358- Ciência, será que devo ter ciência dela?

Há confusão no uso dos termos neutralidade e imparcialidade, talvez por diferenças nos ambientes da aplicação. No campo da Medicina, entendo que o médico não pode ser neutro em relação a suas convicções e assim cabe objeções de consciência, mas que deve ser imparcial quanto à evidências técnico-científicas dignas de representar dados e fatos reais.

Medicina baseada em excelência é termo que utilizo para conciliar Medicina baseada em evidência com moralidade na aplicação, tanto no terreno da assistência quanto no da pesquisa clínica. Evidência é uma interpretação e como tal, os médicos aprendem a realizá-la teorica e praticamente, em conjunção com o Princípio fundamental V do Código de Ética médica vigente – Compete ao médico aprimorar continuamente seus conhecimentos e usar o melhor do progresso científico em benefício do paciente.    

 Ocorre que a ciência convive com interpretações de pessoas não comprometidas com a sua aplicação segundo evidências criteriosas, o que leva à possibilidade de vieses leigos na apreciação do conhecimento médico de fato validado. Pais que impedem os filhos de dispor do excelente calendário vacinal brasileiro alegando que ouviram falar sobre certa adversidade são tristes exemplos. Fora da Medicina, há quem duvide que o homem pisou na lua. As profecias de mais de cinco séculos do médico francês Michel de Nostradame (1506-1566) tornam-se notícias de tempos em tempos causando muitas apreensões.

Recentemente, um estudo mostrou como convicções pessoais afetam a visão não científica de fatos científicos. A base da pesquisa foi um tema que eclodiu no Brasil, o malefício à saúde do Zika virus e a percepção sobre histórias  associando o surto ao aquecimento global e à imigração  https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2811294.

Os autores concluíram que  indivíduos que não são simpáticos aos alertas de aquecimento global e aos efeitos negativos da imigração são mais céticos a respeito destas hipóteses como ameaças a epidemias de Zika virus do que os que pensam diferente sobre estas temas sociais.

Verifica-se, pois, que a aplicação de valores da identidade pessoal a um conceito que precisa da imparcialidade conclusiva não pode ser desconsiderada e requer habilidades para esclarecimentos sobre o valor dos dados e dos fatos de fato comprovados, reproduzidos e validados. A importância deste comportamento de aclaramento à sociedade cresce à medida que se observam tendências à supressão da ciência e eclosões de reações complacentes com expressões de pós-verdade e de verdade alternativa.

Evidentemente, extremos admitem exageros. Contudo, a evitação de um tribalismo de retorno a eras pré-científicas é no mínimo um desrespeito à memória de Galileu Galilei (1564-1642), o pai da Ciência moderna.  O blog bioamigo recomenda a leitura de Resisting the Suppression of Science que cuida bem deste tema http://www.nejm.org/doi/pdf/10.1056/NEJMp1702362 e nos incentiva a não nos calarmos frente a despropósitos de ameaças ao préstimo da ciência na área médica.

  Como enfatizado, a sociedade presta mais atenção a discursos de contestações do que de afirmação da ciência. O filósofo inglês Bertrand Russell (1872-1970) disse que a ciência dita limites para o conhecimento, mas não deve limitar a imaginação. Atualmente, é necessário acrescentar que a imaginação para construir hipóteses de trabalho científico difere daquela que já se manifesta conclusiva com base em desejos, preferências e valores “tribais”.