294- Bioética e publicação predatória

Há poucas décadas, atualizávamos o conhecimento em Medicina folheando, lendo e guardando uma seleção pequena de revistas científicas ligadas ou não a especialidades. Havia necessidade de subscrição e da prestação de serviço do correio. Nas bibliotecas, precisávamos da bibliotecária para nos viabilizar o acesso e, muitas vezes, emprestar o periódico por alguns dias.

Atualmente, a tela do computador é o ambiente da biblioteca com suas facilidades. Por meio do pubmed conhecemos títulos e resumos, apuramos o interesse e torcemos para conseguir um acesso aberto, para quem pode, com ajuda institucional.

Acontece que há hoje uma profusão de publicações que, após poucos cliques eletrônicos, despertam interesse pelo título e resumo que não pertencem àquelas revistas nobres com nível alto de impacto. Nem sempre é fácil classificar pelo nível de confiança em função da conceituação editorial segundo critérios tradicionais.

No campo da Bioética – e em disciplinas em geral-  há preocupação com o crescimento da publicação predatória que visa ao lucro cobrando um valor do autor com escassa filtragem sobre a qualidade acadêmica do conteúdo. Não é raro receber e.mail de algum editor de uma recém-lançada revista com nome parecido  com  alguma tradicional solicitando a “contribuição”.

O ponto essencial prático que mistura o joio ao trigo é o acesso aberto eletrônico. Quem não deseja? Quem não solta palavras ofensivas quando após despertado o interesse pelo resumo verifica no próximo clique que precisa pagar pelo acesso? E, de modo inverso, alegra-se quando a tela vai ficando mais cinza sinal habitual que o download integral acontecerá?

Mas, até que ponto, o texto poderá ser considerado qualificado, expressão de um real espírito acadêmico, e ser distinguido de uma publicação predatória associada a uma falsa noção de academia? Especialmente, em Bioética, onde predomina o qualitativo sobre o quantitativo.

A publicação em revistas de ponta enfrenta alta concorrência a respeito do mérito e, segundo alguns, algum jogo de interesses. Estudos e reflexões de fato contributivas para o desenvolvimento científico  resultam  não aceitos e o autor desejoso da publicação, consciente do Publique ou Morra vai baixando o sarrafo do valor de impacto do periódico. Cair em mãos predatórias, até de modo desavisado, torna-se uma possibilidade concreta.

De fato, no campo da Bioética, conhecemos muitos artigos liberados para acesso eletrônico por “gentileza” de certas editorias que trazem reticências que contém trechos interessantes, pensamentos que merecem atenção, ideias lúcidas. Ou seja, uma eventual caracterização de revista predatória não significa obrigatoriamente difusão de “lixo científico eletrônico”, muito embora a pertinência das críticas conceituais a esta existência cibernética e a necessidade de uma juízo crítcio apurado caso haja a disposição à leitura.

Neste contexto, há, inclusive, a constatação de falsa execução de revisão editorial qualificada. Recentemente, noticiou-se que  um pesquisador enviou uma pesquisa inventada para uma  editoria de acesso aberto e, em pouco tempo, recebeu um “peer review” favorável aceitando a submissão e acompanhado da solicitação de pagamento indispensável para a publicação  https://scholarlyoa.com/2015/06/25/sting-operation-nails-korean-oa-publisher/.

O quadro relaciona algumas características da revista predatória e admitida expressão de falsa academia.

predat

Adaptado de Eriksson S, Helgesson G- The false academy: predatory publishing in science and bioethics. Med Health Care and Philos october 2016