253- Déspota clínico benevolente iluminando a beira do leito

desp1Recentemente, numa leitura sobre Bioética, tropecei no termo Benevolent Clinical Despotism -também Enlightened Clinical Despotism. Caí num daqueles poços escuros do desconhecimento que têm uma rota de saída accessível tão-somente pela porta da curiosidade. Abri-a e segui a convidativa luz que me guiou desde o fundo do poço rumo ao novo conhecimento.

No caminho, sucessivas estações foram  acrescentando saberes. Na primeira, a tradução para o português foi revelada: Despotismo clínico benevolente, esclarecido ou iluminado.

Na segunda, fui esclarecido a respeito da referência histórica para o termo. A razão como instrumento do conhecimento e da liberdade de expressão, a busca pela verdade por meio do questionamento e da investigação, a valorização da educação como fator de redução de desigualdades fundamentou o Iluminismo, movimento cultural, social e político do século XVIII que se opunha à concentração do poder no estado, num monarca, o chamado Absolutismo. De certa forma, o receio da perda do poder fez com que absolutistas aceitassem a voz do povo acerca de temas administrativos, econômicos e ideológicos, numa dimensão que, todavia, não reduzisse a sua soberania ou prejudicasse a manutenção da ordem social.

Na terceira, apreendi a analogia para a beira do leito. O médico tem poder e é apenas nesta figuração que devemos admitir o referencial a déspota. O paciente tem sua visão de necessidades que, influenciada pelas instâncias da sua história de vida, manifestam-se por desejos. Nem sempre estes alinham-se com as rotinas clínicas. Alguns deles inserem-se numa zona cinzenta do processo de tomada de decisão onde exceções de conduta poderiam ganhar justificativas dada a circunstância particularíssima do caso. Esta, ao promover elevada cumplicidade na relação com o paciente, faz o médico, mesmo ansioso porque sabe do alto risco a sua credibilidade profissional que passa a correr, atender à excepcionalidade do desejo do paciente, pois se vê plenamente consciente que chega bem perto mas não ultrapassa os limites do proibitivo em Medicina/vedado eticamente.

Na quarta estação, refleti sobre a verdadeira solidão do médico para se portar com o mais alto grau de empatia à situação do paciente de extremada vulnerabilidade e vontade de ser atendido em seu difícil propósito. Ou seja, inquietude quando o médico aceita a responsabilidade por conduta no limbo de relação benefício/segurança/eticidade. Superar o dilema e efetivar conciliação distanciam o médico do autoritarismo. Manter estrita vigilância sobre os efeitos da deliberação não convencional permite a manutenção da autoridade, inclusive para revogar a decisão – sem culpas e arrependimentos- caso haja a ocorrência de danos e/ou de desvio do compromisso da parte do paciente que fruste a expectativa de que o feito com concessões ao padrão represente um grau aceitável de benefício/segurança para o paciente. Autoridade sem autoritarismo, um contrato de confiança onde o despotismo clínico benevolente facilita o encontro de solução com risco calculado que não soe como penalização, ao prover o manejo de angustiantes flexibilidades à rotina, é bem-vinda à beira do leito.

Na quinta estação, fiquei estimulado a expandir o tema “será que devo fazer de modo excepcional o que talvez outros colegas não fizessem” na direção da interface entre direito à autonomia pelo paciente e pelo médico, da conveniência do paternalismo fraco e das infinitas nuances do cotidiano da aplicação do técnico-científico validado sobre a pluralidade da condição humana. Por ora, contudo, desembarcamos aqui.