344- Uma prevenção a diagnóstico de mal de Alzheimer ético

A beira do leito é sala de aula com carga horária predominante para saberes técnico-científicos que a exposição pública amplia para lições de ordem social.

Recentemente, a beira do leito  de ex-primeira dama brasileira foi exposta à opinião pública. Por meio do noticiário, o brasileiro acompanhou a presteza e a qualidade da Medicina brasileira nas mãos calorosas e bem aparelhadas de médicos e de profissionais da saúde em geral e a fria realidade da enfermidade de mau prognóstico. O desenrolar do atendimento à paciente não teve nenhum relato sugerindo inobservância da perfeita harmonia com a Ética.

Todavia, efeitos colaterais aconteceram no campo da Ética médica, implicando médicos não envolvidos com a condução do caso. Oportunidade para a Bioética fazer algumas considerações a respeito da constituição de si mesmo como um médico.

Se por um lado, verdades técnico-científicas e preceitos da Ética médica são mutáveis ao longo da carreira de um médico -eu, por exemplo, beirando meio século de atividade profissional, vejo como peças de museu os livros que me fizeram up-to-date na formatura e pronto para clinicar e, sujeito-me, atualmente, ao quarto Código de Ética Médica, prestes a conhecer um quinto – por outro, há verdades profissionais que sedimentaram o valor ao longo de séculos e que não apresentam indícios de perda da eternidade. São indiscutíveis, neste contexto, a realização de exame do paciente e a preservação do sigilo profissional.

A respeito do último, vale conferir o didaticamente exposto no nosso quase nonagenário primeiro Código, denominado Código de Moral Médica (Quadro).

1929

A doença que acometeu a paciente em questão não é exatamente um acidente como é nomeada, ela costuma ter uma história natural. Muito menos foi um acidente de percurso a suposta delação premiada às avessas que levou à punição administrativa de uma médica do hospital  por um comportamento considerado destoante da exemplar eticidade da equipe responsável pelo caso. Jovem, muito provavelmente transgressora primária da Ética – caso seja comprovado-, confiante – se de fato aconteceu- que não estava ultrapassando limites das boas práticas numa rede blindada, ela não teve como alegar – como se mostra repetitivo no noticiário político- que não sabia do ilícito de que foi acusada. Afinal, o médico brasileiro jura à Formatura Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto.

Como de praxe, a notícia sobre a enfermidade da ex-primeira dama já deixou as manchetes e ocorre a privacidade do luto da família. Ficou, entretanto, a sensação de pesar com a Ética dos médicos. Paira uma sequela de desonra ao número do CRM. Os estilhaços das comunicações inapropriadas golpearam os jalecos de modo coletivo.

Em tempos de disposição para criticar médicos, o Um por todos, todos por um de Alexandre Dumas, pai (1802-1870) em Três Mosqueteiros – representando a defesa de valores comuns – é rapidamente reformulado para Um sobre todos, todos por causa de um e se torna pavio curto para chamuscar uma classe profissional. Por isso, a necessidade de se pensar que os cerca de 500 mil médicos brasileiros ativos pertencem a única rede de postagem de sua palavra e de clique de sua imagem.

Tanto sofrimento precisa deixar uma lição, na verdade, fazer o reforço da tradição que veda ao médico lidar com dados e fatos do paciente do mesmo jeito com que faz com demais informações de outras naturezas, tenha ou não um aplicativo sedutor à mão, necessite ou não de uma sensação de pertencimento a um grupo seletivo.

O médico que memoriza com tanto gosto diretrizes clínicas deve dar o mesmo valor para fixar artigos pétreos do Código de Ética Médica, como os referentes ao sigilo profissional. Amnésias são inadmissíveis. pior se o descumprimento se dá por nunca ter se interessado em ler. Surpresa? Não, carapuças não faltarão.

Vem aí um novo Código de Ética Médica. Sugiro que seja denominado de Diretrizes Éticas do médico brasileiro. Reforço cognitivo para maior compromisso de aplicação na beira do leito.  Como se dizia antigamente influenciado pelo estudo da tabuada, o próximo Código deve ser conhecido de cor e salteado pelo médico.

A Bioética da Beira do leito dispõe-se a cooperar para que a memorização se dê com as necessárias interpretações do texto acerca dos motivos e dos desdobramentos.

Esforços para evitar perdas da memória ética devem soar não somente como respeito à sociedade, como também, como prevenção de suas mordacidades, por exemplo, um impactante diagnóstico que a classe médica sofre de mal de Alzheimer ético!