368- Reputação ilibada um valor do médico

Atitudes de médico que viram manchetes na imprensa respingam invariavelmente no simbolismo da profissão e as manchas assim provocadas pela carência de decoro em atitudes pessoais de alguns acumulam-se como pertencentes à coletividade médica e tornam-se reforço de justificativas para pacientes em momentos de insatisfação com o atendimento.

No mesmo 11 de abril de 2017 lemos que um médico foi preso por suspeita de corrupção, outro foi eliminado de um programa de televisão por entendimento de agressão a uma mulher e sete sextanistas de Medicina vão responder à direção da Faculdade por obscenidade numa fotografia.

Médicos são seres humanos e vivem a sua época como cidadãos. São profissionais com alto nível de confiança da sociedade. São guardiães de uma tradição de 25 séculos desde Hipócrates (460ac-370ac). Estas inter-relações determinam comportamentos esperados, que passíveis de variações sensíveis a novos tempos, requerem preservação da base de moralidade histórica que sempre se postou no topo das idealidades da condição humana.

Pela valorização da dignidade e do decoro no exercício profissional, deslises éticos e legais de médico mesmo à margem de um ato médico costumam ganhar projeção em meios de comunicação acima da observada com outras profissões. Assim, nas notícias referidas, não foi bastante uma designação de servidor público, de partícipe de um reality show ou de jovens em momento entusiasmado com a  completude de um curso superior, foi explicitado tratar-se de médico. alguém que se formou em Medicina.

Os jovens médicos estão construindo a sua vida profissional sob influência de liberdades e de restrições da contemporaneidade, mas assim como estão atrelados aos saberes técnico-científicos vigentes, não podem ignorar a responsabilidade com o respeito à sólida construção moral da profissão. Por isso, vale recordar ensinamentos destacados desde Hipócrates (Quadro).

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371- O sigilo médico está cheio de dedos

O sigilo médico foi consagrado após Hipócrates (460ac-370ac) firmar que aquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto. À época, dados e fatos obtidos desde o paciente eram confidências a serem assim preservadas por um compromisso profissional do médico de se calar para terceiros.

A concepção da eticidade envolvia tão-somente o comunicado entre duas pessoas, o paciente dono do seu nariz, livre para se expor a quem quisesse como fazia para o médico e este sensível ao constrangimento porventura provocado por eventuais revelações, determinado a restringir-se da liberdade sobre a difusão de informações. Estabelecia-se, assim, a responsabilidade profissional de respeito à privacidade do paciente como uma etapa subsequente ao compartilhamento da intimidade com o médico. Comprometimento que embutia a força da confiança interpessoal essencial para a prática da Medicina que substituía a crença no poder dos deuses.

A Medicina foi mudando e a questão do sigilo médico precisou ser ampliada em função da multiplicidade de profissionais envolvidos em cada caso. Brechas de vulnerabilidade tornaram-se, por isso, inevitáveis, atreladas à própria condição humana curiosa, tagarela, intemperada e personalista que no século XVIII foi resumida no pensamento irônico de Benjamim Franklin (1706-1790): Três pessoas são capazes de guardar um segredo, se duas delas estiverem mortas.

O século XX de tantas iniciativas – não  bem sucedidas no Brasil- de isolamento da beira do leito das contribuições da ilha de Cós, consolidou a rotina da elaboração multiprofissional do prontuário do paciente, o atendimento hospitalar com sua natural maior visibilidade dos acontecimentos e presença de muitos agregados expandiu-se, a interdisciplinaridade ligada à especialização expansora dos partícipes tornou-se fator de excelência no atendimento, mais categorias profissionais tornaram-se da saúde. assim agregando-se ao clássico binômio médico-enfermeiro e trazendo o risco a revelações indevidas da multiplicação do número de pessoas que por dever de ofício tomam conhecimento do contexto sigiloso. Mais olhos, mais ouvidos e mais bocas em permanente incumbência provocaram a expansão da acima frase hipocrática para a composição de todo um capítulo desde o nosso primeiro Código de Ética Médica surgido em 1929, que iniciava com a lembrança: O segredo médico é uma obrigação que depende da própria essência da profissão. 

O século XXI trouxe a  expansão do prontuário eletrônico e a sedução explosiva e contagiante dos aplicativos em smartphones com uma vantagem da celeridade, instantaneidade mesmo, muito apreciada na beira do leito. A ponta do dedo associou-se com privilégios à tríade olhos-ouvidos-bocas como vilão em potencial da preservação do sigilo profissional. O anatômico boca a boca da preocupação de Hipócrates transforma-se, então, num eletrônico teclar-compartilhar redutor de prazos entre emissão e recepção de novidades. A circunscrição da via oral a uma quantidade de pessoas que podiam ser contadas nos dedos de uma mão deu lugar a possibilidades preocupantes de alcances numa on line  dimensão de tempo sob comando de mãos transgressoras que se mostram manejadoras mais fortes do que estratégias de salvaguardas éticas.

A figura de uma pessoa com um dispositivo eletrônico tão arraigado a si como seu pertencimento anatômico tornou-se realidade como um microchip implantado subcutâneo para prover acesso seguro a portas pelo simples encostar da mão num sensor http://bigstory.ap.org/article/4fdcd5970f4f4871961b69eeff5a6585/cyborgs-work-employees-getting-implanted-microchips.

A conveniência acendeu um alarme da Bioética pelo potencial de violação à privacidade da pessoa pelo microchip que pode armazenar não somente dados pessoais como as movimentações no curso das atividades e ficam sujeitas ao conhecimento de indivíduos não autorizados. Vale dizer, a atualidade do sigilo ganhou um novo personagem de inquietude ética que pelas origens de Hipócrates faz lembrar o cavalo de Troia: o hacker.

As semelhanças da atividade deste revelador de segredos aplicadas na área do sigilo médico constituem um desafio à integração na beira do leito entre as facilidades irreversíveis das inovações eletrônicas para a qualidade do atendimento às necessidades de saúde do paciente e o cuidado clássico com a privacidade. Novas formas conciliadoras de pensar são desejáveis.

O que se observa é que o espaço está sendo rapidamente preenchido pelo novo hábito tecladista na palma da mão, o que urge um posicionamento normativo de autoridades, muito embora, entenda que os princípios éticos vigentes permitem fundamentar um uso racional, calcado no bom senso, adequado para a modernidade da informação não transgressora dos fundamentos do sigilo profissional. Todavia, enquanto não houver uma “palavra oficial” da Ética brasileira, a insegurança sobre a correção ética persistirá  gerando tensão na beira do leito.