351- Polimedicação e idoso (2)

farmacoA beira do leito não suporta crise de representação, ou seja, o afastamento entre o médico com sua Medicina e o paciente dele necessitado. Um papel de altíssima representatividade é a prescrição de medicamentos. Prescrever significa envolver-se com um processo tão dedutivo quanto lógico, tão amplo quanto objetivo.

Existe uma tendência universal à polimedicação. Única receita médica contém vários fármacos para eliminar, controlar e/ou prevenir os males quer da natureza, quer dos próprios medicamentos. “Ter remédio para tudo” – ou quase- é progresso da Medicina, sem dúvida, benefício para muitas individualidades, cumpridos critérios validados quanto a indicações, a contra-indicações, doses e duração do uso.

Contudo, prudência e zelo são essenciais para evitar expressões de fanatismo farmacodinâmico, desestimular prepotências quanto a interações organismo-droga, muitas vezes despercebidas pelo médico metódico e acomodado, alertar para a eticidade do benefício exigente da consideração sobre segurança e do consentimento esclarecido pelo paciente. Miguel de Oliveira Couto (1864-1934) permanece atual: nesta receita, entrou toda a botica, só faltando o boticário… Como ficou tonta a natureza para atender a tantas ordens ao mesmo tempo. Na ocasião deste pronunciamento, a hoje chamada terceira idade – idoso ativo- era atingida por poucos brasileiros.

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Esperança de vida ao nascer, segundo as Grandes Regiões–1930/2005 Fontes: IBGE, Censo Demográfico 1940/2000 e Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2005

Vivenciamos uma novidade na sociedade brasileira. Há mais idosos, mais idosos ativos, mais idosos necessitados de assistência farmacológica para manter e usufruir de boa qualidade de vida e mais idosos atingindo crescentes previsões de expectativa de vida. Acentua-se, em decorrência, a medicamentalização da idoso, uma excedência prescritiva que carrega o potencial de provocar distintos graus de adversidades, inclusive aquele com risco de morte.

Dada a vulnerabilidade biológica própria do envelhecimento e considerando as heterogeneidades de qualidade das funções orgânicas, é preciso lidar com a segurança do idoso – vale dizer análises sobre absorção, distribuição, biotransformação, excreção, efeitos em tecido-alvo ou nos demais-, não como uma intrusa no campo do benefício, mas como um hóspede a ser acolhido com regras universais e preocupações particulares. O que significa rejeitar pelo discernimento crítico qualquer imposição ao idoso de uma máscara de necessitado de medicação, como se ele vivesse exilado na terra da hipocondria.

Não prescrever resulta muitas vezes da visão de não maleficência superior à do benefício e exige sabedoria clínica, dispêndio de pensamentos clínicos e de atenção ao paciente, mergulhos no submerso do iceberg, trato com ambivalências, assunção da eticidade de ajustes das disponibilidades da Medicina em nome do paciente. E não basta prescrever, o ser médico ético exige o acompanhamento evolutivo acerca de eficiências e de adversidades do mundo real pleno de imprevisibilidades, pois a convicção de utilidade dos fármacos atrelada ao conhecimento não permite já contar com o sucesso terapêutico adiante.

A beira do leito reforça, cotidianamente, que o processo de prescrição farmacológica para idosos executado pelo médico não pode desconsiderar a tríade: a) benefício presumido pelo estado da arte da Medicina; b) segurança demarcada pelo médico responsável pelo caso; c) consentimento pelo paciente/representante esclarecido. Conciliações neste contexto nem sempre são as desejáveis, mas almejar o máximo possível é necessário.

Enfim, a beira do leito não hospeda ilusões como as representadas por certos comportamentos análogos aos atuais batizados como pós-verdades – circunstâncias onde fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais- e fatos alternativos – afirmações que contrariam evidências- e requer muita atenção com situações chamadas de ilusão verdadeira, comparáveis ao que a natureza nos faz ver, por exemplo, o sol nasce no leste e se põe no oeste, quando é a terra que está em movimento.