354- Guerreiros da Saúde

É  comum lermos que alguém lutou contra uma doença. O idioma é vivo e admite significados por extensão. Há uma correlação histórica entre guerra e doença embutida no jargão médico por meio de metáforas bélicas: combate à infecção, a medicação foi um tiro pela culatra,  dose de ataque, mecanismo de defesa, gatilho imunitário, campanha contra AIDS, manobra de reanimação, tática cirúrgica e arsenal terapêutico, bombardeiro por radioterapia, a estratégia será uma batalha por vez. Cardiologistas usam bulha em canhão, “pistol shot”, agonista e antagonista, além de válvula em paraquedas. Por outro lado, comandantes militares referem-se a lançamentos de bombas com precisão cirúrgica. Quem sabe, poderá haver  uma analogia ao ” o meu médico é um caxias” ouvido na beira do leito  em quartéis  com “o meu general é zerbini”. Sem dúvida, saúde e paz são situações de liberdade que são valorizadas quando se perde.

Thomas Sydenham (1624-1689), o epônimo da coreia reumática, é um ponto de referência da associação entre soldado e médico. O jovem Sydenham combateu no exército inglês de Oliver Cromweel (1599-1658), percebeu em combates métodos para aplicar em desafios das doenças e entrou na História da Medicina  como Hipócrates inglês, Pai da medicina inglesa e fundador da epidemiologia.

Limitações e imposições das moléstias alistam doentes num contingente hostilizado por um inimigo, alvo de uma emboscada do destino (Quadro).

Se a eficiência da diplomacia contribui para eliminar inimigos a serem combatidos, o empenho na Prevenção de doenças é o melhor em prol da saúde. A Medicina preventiva – vacinal, farmacológica, mudança de hábitos- atua sobre fatores causais e de risco e vale-se de marcadores, qual inteligência militar,  para adiantamentos de diagnóstico e aplicação de antecipações.

A organização da sociedade em Forças armadas e em Sistema de Saúde não dá garantia de paz ou de saúde, até porque elas estão mais voltadas para a “guerra”. O pacifismo não constitui uma resistência forte suficiente contra o potencial de violência, como se sabe, a vida saudável nem é prioridade para muitos, muito menos não garante a evitação de atuação de etiopatogenias, por exemplo, ligadas a heranças genéticas. Conspirações fomentam a perda de paz ao mesmo tempo que anormalidades subclínicas “conspiram” e um dia transformam-se em real expressão de doença.

A escritora e filósofa francesa Simone Adolphine Weil (1909-1943) nos legou: assim que pensou em algo, pergunte em que sentido o contrário é verdadeiro. De fato, não estar em guerra não significa exatamente uma paz, assim como não estar doente, não depende de órgãos exatamente normais sob aspectos anatômicos e funcionais. Neste sentido, poder-se-ia dizer que a prevenção primária contra guerra ou contra doença hierarquiza enfraquecer o poder dos ataques, enquanto que a prevenção secundária objetiva primordialmente fortalecer meios de defesa. Evidentemente, caímos na observação futebolística que a qualidade do meio de campo -leia-se excelência no uso de métodos disponíveis na Medicina-  influencia a  proteção defensiva e o vigor do ataque.

Havendo ofensa à pátria, altas patentes militares são convocados e estruturam o comando tático. Perante a saúde injuriada, médicos – e demais profissionais da saúde-  assumem e aplicam conhecimentos e habilidades segundo um código de ética. Enquanto a ética é bitonal (é vedado, é permitido), os métodos técnico-científicos funcionam como as sete notas musicais, meios-ônibus que permitem distintas composições. Entretanto, liberdades de criatividade na beira do leito precisam ser filtradas  por validações da ciência e do humanismo, uma das razões do desenvolvimento da Bioética.

Os muitos caminhos da experiência profissional e das expressões de enfermidades se cruzam com o Art. 1º do Código de Ética Médica- é vedado ao médico causar dano ao paciente por imperícia, imprudência ou negligência. Freios morais e atenção a preferenciais evitam colisões nos cruzamentos,  porém, é útil assegurar-se da presença de um semáforo ético, cujo funcionamento pode ser entendido segundo a analogia com a arte da guerra apresentada no quadro.

farol

Outras analogias com os escritos de Sun Tzu em A Arte da Guerra no século IV ac, contemporâneo de Hipócrates, e cujas apreciações sobre aspectos táticos e humanos persistem verdades aplicáveis às várias formas da guerra do dia-a-dia de inúmeras atividades profissionais:

  1. Uma informação do paciente é retida mais facilmente do que mil palavras no livro.
  2. Focar prioridades de acordo com a captação de informações (raciocínio clínico).
  3. O uso de espiões ajusta o foco por desviar dos descaminhos da desinformação.
  4. Os “espiões” propedêuticos são três: anamnese, exame clínico e exame complementar, que descobrem modos de ação, locais e dados privilegiados da doença.
  5. O inimigo imaginário do hipocondríaco e do habitué da automedicação é um impostor que conduz a uma guerra fria, enquanto que o inimigo oculto do negador contumaz, resguardado da delação, assenta minas em meio a pistas falsas.
  6. Aplicar método e disciplina no planejamento e ser perspicaz com a oportunidade para a execução (tirocínio clínico).
  7. Adiamentos indevidos de decisões fazem com que as armas pareçam mais pesadas, arrefecem o entusiasmo e fazem aflorar um sentimento de angústia, enquanto que os recursos vão ficando cada vez mais desproporcionais às forças.
  8. Empenho e eficiência estão interligados à capacidade de tomar resoluções. Vale muito o discernimento para avançar (não ser negligente) ou permanecer nas trincheiras e até mesmo recuar (não ser imprudente). Quando se persegue a decisão correta, o temor do descrédito não deve impedir retroceder, por exemplo, como médico da primeira opinião ao receber uma segunda opinião mais qualificada.
  9. O médico viabiliza a boa decisão quando seleciona as beneficências no arsenal da Medicina e promove os ajustes de não-maleficência. Quando ele se decide por uma diretriz e já depurou inutilidades, o máximo proveito dos juízos vem da experiência pessoal e do feed-back com as peculiaridades daquele paciente. A moderação do gourmet, que falta ao glutão, dá a qualidade da alimentação do vínculo com o paciente.
  10. O filtro do custo-risco-benefício recomenda que após mirar no alvo certo não se atira só porque se possui uma arma. Na terapêutica, preferências representam a távola redonda, a hierarquia deve existir sem posições extremadas. Vir na frente é questão de ponto de referência como uma roda gigante, pular de um medicamento para outro é como carrossel, o destino é o mesmo.
  11. Integrar-se a estado-maior competente. Aliados produzem a energia em espiral de um tronco que rola morro abaixo. No vínculo equipe-paciente-instituição, a complementaridade permite que cada um faça exatamente o que está preparado para cumprir, e assim, faz boa equipe quem seleciona os que dão conta de cada recado.
  12. Há os que têm a missão de enxergar onde está a vantagem (clínico que indica) e há os que se dispõem a aplicá-la (intensivista ou cirurgião). É como um quebra-cabeças, onde o mérito do sucesso da montagem está nos recortes diferentes de cada peça.