pode ser inevitável apesar da prudência e do zelo  e  pode também  ter sido perfeitamente evitável.

Um período de um mês com dificuldades para andar com desenvoltura habitual é dano transitório que resulta bem compreendido e aceito de bom grado pelo benefício da operação ortopédica entendida como bem sucedida a que se submeteu. Infecção hospitalar é dano que não deveria fazer parte, todavia inclui-se universalmente em estatísticas, inclusive dos Centros de altíssima qualidade técnica que não podem eliminar a internação das bactérias do próprio paciente e os percalços dos duelos entre bactérias e antibióticos. Excesso de dose de fármaco e não suspensão por certas adversidades que resultam num dano ilustram o que não deveria fazer parte da evolução porque evitável.

Assim sendo, a conexão médico-paciente deve ser insistente com a comunicação que  esclarece o alcance da Medicina e, especialmente, elimina projeções fantasiosas. Em suma, que evite endossar a ilimitação dos desejos do paciente. Pois, é sabido que excedentes de perspectivas desembocam em falta das realizações equivocadamente presumidas. É do cotidiano, uma consultoria em Bioética constatar e ter de lidar com distintos níveis de imaginação  pré-procedimento por parte do paciente sobre  a comunicação pelo médico. Em parte relacionados com justificáveis doses de otimismo- “tudo irá dar certo- estimulantes do consentimento à recomendação médica.

O médico acumula vivência com pacientes que se conformam com os danos após explicações e com os que se revoltam com ele o rotulam como mau praticante de Medicina. A inadequada comunicação médico-paciente é o combustível que energiza o aprisionamento do médico a cogitações de anti-eticidade quando da interpretação do dano assim sentido pelo paciente. Todos nós aprendemos desde criança com os adultos que dor é normal nos procedimentos invasivos, que é um custo a ser reconhecido como inevitável e, assim, tratamos  como fato da condição humana, dano a ser suportado. Tanto é que a comunicação sobre a dor pós-operatória não costuma focar na sua possibilidade por ocasião do consentimento e tomada de decisão, ela cuida dos métodos de contenção da mesma. Ocorre, deste modo, a sensação de troca do inaceitável dano natural da doença por um aceitável dano “terapêutico”. Já adversidades clínicas e intercorrências cirúrgicas por serem domináveis até certo ponto, estão mais sujeitas a desencadear confronto médico-paciente na beira do leito.

A Bioética da Beira do leito preocupa-se com a interpretação plural do fato entendido como dano durante um atendimento médico. Um consultor em Bioética disponibiliza competências para a crítica judiciosa na gestão da crise  da beira do leito ao entorno de entendimentos de dano  pelo que foi feito e pelo que não foi feito. Observa-se a sua necessidade crescente, pois ao mesmo tempo que sobe a complexidade clínica desce a relação de confiança entre médico e paciente.

É pétrea a valorização da verdade na Bioética da Beira do leito. Por isso, a relevância da sinceridade na exposição e da humildade na sensação sobre a crítica pelo médico perante referências a danos pelo paciente. É essencial que haja equilíbrio entre pensamento técnico e afetividade  perante imputações de dano profissional ao médico, quer o que teve um momento imprudente/ou negligente, quer o  que aplicou com ética uma Medicina que persegue uma exatidão que está sempre um passo à frente.

 

 

 

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