372- Bioética e confiança tolerante

Cada profissional da saúde inclui uma dimensão moral em tomadas de decisão caso a caso na beira do leito.  Cada paciente reage mais ou menos harmonicamente  à recomendação de conduta que lhe é apresentada após o médico concluir a conciliação entre universalidades da técnico-ciência e individualidades do respeito àquele ser humano.  É inevitável um percentual de situações onde o necessário consentimento do paciente fica travado por desentendimentos.

A presença de um consultor da Bioética nesta fase de consentimento no processo final de tomada de decisão revela-se útil pela a obtenção de uma conciliação ética sustentada por sua expertise em promover acréscimos de  comunicação e de clareza sobre as circunstâncias da condição clínica, os efeitos dos métodos propostos, as vontades do paciente, os fatores externos impactantes sobre a resposta do paciente, as consequências de não assim fazer para o paciente e para o médico, enfim a promoção da tolerância pelo paciente acerca da Medicina validada e pelo médico acerca da diversidade da condição humana.

A tolerância do médico é essencial na virtude da beira do leito ao lado da prudência e do zelo e de certa maneira facilita a liberdade/responsabilidade no processo de tomada de decisão do médico ético. A tolerância do médico significa não ignorar e respeitar a opinião do paciente que entende insensatez frente à recomendação estado da arte e a tolerância do paciente significa admitir algum participações em princípio indesejadas. A tolerância tem limites até porque uma infinita a desdiria. Pode-se dizer que  a prudência admite possibilidades de equívocos de raciocínio que podem não atingir uma interpretação de real imprudência enquanto que inadequações ao zelo dificilmente fogem do juízo de negligência, vale dizer falta ética.

Assim, o consultor de Bioética vai adquirindo vivência com o entorno do (não)consentimento representado por verdades não exatamente demonstradas – como receios acumulados e influências externas sobre o paciente- e por verdades não refutáveis – como chances estatísticas de sucesso terapêutico.  Ele precisa estender como pano de fundo do cenário onde atua na beira do leito um velho valor da relação médico-paciente, a conexão de confiança.

A contemporaneidade da Medicina que provê mais benefícios e traz mais risco de adversidades precisa da disponibilidade de esclarecimentos à sociedade sobre a necessidade de leitura da grande bula da Medicina  com um olhar de confiança tolerante.  Este termo merece uma ideia de pleonasmo  na beira do leito, uma conjunção que tem o mérito de evitar qualquer disposição de coerção do paciente pelo médico, na verdade reforça uma imposição interna do paciente de crédito pela sua saúde.

O auxílio na promoção do convencimento sobre a existência de competência profissional e de boa-fé  propositiva do médico e de sinceridade nas respostas do paciente faz do consultor de Bioética um partícipe da reação entre verdade – que é do conhecimento- e valor – que é do desejo- atuante em cada caso conflituoso. O grande cuidado é a medida da participação entre uma catálise- o elemento catalizador permanece inerte- e uma intercessão – com risco de tendencioso.

A Bioética da Beira do leito lembra que tolerância, dizem os filósofos, só deve ser aplicada a situações onde teríamos o direito de impedir a contraposição. Assim, o que chamamos de confiança tolerante tem que ser muito bem ajustada aos fundamentos do consentimento do paciente conforme compreendidos por cada profissional da saúde.  É razão para a profundidade e abrangência com que o consultor de Bioética precisa lidar com as objetividades da situação clínicas e as as subjetividades da condição humana.