240- Paciente é objetivo. Voluntário de pesquisa é método

A formação do médico inclui uma série de relações interpessoais de fato impactantes em seus momentos, muitas das quais determinam memórias indeléveis. Algumas, inclusive, acarretam efeitos assemelhados aos provocados pelas vivências das relações familiares, algo como estudante qual filho, professor qual pai e colegas qual irmãos.

Uma memória habitual da vivência inicial diz respeito à condição de jovem ainda sob efeitos da ressaca pós-vestibular, que trazendo consigo educação e conteúdos de saber, encontra veteranos e seus trotes, desconhece ainda as diferenças entre bancos universitários e colegiais, entende que se atira em queda livre rumo à formatura e tudo agora é uma questão de tempo e sente a primeira relação “médico-paciente”, melhor dito, relação estudante primeiranista-cadáver, numa fria sala de anatomia. Uma relação que, aliás, perde adaptabilidade social e parece condenada à extinção por força da reprodutibilidade e da sedução da tecnologia de imagens. Como contraponto, a virtualização substituindo uma tradicional primeira realidade pode ser vista como uma baixa para a conscientização do caráter humano da Medicina.

Logo, logo, o jovem ambienta-se e inicia a indispensável coleção de relacionamentos de influência no desenvolvimento de sua identidade de médico. Bons e maus exemplos não faltarão, instigando o caráter, a personalidade e o temperamento  do cidadão-futuro médico.

Ao longo do Curso de Medicina, a tradicional relação professor-aluno, com seus níveis de maior ou menor formalidade em parte dependentes da hierarquia docente e, evidentemente, idade-dependente, vai caminhando para a sensação de uma relação colega-colega, à medida que a diferença de conhecimentos reduz-se da profundidade abissal.

Já a relação autor de livro/artigo científico-aluno, mentalizada interpessoal em associação com a credibilidade na fonte emissora, evolui rapidamente de a dois para a três, pela inclusão do paciente. Forma-se, assim, uma triangulação pedagógica inicial tímida que, rapidamente, aprofunda imersão nas necessidades de saúde do paciente.

A relação médico-paciente eclode, assim, num cenário evolutivo de busca de  sínteses Medicina-médico-paciente para ganho de profissionalismo para análises clínicas, caso a caso, vale dizer, capacitação para a constituição técnica, científica e humana do ser médico.

Em seis anos, “panelas”, professores, currículos da graduação ficam para trás, o estudante agora é médico diplomado, mas, se porventura ainda não sabe, logo será alertado que sua identidade de médico está ainda em formação, falta muito. A periodicidade das provas torna-se diária, várias numa sequência tão fascinante quanto  assustadora, e com a diferença da Escola que, na beira do leito, primeiro vem a questão e depois corre-se atrás da lição. Provas sobre provas, em que a “cola” é exigência ética.

É atraente destacar que a máxima que a teoria na prática é diferente compõe o cenário da Residência Médica. Os seis anos de formação universitária não bastam como fundamentos éticos e legais da relação médico-paciente, inclusive porque há modificações gradativas. Realmente, a análise histórica dos 80 anos de Códigos de Ética Médica brasileiros mostra muito bem.  Ademais, evoluções dos direitos humanos transformadoras das últimas décadas desencadearam mudanças profundas nas relações de poder da beira do leito com evidente empoderamento da condição humana, expressa na figura do paciente.

Neste contexto, a Bioética salienta-se. Ela torna-se útil para facilitar a construção de pontes entre a graduação que hierarquiza a técnico-ciência – algo inevitável, embora amenizável por inciativas reformadoras-, e a pós-graduação em aplicação humanizada que rapidamente ganha mais e mais causas de confrontos entre disponibilidades da Medicina  eticamente permitidas e disposições do paciente consentidas.

A Bioética, ao contribuir para a correta percepção do modo como a sociedade enxerga as coisas da saúde, dá balizamento para ajustadas tomadas de decisão e para adequações do decidido a ser executado com a devida conscientização do paciente sobre potencialidades de bons e de maus  resultados e sobre os compromissos do mesmo com a responsabilidade oriunda da participação ativa.  A Bioética preocupa-se em tornar evidente as diferenças de interpretação de artigos do Código de Ética Médica vigente determinadas pelo atendimento durante internação hospitalar – mais estafe-dependente- e seguimento ambulatorial- onde há destaque para o grau de adesão pelo paciente.

Ponto a ressaltar é esta conjuntura que é válida para a assistência não ocorre de modo análogo na pesquisa clínica, apesar da frequência com paciente e voluntário de pesquisa sejam mesma pessoa.

Tudo se passa como se a sociedade entendesse que há um protagonismo distinto do paciente/voluntário de pesquisa, ou seja, a assistência é praticada com a pessoa e a pesquisa na pessoa.

Um primeiro aspecto interligado é que dados e fatos acerca do indivíduo adquirem conotações dessemelhantes. O objetivo do médico, então pesquisador, fazer conexão com um voluntário de pesquisa visto com menos protagonismo é se constituir em fonte de dados para a ciência. Por outro lado, o paciente, cada vez mais entendido como protagonista, já possui seus dados e eles são fonte para cuidados com a saúde do mesmo pelo médico, então assistencial.  O que parece óbvio de um lado do balcão, o do médico, é, contudo, motivo de má interpretações no outro lado, o do voluntário de pesquisa, pois entender-se beneficiário imediato da pesquisa é estímulo comum para a aceitação do convite para se integrar à casuística.

Um segundo aspecto interligado é que na assistência, uma vez que o caso tenha sido conduzido com prudência e com zelo, o médico sente-se cumpridor do seu dever, independente de eventuais maus acontecimentos, quer eles sejam relacionados ao método e/ou a posturas não colaborativas do paciente. Ou seja, o médico sente que fez a sua obrigação em meio a uma Medicina longe de ser perfeita. Por sua vez, a pesquisa requer perfeição de concepção e desenvolvimento de quem é o maior protagonismo, o médico pesquisador. Assim,  quebras na cooperação do voluntário de pesquisa conferem uma sensação de não atingimento da meta da pesquisa. Ou seja, o médico sente que suas obrigações ficaram prejudicadas. Em outras palavras, descumprimentos do consentido pelo paciente na assistência são apreciados pelo médico como prejuízo para o paciente – um que fazer de conformismo- e não são acolhidos com mesmo pensamento quando referentes ao voluntário de pesquisa – um inconformado que fazer de mim.

Um terceiro aspecto interligado é que a comunicação na assistência pode ser desenvolvida no máximo das possibilidades. Informações e esclarecimentos pari passu aos cuidados favorecem a qualidade da conexão médico-paciente, reduzindo lacunas para serem mal preenchidas com analogias por experiências já vivenciadas ou com imaginação. Na pesquisa, além de menor cultura para explicações pari passu, não raramente, o pesquisador – “cego”, por exemplo- não tem bases concretas para informar e esclarecer, o que minimiza uma participação mais ativa do voluntário de pesquisa. Predomina a visão de voluntário como método do estudo que satisfaz critérios de inclusão.

A que questão que se apresenta é: esforços devem ser desenvolvidos para que haja uma sensação de maior protagonismo pelo voluntário de pesquisa, o que passaria por uma reformulação de como o pesquisador “pensa a pesquisa”?

Um exame crítico a respeito pode ser facilitado pelo quadro

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Crédito: Crédito: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4854260/pdf/ppa-10-631.pdf

A Bioética reúne expertise para cooperar com as necessárias discussões entre interessados em fazer pesquisa clínica e a sociedade em geral numa agenda em que não podem faltar o seguinte quinteto de prioridades:

  1. Consideração sobre a importância de ser um doador da própria doença
  2. Objetivos e processos de pesquisa
  3. Conscientização que o benefício de hoje foi a pesquisa de ontem
  4. Entendimento sobre adversidades
  5. Financiamento da pesquisa