345- Celular, tato físico e tato social

corpshumain_001Tato físico refere-se a órgão dos sentidos. Tato social inclui sentido ético. O médico precisa manejá-los alinhados nas entranhas do seu número de CRM. Ele palpa pacientes ao seu jeito de examinar buscando sinais úteis para a atenção a necessidades individuais de saúde e, ao mesmo tempo, ele tateia circunstâncias buscando sinalizações úteis para atenção a certas determinações coletivas da sociedade. O impalpável pode ter significados distintos na esfera física e social.

Numa conotação cinestésica, o médico precisa ter a sutileza de reconhecer a sua presença à beira de leito como atuação tanto num clássico espaço animado para a prática de cuidados com pacientes quanto num contemporâneo campo minado que esconde perigos exigentes de cautela na movimentação profissional.

Por isso, o médico – outros profissionais igualmente- precisa ter em plantão permanente na consciência que suas vulnerabilidades de cidadão, seus conflitos de interesse de partícipe da sociedade e seus cotidianos contratempos de pessoa pluri-interativa, incidentes sobre seu caráter, sua personalidade e seu temperamento, têm o potencial de acrescer algum grau de tensão prejudicial à Ética Médica nos encontros e reencontros da conexão médico-paciente.

Esta dimensão essencialmente humana do médico que muitas vezes a sociedade esquece fundamenta a hierarquização da prudência e do zelo como atributos capitais da Deontologia médica, ambos instrumentos para que, entre todas as implicações de ser humano, ele possa impor a si próprio, por dever de ofício, consistência no comprometimento com o respeito e o devotamento ao paciente, razão da comparação no passado ao sacerdócio- não mais aplicável, exceto na expressão do confessionário.

Assim como o artista palhaço na maior tristeza íntima devota-se à platéia e a faz rir, o médico deve atender uma sequência ambulatorial de 4 horas ou realizar um procedimento prolongado e complexo em que desmonta e remonta um órgão único, temporariamente desconectado das eventuais cargas emocionais extra-atendimento desviantes e paralisantes.

O desviante não é necessariamente um aspecto de descontentamento, mas algo que desfoca a mente do atendimento, por mais automático que se dê a condução do caso em função da experiência profissional. Estou convencido que o aparelho celular situa-se no ápice do rol dos fatores desconectores com a Ética médica.

Exemplo simples é observar que o celular com um paciente do outro lado da linha desejoso de ser atendido faz um bypass pelo filtro a telefonemas chamado secretária e clama por um shunt de instantaneidade de contato que irrita o paciente em atendimento no meio do exame pelo qual esperou desde o agendamento, passando pela espera na sala que é para isso mesmo, mas que está longe de agradar, e que, de repente, vê um tilintar corromper  sua reserva de horário.  Tato físico e tato social em confronto desafiando o médico ético.

Este portátil que fala e hoje integra o kit 3C  do médico na companhia da caneta e do carimbo é o mesmo que municia aplicativos para tarefas úteis dentro da Medicina – cálculo de escores, recepção de resultados- e de utilidades – ou inutilidades- sujeitas a conflitos com o entendimento atual de boas práticas da Ética médica.

Casos isolados noticiados aqui e ali de transgressão ética via aplicativos em celular não fazem dele um completo vilão do Código de Ética Médica, mas, é preciso cuidado, pois parece caminhar nesta direção. O celular –smartphone, portanto esperto-  é um cleptocrata, ele exerce um poder de roubo da mente com enorme penetrabilidade, vale dizer, viciante.

Os conflitos de interesses na área do exercício profissional exercidos pelo celular não têm nenhuma perspectiva de marcha-a-ré, o que significa mais etiopatogenias de confronto entre tato físico e tato social ao redor do médico firmemente apegado ao seu kit 3 C.

Neste século XXI de intensa ebulição sobre inteligência artificial, tarefas executadas pelos aplicativos aproximam-se das dos robôs, mas ainda sob controle do ser humano- apesar dos domínios exercidos pela cleptocracia. Recorde-se que a lei ética essencial da robótica dispõe que um robô jamais deve ser projetado para machucar pessoas ou lhes fazer mal (Isaac Asimov, 1920-1992). Mutatis mutandi, um aplicativo nas mãos do médico não deve provocar danos ao paciente.

A Bioética preocupa-se com as articulações entre inovação e Ética médica. Por isso, ela tem a missão de cooperar para a harmonia de convivência entre renovados poderes do celular e a tradição ética do médico. Como a tecnologia da comunicação fácil, ágil e servil avançará célere, a Ética médica precisa debruçar-se vigorosamente sobre o uso de aplicativos, redes sociais e quetais. Uma atribuição árdua que requer tato de grande sensibilidade, além de visão, gosto, olfato e audição  captantes do futuro da condição humana. A fazer sentido!