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286- Desculpa! Três sílabas, três segundos, numerosos efeitos

 

drpacPelo que se pode depreender, a paciente ficou ressentida com o médico pela forma com que ele cuidou do erro profissional. O doutor 1 se sentiu isento de responsabilidade como “vítima” da informação do colega, não aparentou estar convencido que provocou algum dano à paciente, talvez não tenha aprendido a se desculpar, a considerar fortemente  o significado do “capital médico” e sua reserva de valores para preservação da confiança na relação médico-paciente.

Não há nenhum artigo no Código de Ética Médica vigente que oriente a respeito de desculpa para o paciente, contudo, é do profissionalismo ético assumir a responsabilidade de qualquer ato profissional que tenha praticado ou indicado, ainda que solicitado ou consentido pelo paciente ou por seu representante legal (art. 4º  do Código de Ética Médica vigente). Portanto, o compromisso do doutor 1 com a sua parte cumprida, independente da interação “desviadora” com outro colega, é  intransferível e de sua inteira responsabilidade.

Razões não faltaram para a paciente desejar receber uma manifestação de desculpa do doutor 1, na verdade, uma oportunidade – que a indiferença não proporciona- para que houvesse uma comunicação pró-dignidade que, do lado do médico, lhe favoreceria o restabelecimento da confiança, a preservação da reputação, mesclando autoafirmação de integridade e, até, sensação de alívio. Na ausência da iniciativa compreensiva do médico em atenuar a animosidade, a tensão e o sofrimento do momento, como se diz, a paciente “levantou a bola” e ele, insensível, a “isolou”, nos dois sentidos.

Três sílabas, três segundos, muito simbolismo. A emotividade pela empatia influencia a autêntica manifestação de desculpa pelo médico ao paciente por um fato desagradável, mesmo em ausência de adversidade objetiva. Ter a capacidade psicológica de se colocar no lugar do outro facilita vencer relutâncias a se desculpar por uma sensação de imperfeição que mexe com o orgulho, dar voz ao quanto de habilidade se possa ter para expressar sentimentos e atitudes.

Pesquisas indicam que o médico que se desculpa com sincero sentimento de pesar tem mais chance de rever suas atitudes, de manter a confiança do paciente e de influenciar positivamente a cultura da relação médico-paciente. De fato, estudiosos sobre o binômio desculpa-perdão admitem três níveis de influência do ato de manifestar desculpa autenticamente sobre o receptor da mesma: afetivo, cognitivo e comportamental.

O préstimo do afetivo reduziria o grau de raiva do paciente e induziria a uma certa empatia com o médico que errou, o valor do cognitivo determinaria apreciação positiva sobre o caráter do médico que errou e a sensação que serviria de lição preventiva para a não repetição, enquanto que efeito do comportamental minimizaria atitudes de retaliação e de cobrança de penas.

Em presença de real adversidade associada a conduta recomendada pelo médico, com chance de ser caracterizada como erro profissional, e da expectativa do paciente em receber desculpa do médico, pode-se mentalizar a conveniência de um comportamento em gangorra, de um lado o peso da auto-apreciação pelo médico  e do outro, o peso do entendimento pelo paciente (Quadro), que idealmente deve resultar equilibrado.

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Adaptado de Slocum et al -An emerging theory of aplogy. Aust J Psychol 2011;62: 83-92

Quando há pertinência, o ato de se desculpar pelo médico será mais eficiente quanto mais ele representar a reunião do foco pelo médico que admite a responsabilidade (afirmativo) e demonstra sensação de pesar (afetivo) e não envereda por subterfúgios, com o foco dado pelo paciente, a expectativa de real expressão da percepção das consequências (afirmativo) e a manifestação de angústia pelo acontecido.

Na Medicina, a aquisição de experiência é lenta e erros acontecem apesar das  precauções. A Bioética da beira do leito reforça que é desejável que o médico que entende que deve apresentar desculpas não coloque peso excessivo sobre o seu modo “técnico-científico” de enxergar o acontecido. Realmente, o momento emocional enfraquecerá a compreensão de mais de 30 segundos de explicações técnicas, tão academicamente corretas quanto humanamente inoportunas, e tenderá a soar como atenuação ou eliminação da responsabilidade, pois será difícil promover uma dissociação clara entre papel do médico e limites da Medicina.

É essencial que haja a consciência profissional de considerar fortemente a consequência que molesta o paciente, que se demonstre o entristecimento, ou seja que se manifeste a humildade que faz vencer a dificuldade de reconhecer a própria deficiência, que reprime ilusões de perfeição.

Mesmo que a desculpa represente deficiência maior da Medicina imperfeita, é prudente colocar-se como o seu agente corresponsável, quando as circunstâncias assim recomendarem. Como se nota, sempre haverá uma fronteira obscura entre benefício e dano por mais que tenha havido esclarecimento e consentimento. O mundo real da beira do leito sabe bem as repercussões perturbadoras das incompreensões que não distinguem o que não deveria ter acontecido e não era esperado pelo paciente (possibilidade de erro profissional) do que poderia ter acontecido e era sabido pelo paciente (“isenção de bula”).

A Bioética da Beira do leito recomenda que quando o médico reconhece a possibilidade do erro profissional – acontecimento não admissível como acidente previsível ou mau resultado do método-, ele deve predispor-se a apresentar desculpas ao paciente tendo em mente que haverá  efeito tanto mais favorável quanto mais a manifestação estiver composta de a) clareza da avaliação do momento; b) grau de suficiência das palavras emitidas espontaneamente e em resposta a questionamentos do paciente; c) forma da comunicação verbal e não verbal expressando a real sinceridade do comportamento; d) juízo da franqueza das desculpas pelo paciente.

A virtuosidade do ato de se desculpar que reúne forças atuantes como humildade, simplicidade, coragem e polidez, que evita mais um erro- o da arrogância- favorece a reversão de acusação pelo perdão e da exigência de punição ao médico além da do seu remorso bem evidenciado. Embaraçoso, mas necessário!