292- Bioética e ressuscitação cardiopulmonar

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William Bennett Kouwenhoven Crédito http://www.gettyimages.com/license/504219442

O engenheiro eletricista William Bennett Kouwenhoven (1886-1975) foi um empreendedor na área da Saúde cujo mérito foi reconhecido pela láurea IEEE Edison Medal, uma medalha concedida pelo Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos dos EUA que leva o nome de Thomas Alva Edison (1847-1931) quem criou a luz elétrica e o fonógrafo além de muitas outras inovações.

Em 1960, Kouwenhoven e colaboradores publicaram no JAMA: A ressuscitação cardíaca após parada cardíaca ou fibrilação ventricular apresentava limitações pela necessidade de abrir o tórax para a realização de massagem cardíaca direta.  Desenvolvemos um método de massagem cardíaca externa transtorácica após exaustiva experimentação animal. Medidas para imediata ressuscitação podem ser agora iniciadas por meio não somente de respiração artificial boca-nariz, como também  de massagem cardíaca adequada sem toracotomia. A aplicação em 20 pacientes  associou-se a sobrevida permanente de 70%.  Qualquer um em qualquer local pode agora iniciar procedimentos para ressuscitação cardíaca. Tudo de que se necessita é de duas mãos. 

Cerca de duas décadas depois, os mesmos autores publicaram na mesma revista: A circulação deve ser restaurada prontamente quando ocorre parada cardíaca, seja assistolia ou fibrilação ventricular, pois, caso não aconteça, haverá anóxia e dano irreversível. Há duas técnicas que podem ser usadas na emergência: massagem direta no coração por toracotomia e o novo método da massagem cardíaca  transtorácica que permite o mesmo resultado. O uso de desfibrilador com corrente alternada transtorácico desenvolvido em nossos laboratórios  provou  ser meio efetivo e confiável  na situação de fibrilação ventricular. O choque deve ser aplicado no peito prontamente, caso contrário a anóxia atingirá um grau em que o coração não mais será capaz de recuperar contrações eficazes sem assistência.

Desde então, desenvolveu-se o ACLS (Advanced Cardiovascular Life Support), o PALS (Pediatric Advanced Life Support e o BLS (Basic Life Support), este estendendo a aplicação para o leigo numa etapa pré-hospitalar.

A Bioética  tem se envolvido com a questão da real indicação clínica e eficácia. Há evidências que especialmente a população leiga crê numa taxa exagerada de sucesso, em parte estimulada por cenas de filmes exibidos na televisão que mostram uma recuperação com pouco tempo de manobras, o que está longe de reproduzir a habitualidade. Por outro lado, os profissionais da saúde sabem das dificuldades técnicas  e éticas  para distinguir situações como morte e como parada cardíaca (inesperada).

Há uma linha de pensamento que classifica a Ressuscitação cardiopulmonar como um fetiche – algo irracionalmente reverenciado- na medida em que a situação é vista com temor ou com uma dimensão exagerada e ilógica em relação a evidências da sua limitação de indicação e de real eficácia.

A Bioética enxerga uma preocupação dos profissionais da saúde com o aperfeiçoamento constante das técnicas de ressuscitação cardiopulmonar, incluindo simplificações operacionais. Todavia, mais discussão deve ser dada para a dualidade dos aspectos éticos referentes à prudência e ao zelo. Uma sinalização desta necessidade é a desobediência a decisões bem fundamentadas de Não Ressuscitar.

Cada profissional pode entender que vale iniciar a manobra de ressuscitação, até por ter sido um voto vencido na tomada de decisão pela equipe, ou mesmo por não ter dela participado. Todavia, ponto relevante é evitar que a manobra seja efetuada não pela determinação de consciência que enxerga zelo e prudência, mas por um juízo defensivo ao extremo de não dar margem a acusações de negligência, não importa a  caracterização de imprudência do ato.

Situações de emergência admitem a dificuldade de aplicar evidências técnico-científicas sustentadas por estatísticas ante o risco iminente de morte. A Bioética pode contribuir como fórum de discussão multiprofissional e interdisciplinar para aprofundamentos éticos a respeito do significado não de iminência, mas de morte com potencial de reversibilidade e recuperação da vida, passível de aplicação do diagnóstico de parada cardíaca e, em decorrência, retirar qualquer apreciação de fetiche que paira sobre os desdobramentos sobre a criatividade de Kouwenhoven.