241- Vulnerável, confiante e autonômico. Uma tríade instável

TRIA
PentágonoA beira do leito representa uma dimensão da realidade humana. Ela admite vários ângulos de visão. Didaticamente, diálogos entre os mesmos podem ser  mentalizados de modo tripartite. De fato, uma virtualidade de dezenas de triângulos “habita” este ecossistema, cada um estimulando certas reflexões éticas, morais e legais sobre inumeráveis encontros entre saúde humana e Medicina. http://bioamigo.com.br/triangulos-da-beira-do-leito/

Um destes triângulos da Bioética da Beira do leito é formado por Vulnerabilidade, Autonomia e Confiança. Qualquer movimentação num deles traz repercussão nos demais, como costuma acontecer em ecossistemas.

É impossível pensar num padrão de inter-relação da tríade apresentada. A individualidade prevalece. Pois, todo ser humano é vulnerável ao seu modo, a autonomia manifesta-se em cada um segundo razões que a própria razão desconhece e a confiança é crédito com prazo de validade.

O fundamento ético do exercício da Medicina no Brasil que o alvo de toda a atenção do médico é a saúde do ser humano harmoniza-se com a grande verdade que cidadão/paciente é criatura social possuidora de uma estrutura biológica sujeita a possibilidades e a realidades de doenças. Este pensamento, por indicar fragilidades na constituição humana, decodifica que ninguém, de maneira inata, tem saúde invulnerável.

Relações humanas e ambientais  da vida vão construindo outras modalidades “adquiridas” de vulnerabilidade. Elas impactam, sob algumas formas na vulnerabilidade intrínseca em relação à saúde. Conhecem-se as vulnerabilidades de natureza pessoal, social, política, econômica e ecológica e as ligadas a manifestações de injustiça, discriminação, opressão, violência de modo geral. Assim, agressões físicas, ataques morais, inadequações ambientais são notórias etiopatogenias de danos à saúde em seu amplo conceito, e, em decorrência, estabelecem-se exigências de imprescindíveis conexões aliviadoras, reparadoras e preventivas ao humano, ao material, ao organizacional de um sistema de saúde.

Vulnerabilidades remetem para expressões tanto de crença quanto de descrença no outro. Na área da Saúde, a confiança do paciente no conhecimento, na habilidade e no poder profissional do médico é tradição que, muito embora abalada nas últimas décadas, persiste efeito placebo adjuvante dos benefícios admissíveis pela Medicina. Por isso, é que este lado do triângulo que liga vulnerabilidade e confiança é altamente sensível à essência de É vedado ao médico causar dano ao paciente, por ação ou omissão, caracterizável como imperícia, imprudência ou negligência– art. 1º do Código de Ética Médica vigente. Mais do que censura, É vedado deve ser entendido como estímulo a revitalizações constantes, por exemplo, da antiga confiança cega do paciente no médico.  Não faltam leituras na beira do leito que o amálgama confiança da relação médico-paciente parece caminhar, não exatamente para a extinção, mas para uma postura de maior vigilância em parte sustentada pelas disponibilidades de acesso à informação e em parte pelos efeitos de memórias de negligências e/ou imperícias sofridas ou noticiadas – serviço e desserviço. Este dualismo de realidades e falsidades de impressões reúne-se  para acentuar o sentido de vulnerabilidade da sociedade ao atendimento às necessidades de saúde como um todo. Um alerta é que momentos de alta emoção dificultam reverter incompreensões sobre complexidades, dúvidas e imponderabilidades que povoam o processo de ajuste médico da prudência e do zelo a cada composição clínica.

É oportuno ressaltar, pois, que o médico nesta interface vulnerabilidade-confiança vivencia duas situações de alto impacto profissional.  A primeira é o quanto  sensações de vulnerabilidade pelo paciente sobre o sistema de saúde – muito presentes no brasileiro-, ou seja, o que “está por trás”, contaminam o grau de confiança no médico, “ali na frente”.  A segunda reporta-se à conveniência de atitudes do médico para efetiva preservação do grau de confiança depositado na sua pessoa, vale dizer, a prática de uma sincera comunicação acolhedora e esclarecedora sobre incertezas, imprevisibilidades e  adversidades de uma boa Medicina. Evidentemente, promover a aceitação de insatisfações pelo leigo é tarefa  ainda mais dificultada quando o ecossistema da beira do leito torna-se um ambiente habitado por equívocos multiprofissionais, impropriedades do hospital e desacertos do sistema de saúde.

O direito do paciente à autonomia é conquista recente da sociedade. Interage com vulnerabilidade e confiança por meio de um pronunciamento que se pretende autêntico, livre e esclarecido. É o consentimento. Uma análise crítica do cotidiano da beira do leito sugere fazer uma distinção entre consentimento e permissão. Embora sejam vistas como sinônimos, elas servem para designar atitudes diferentes na beira do leito. A permissão é uma resposta afirmativa a uma solicitação educada, por exemplo, quando  o médico dispõe-se a realizar exame físico, ela não subentende uma negação. Já o ato de consentir inclui na sua essência a possibilidade da alternativa do não consentimento. Desta maneira, na triangulação em questão sobre o ecossistema da beira do leito, níveis de vulnerabilidade e de confiança influenciam na emissão do consentimento.

No que se refere à confiança, ocorre uma proporcionalidade mais evidente, ou seja, a probabilidade do consentimento cresce ou decresce por influência do nível de (des)confiança no processo de atenção às necessidades de saúde, onde como se sabe, o médico não de modo infrequente fica refém do sistema.  Por outro lado, a vulnerabilidade por admitir algumas modalidades exerce influência diversificada  sobre o exercício do consentimento. Quem perdeu o direito à assistência suplementar de saúde consente – muitas vezes contrariado- com realidades distintas do sistema único de saúde, quem está sob forte sofrimento físico consente – agradecido- com a conduta de um médico desconhecido, quem está incapaz de tomar decisões é obrigado a uma terceirização do processo de consentimento.

Neste quesito da autonomia, há um certo paradoxo envolvendo a triangulação com vulnerabilidade e confiança. Como se sabe, o paternalismo do médico foi considerado inadequado pelo risco de desrespeito a objetivos, valores, preferências e desejos do paciente. Acontece que uma assim dita confiança cega no médico direciona para uma aceitação da recomendação que desagrada num primeiro momento. Justamente, por esta estrita confiança, um processo de paternalismo fraco, aquele em que o médico insiste de modo ético respeitando os limites da coerção, transforma o não inicial num sim com fortes tintas de confiança. Na composição do consentimento trabalhado participam invariavelmente formas pessoais, sociais e econômicas de vulnerabilidade. Haverá sempre o efeito de comunidade moral  – posso mas devo- orientadora de decisões razoáveis em prol do bem-estar.

 

240- Paciente é objetivo. Voluntário de pesquisa é método

A formação do médico inclui uma série de relações interpessoais de fato impactantes em seus momentos, muitas das quais determinam memórias indeléveis. Algumas, inclusive, acarretam efeitos assemelhados aos provocados pelas vivências das relações familiares, algo como estudante qual filho, professor qual pai e colegas qual irmãos.

Uma memória habitual da vivência inicial diz respeito à condição de jovem ainda sob efeitos da ressaca pós-vestibular, que trazendo consigo educação e conteúdos de saber, encontra veteranos e seus trotes, desconhece ainda as diferenças entre bancos universitários e colegiais, entende que se atira em queda livre rumo à formatura e tudo agora é uma questão de tempo e sente a primeira relação “médico-paciente”, melhor dito, relação estudante primeiranista-cadáver, numa fria sala de anatomia. Uma relação que, aliás, perde adaptabilidade social e parece condenada à extinção por força da reprodutibilidade e da sedução da tecnologia de imagens. Como contraponto, a virtualização substituindo uma tradicional primeira realidade pode ser vista como uma baixa para a conscientização do caráter humano da Medicina.

Logo, logo, o jovem ambienta-se e inicia a indispensável coleção de relacionamentos de influência no desenvolvimento de sua identidade de médico. Bons e maus exemplos não faltarão, instigando o caráter, a personalidade e o temperamento  do cidadão-futuro médico.

Ao longo do Curso de Medicina, a tradicional relação professor-aluno, com seus níveis de maior ou menor formalidade em parte dependentes da hierarquia docente e, evidentemente, idade-dependente, vai caminhando para a sensação de uma relação colega-colega, à medida que a diferença de conhecimentos reduz-se da profundidade abissal.

Já a relação autor de livro/artigo científico-aluno, mentalizada interpessoal em associação com a credibilidade na fonte emissora, evolui rapidamente de a dois para a três, pela inclusão do paciente. Forma-se, assim, uma triangulação pedagógica inicial tímida que, rapidamente, aprofunda imersão nas necessidades de saúde do paciente.

A relação médico-paciente eclode, assim, num cenário evolutivo de busca de  sínteses Medicina-médico-paciente para ganho de profissionalismo para análises clínicas, caso a caso, vale dizer, capacitação para a constituição técnica, científica e humana do ser médico.

Em seis anos, “panelas”, professores, currículos da graduação ficam para trás, o estudante agora é médico diplomado, mas, se porventura ainda não sabe, logo será alertado que sua identidade de médico está ainda em formação, falta muito. A periodicidade das provas torna-se diária, várias numa sequência tão fascinante quanto  assustadora, e com a diferença da Escola que, na beira do leito, primeiro vem a questão e depois corre-se atrás da lição. Provas sobre provas, em que a “cola” é exigência ética.

É atraente destacar que a máxima que a teoria na prática é diferente compõe o cenário da Residência Médica. Os seis anos de formação universitária não bastam como fundamentos éticos e legais da relação médico-paciente, inclusive porque há modificações gradativas. Realmente, a análise histórica dos 80 anos de Códigos de Ética Médica brasileiros mostra muito bem.  Ademais, evoluções dos direitos humanos transformadoras das últimas décadas desencadearam mudanças profundas nas relações de poder da beira do leito com evidente empoderamento da condição humana, expressa na figura do paciente.

Neste contexto, a Bioética salienta-se. Ela torna-se útil para facilitar a construção de pontes entre a graduação que hierarquiza a técnico-ciência – algo inevitável, embora amenizável por inciativas reformadoras-, e a pós-graduação em aplicação humanizada que rapidamente ganha mais e mais causas de confrontos entre disponibilidades da Medicina  eticamente permitidas e disposições do paciente consentidas.

A Bioética, ao contribuir para a correta percepção do modo como a sociedade enxerga as coisas da saúde, dá balizamento para ajustadas tomadas de decisão e para adequações do decidido a ser executado com a devida conscientização do paciente sobre potencialidades de bons e de maus  resultados e sobre os compromissos do mesmo com a responsabilidade oriunda da participação ativa.  A Bioética preocupa-se em tornar evidente as diferenças de interpretação de artigos do Código de Ética Médica vigente determinadas pelo atendimento durante internação hospitalar – mais estafe-dependente- e seguimento ambulatorial- onde há destaque para o grau de adesão pelo paciente.

Ponto a ressaltar é esta conjuntura que é válida para a assistência não ocorre de modo análogo na pesquisa clínica, apesar da frequência com paciente e voluntário de pesquisa sejam mesma pessoa.

Tudo se passa como se a sociedade entendesse que há um protagonismo distinto do paciente/voluntário de pesquisa, ou seja, a assistência é praticada com a pessoa e a pesquisa na pessoa.

Um primeiro aspecto interligado é que dados e fatos acerca do indivíduo adquirem conotações dessemelhantes. O objetivo do médico, então pesquisador, fazer conexão com um voluntário de pesquisa visto com menos protagonismo é se constituir em fonte de dados para a ciência. Por outro lado, o paciente, cada vez mais entendido como protagonista, já possui seus dados e eles são fonte para cuidados com a saúde do mesmo pelo médico, então assistencial.  O que parece óbvio de um lado do balcão, o do médico, é, contudo, motivo de má interpretações no outro lado, o do voluntário de pesquisa, pois entender-se beneficiário imediato da pesquisa é estímulo comum para a aceitação do convite para se integrar à casuística.

Um segundo aspecto interligado é que na assistência, uma vez que o caso tenha sido conduzido com prudência e com zelo, o médico sente-se cumpridor do seu dever, independente de eventuais maus acontecimentos, quer eles sejam relacionados ao método e/ou a posturas não colaborativas do paciente. Ou seja, o médico sente que fez a sua obrigação em meio a uma Medicina longe de ser perfeita. Por sua vez, a pesquisa requer perfeição de concepção e desenvolvimento de quem é o maior protagonismo, o médico pesquisador. Assim,  quebras na cooperação do voluntário de pesquisa conferem uma sensação de não atingimento da meta da pesquisa. Ou seja, o médico sente que suas obrigações ficaram prejudicadas. Em outras palavras, descumprimentos do consentido pelo paciente na assistência são apreciados pelo médico como prejuízo para o paciente – um que fazer de conformismo- e não são acolhidos com mesmo pensamento quando referentes ao voluntário de pesquisa – um inconformado que fazer de mim.

Um terceiro aspecto interligado é que a comunicação na assistência pode ser desenvolvida no máximo das possibilidades. Informações e esclarecimentos pari passu aos cuidados favorecem a qualidade da conexão médico-paciente, reduzindo lacunas para serem mal preenchidas com analogias por experiências já vivenciadas ou com imaginação. Na pesquisa, além de menor cultura para explicações pari passu, não raramente, o pesquisador – “cego”, por exemplo- não tem bases concretas para informar e esclarecer, o que minimiza uma participação mais ativa do voluntário de pesquisa. Predomina a visão de voluntário como método do estudo que satisfaz critérios de inclusão.

A que questão que se apresenta é: esforços devem ser desenvolvidos para que haja uma sensação de maior protagonismo pelo voluntário de pesquisa, o que passaria por uma reformulação de como o pesquisador “pensa a pesquisa”?

Um exame crítico a respeito pode ser facilitado pelo quadro

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Crédito: Crédito: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4854260/pdf/ppa-10-631.pdf

A Bioética reúne expertise para cooperar com as necessárias discussões entre interessados em fazer pesquisa clínica e a sociedade em geral numa agenda em que não podem faltar o seguinte quinteto de prioridades:

  1. Consideração sobre a importância de ser um doador da própria doença
  2. Objetivos e processos de pesquisa
  3. Conscientização que o benefício de hoje foi a pesquisa de ontem
  4. Entendimento sobre adversidades
  5. Financiamento da pesquisa

 

 

 

 

Enquete 321- Transumanismo

Transumanismo nasceu em 1957 por obra de Julian Sorell Huxkey (1887-1975). É um movimento dedicado a aumentar a capacidade física, intelectual e psicológica  das pessoas além da sustentada pela carga genética, fatores da evolução e relações com o ambiente, objetivando transcender as limitações atuais da condição humana. A aceleração atual do progresso em tecnologia como poder da computação, internet e genoma reacendeu o interesse pelo tema.

O transumanismo deve ser considerado uma prioridade atual?

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Enquete 320- Moralmente admissível?

Mesmo indivíduo é paciente e voluntário de uma pesquisa.

Na posição de paciente, ele é estimulado a ter protagonismo, participar ativamente no vai-e-vem de resoluções.

Na posição de voluntário de pesquisa, ele não exerce protagonismo, pois há um protocolo a que se propõe a ser uma fonte de dados.

Você acha moralmente admissível?

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Enquete 319- Identidade de gênero e banheiro

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Crédito: http://www.usatoday.com/story/news/politics/2016/05/13/what-does-department-of-education-say-about-transgender-bathrooms/84323146/

A Bioética é fórum para debates acerca de necessidades de indivíduos que não se identificam com comportamentos esperados do sexo biológico – Transgênero.

Um dos itens de apreciação é  o constrangimento  de pessoas nascidas homens que apresentam uma identidade de gênero feminina, em relação a locais que apresentam seleção do gênero, como banheiros frequentados pelo publico.

Recentemente, o governo americano lançou a recomendação para escolas em geral permitirem que estudantes transgêneros usem o banheiro que corresponda a sua identidade de gênero. A medida logo ganhou adeptos e opositores.

Hospitais no Brasil deveriam considerar esta iniciativa?

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Enquete 318- Fármacos. Licença para matar? (2)

Setembro de 2015: “… Anunciamos que a Hospira, líder mundial em drogas injetáveis… faz parte agora da Pfizer…”.  http://www.pfizer.com/news/press-release/press-release-detail/pfizer_completes_acquisition_of_hospira

Maio de 2016: “… A  Pfizer  produz  com o obejtivo de contribuir para a vida portanto, opõe-se ao mal uso de fármacos para execuções por injeção letal em instituições prisionais…”.  http://www.bioedge.org/bioethics/pfizer-to-stop-supplying-drugs-for-executions/11872

A decisão deveria ser estendida para o uso de drogas no suicídio assistido?

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239- inteligências selecionadas, seleções de pensamentos e especialidades selecionáveis

A profissão de médico favorece a adesão à teoria das inteligências múltiplas. De fato, é plural a habilidade em pensar e realizar tudo que se insere nos sentidos da Medicina. As diversificadas realidades da prática médica demandam competências articuladas, o que Howard Gardner (nascido em 1943), o idealizador da teoria, se referiu como: “estruturas da mente distintas e relativamente independentes umas das outras e que podem ser modeladas e combinadas numa multiplicidade de maneiras adaptativas”.

A história da beira do leito é uma narrativa de combinações nunca esgotadas de necessidades de saúde. As transformações são regidas por composições infinitas de anatomias, etiologias e fisiopatologias incidentes caso a caso, o que vale dizer, muitas possibilidades para um único corpo humano.

É de se notar, pois, que somente o trabalho de múltiplas estruturas da mente humana é capaz de bem sustentar geração, expansão e aplicação dos necessários e heterogêneos conhecimentos técnico-científicos e habilidades humanas na área da Saúde.

Ao longo da carreira de médico, oportunidades ligadas ao que costuma ser mencionado como aptidão, talento ou vocação surgem e/ou são garimpadas para satisfação de módulos de inteligência e processamento de funções específicas, pois a beira do leito é local provocativo de 1001 habilidades profissionais.

A teoria das Inteligências Múltiplas, que entende que o Quociente de Inteligência (QI)- Wilhelm Stern, 1871-1938- traz uma visão reducionista, reconhece a individualidade de inteligências lógica-matemática, visual, intrapessoal, interpessoal, linguística. O conhecido eu sou bom nisso e péssimo naquilo, você é bom naquilo e péssimo nisso.

Não é difícil reconhecermos rapidamente vários colegas com destaques no âmbito desta classificação. De fato, médicos conectam-se aos pacientes com atitudes sensorial, lógica e linguística, manifestam domínios de empatia e simpatia, reagem a mutabilidades e inconstâncias subentrantes individualizando-se em grande parte  em conformidade com maiores ou menores facilidades proporcionadas pelas expressões das citadas inteligências.

A análise crítica das missões exercidas pelo médico na beira do leito, desde intenção até aplicação contribui para reduzir o valor de uma crítica à teoria das Inteligências Múltiplas levantada por Linda Susanne Gottfredson (nascida em 1947) para quem Gardner confundiu inteligências com traços de personalidade. O certo é o que a beira do leito quer é um acolhimento de um ser médico, um ser moral, um ser profissional, um ser humano do modo mais eficiente que inteligências e personalidades consigam proporcionar.

É facilmente reconhecível que é utilizando possibilidades distinguíveis das suas inteligências que clínicos, cirurgiões, intervencionistas de modo geral, especialistas em exames de imagem, pesquisadores, gestores, etc… lidam com mais ou menos (inclui nenhuma) fluidez com cada área de atuação, com a relação médico-paciente-Medicina, com atividades assistenciais, didáticas e de pesquisa, com recepção e difusão do conhecimento, com associações de classe, com ligações fora da Medicina, etc… etc… Esta linha conceitual explica porque é clássico supor que um bom clínico não seria um bom cirurgião (carência de coordenação motora, por exemplo), admitir que a gestão é para um contingente especial (responsabilidades de organização e economia acima da clínica), engrandecer no patologista o interesse por detalhamentos de fato esclarecedores (valorizar a parte submersa do iceberg).

Assim, o apuro das competências para o enfrentamento dos desafios das necessidades de saúde conforme demonstrado na beira do leito constitui contraponto à teoria das inteligências gerais da supracitada Linda Susanne Gottfredson, para quem um indivíduo hábil num setor tende a ser hábil também nos outros. Mais uma consideração a favor da frase inicial deste artigo:  A profissão de médico favorece a adesão à teoria das inteligências múltiplas.

É admissível, pois, que o gatilho diferenciador das 1001 habilidades do médico não seja exatamente, o treinamento diferente. As nuances deste é que são acionadas pelas especificidades da “estrutura da mente”. Não faltam exemplos de jovens que  a priori entusiasmados por uma especialidade encontram a posteriori outra que lhes seduz: “você nasceu e viverá para mim”.

É  da história de vida dos médicos que os estímulos para a seleção das trilhas do estudante de Medicina recém-ingresso na Faculdade até a escolha da modalidade de Residência especializadora que o exercício das especialidades médicas carrega vontades – desejos+movimentos- fortemente associadas a peculiaridades de inteligência. As expressões de competências materializam-se como um poder que necessita ser preservado e expandido. É comum observar médicos que se aposentam no papel, reduzem atividades, mas não aposentam as inteligências, assim conservando o poder do ser médico. É o fantasma da demência que mais assusta a inteligência do manter-se médico.

No encadeamento inteligências selecionadas promovem seleções de pensamentos e determinam especialidades selecionáveis, o poder do especialista somente se torna representativo quando embasado em evidências científicas. Caso contrário, ele corre o risco de representar uma inteligência “vazia” e uma atuação dissociada de preceitos éticos. É perante o conhecimento validado, pois, que a tríade inteligência-pensamento-especialidade trabalha com impossíveis neutralidades sobre o valor técnico-científico das evidências- cada médico lapida suas preferências de utilidade-, ajustando verdades  disponíveis caso a caso, segundo um  juízo clínico com o máximo de imparcialidade sobre benefício e segurança.

A exuberante diversificação de métodos causada pelo progresso da Medicina foi determinando, ao longo do século XX, utilizações dos painéis de inteligências individuais mais afinadas com os domínios teóricos e práticos da conciliação entre clássico e inovação. A consequente explosão de (sub)especialidades alinhou-se a uma incômoda fragmentação da visão de enfermidade de um ser humano. Cada árvore tornou-se mais estudada, é verdade, a floresta, contudo, apequenou-se no senso clínico. Criou-se um desafio para a articulação dos painéis individuais de inteligências na beira do leito.

O início da diversificação do ser médico por binômios específicos de inteligência-pensamento-especialidade foi tímido. Muitos formadores de opinião conservadores manifestaram oposições conceituais e desconfianças práticas a respeito do valor das especialidades nas primeiras décadas do século XX. Com o tempo, o instituto das inter-consultas formais ou informais foi se consolidando, especialmente nos hospitais de ensino ligados a Universidades e organizados em distintos Serviços de disciplinas, além da crescente conscientização sobre as vantagens da pesquisa clínica. Todavia, as inter-consultas não garantiram num primeiro momento o diálogo sobre os diferentes núcleos de saber, ou seja, a interdisciplinaridade de fato. Elas mais representavam uma reunião de monólogos presente na estratégia de conduta. Assim como colírio não tinha nada a ver com pomada, a atuação especializada sobre um órgão fazia-se com “cegueiras” sobre efeitos colaterais no conjunto do corpo humano.

Cabendo na figura da precedência do ovo ou da galinha na história recente da Medicina, subsequentes juízos críticos sobre a eficiência na beira do leito foram trazendo reconhecimento do potencial de danos das opiniões de especialistas soltas, descoordenadas. Mais recentemente, as chances do indesejável cresceram pelas dificuldades de preservação de um timing clínico vantajoso dependentes do sistema de saúde. Solicitam-se exames – incluo exame como inter-consulta a uma especialidade- que por demorarem para ser coordenados pelo solicitante traz o risco de prejudicar o ritmo da tomada de decisão e assim deixar escapar melhores oportunidades de contenção e de resolução clínicas.

A anestesia é emblema antigo da afirmação que o poder de uma especialidade afirma-se na perfeita conjunção temporal e espacial com outras. O pensamento crítico, assim, expande-se além do conhecimento “intra-muros” da especialidade, estimula o desenvolvimento de ajustes de aplicação das modalidades de inteligência, o que faz crescer o poder das mesmas na medida em que a interdisciplinaridade faz sentir a imprescindibilidade da complementariedade de estruturas da mente.

Dando um passo largo para os dias de hoje e guardando analogia com os clássicos times de profissionais da saúde para aplicação terapêutica, chega-se à edificação do valor de um time de médicos para tomadas de decisão. A vontade de bem posicionar a contribuição de sua especialidade-inteligência para a construção do diagnóstico e para apreciação da relação benefício clínico-segurança biológica e a conjunção de objetividade e transparência trazem vários benefícios que podem ser resumidos como ascensão profissional coletiva.

Os intercâmbios de conhecimentos entre os partícipes do time no processo de tomada de decisão auxiliam a cada um entender um pouco mais de mais especialidades, conhecer  melhor as facilidades e as dificuldades vividas pelas mesmas, ou seja, eles fazem pegar carona em inteligências mais aquinhoadas do que as próprias no caminho da integração em “tempo real”.

Para terminar,  desejo expressar uma preocupação de natureza ética com o exagero de utilização de “outras superioridades de especialidades-inteligências em relação a nossas”, sob a forma da chamada Medicina defensiva. Inteligências de imagem, numéricas e demais mais aptas para avaliação de certas peculiaridades clínicas são solicitadas a se manifestar com o objetivo de endossar a já bastante composição de inteligência do clínico para o caso.  O dispendioso “consórcio” de inteligências mobilizado além do razoável não se articula com o Princípio fundamental IV do Código de Ética Médica vigente – Ao médico cabe zelar e trabalhar pelo perfeito desempenho ético da Medicina, bem como pelo prestígio e bom conceito da profissão.    

Enquete 317- Fármacos. Licença para matar? (1)

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Crédito: http://www.megacurioso.com.br/policia/39873-voce-sabe-como-funciona-a-injecao-letal-.htm

Setembro de 2015: “… Anunciamos que a Hospira, líder mundial em drogas injetáveis… faz parte agora da Pfizer…”.   http://www.pfizer.com/news/press-release/press-release-detail/pfizer_completes_acquisition_of_hospira

Maio de 2016: “… A  Pfizer  produz  com o objetivo de contribuir para a vida portanto, opõe-se ao mal uso de fármacos para execuções por injeção letal em instituições prisionais…”.  http://www.bioedge.org/bioethics/pfizer-to-stop-supplying-drugs-for-executions/11872

Você entende que a Pfizer age corretamente?

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238- Comprometimento do paciente é remédio

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Crédito:http://pt.dreamstime.com/imagem-de-stock-royalty-free-personage-3d-e-s%C3%ADmbolo-da-nega%C3%A7%C3%A3o-image9428456

O médico  ajusta o estado da arte da Medicina com a devida prudência à individualidade no processo de tomada de decisão. Obtido o consentimento sinal verde do paciente, o zelo com o decidido é imperativo. O sucesso é variável em função do caráter biológico dos focos de atenção às necessidades de saúde do paciente.

Perante insucesso, em seu amplo espectro, uma pergunta imediata é: Houve erro profissional?  É questão  levantada mais comumente em situação em que o atendimento exige recursos materiais e humanos nas dependências de um hospital, proximidade multiprofissional e competências interdisciplinares. Os passos diagnósticos e terapêuticos são guiados e supervisionados de uma maneira que costuma valer-se de uma postura de permissão e obediência do paciente que se entende embutida no processo de consentimento. Recorde-se que a beira do leito faz uma distinção entre as palavras sinônimos consentimento- possibilidade de dizer sim ou não – e permissão- improbabilidade de dizer não.

O erro profissional pode ser mentalizado como uma doença – com etiopatogenia, diagnóstico, tratamento e prognóstico que inclui óbito numa alta posição no ranking de causa-mortis. http://www.bmj.com/content/353/bmj.i2139

Nesta mesma linha de pensamento, o grau do comprometimento do paciente pode ser mentalizado como um remédio. Aplicar-se-ia com mais conveniência para o atendimento ambulatorial. Alto comprometimento do paciente equivaleria à utilidade e à eficácia da chamada classe I de recomendação da Medicina. Poder-se-ia dizer que o sucesso almejado depende fortemente da vontade do paciente  em cumprir  o consentido na frente do médico tendo a consciência de ser o cuidador de si mesmo longe de uma estrutura de apoio  como a hospitalar.

Evidentemente, a coordenação médica e os retornos para reanálises e reorientações ficam extremamente facilitados e beneficiados pelo comprometimento do paciente com a estratégia traçada e consentida.

Cogitar sobre comprometimento do paciente como remédio redutor de danos – inclusive  óbito- para o mesmo traz a interessante apreciação: a ausência danosa é passível de um juízo de erro profissional. Implicaria em dois cenários: o da orientação pelo médico e o da aplicação pelo paciente.

Comecemos pela segunda conjuntura. Até que ponto o médico deve ser arrolado porque o paciente não cumpriu a “lição de casa”. É análise que encerra altíssimo grau de subjetivismo. Há o descumprimento consciente da desconformidade e há aquele que se perde no terreno movediço das dificuldades cognitivas que entrava o alcance dos objetivos e abstém do alerta para as adversidades.  É situação onde fica sempre no ar a dúvida se o paciente foi de fato bem esclarecido ou se as recomendações desconsideraram desejos e preferências do paciente e até mesmo impossibilidades de aplicação.

Estas incertezas constituem ganchos para a primeira conjuntura. Conhecê-los traz lições: a) o silêncio sobre o valor do comprometimento é imprudente; b) a eficiência no esclarecimento para o paciente dos intervenientes para a tomada de decisão a ser consentida, idealmente, não deve resultar refém de um tempo predeterminado para  diálogo; c) todo esforço para compatibilizar recomendação consentida e aderência é bem-vindo; d) o registro em prontuário sobre as várias nuances do consentimento é salvaguarda contra acusações de má-fé pelo paciente do tipo não “fui informado”.

A Bioética constitui fórum competente para discussões sobre os re-enfoques da Medicina sob os pontos de vista do paciente e o real engajamento do mesmo nas condutas legitimadas por ajustes assim centrados. Elas auxiliam a firmar eticidade às pontes entre autonomia e paternalismo fraco (aquele que insiste mas não coage) e reconhecer quando se atinge a fronteira de um indesejável paternalismo forte.

 

Enquete 316- Profetismo de Potter?

potter45Em 1972, um ano após a publicação do livro Uma Ponte para o Futuro, marco da bioética contemporânea, Van Rensselaer Potter (1911-2001) declarou numa Conferência sobre Responsabilidade social dos cientistas:

“…  Entramos numa nova era em que a ciência e a tecnologia terão a capacidade de destruir a viabilidade da Terra, caso sejam mal utilizadas. Eu rejeito fortemente a realização da pesquisa como um fim em si mesma e não assume as responsabilidades pelas consequências. Tendências desastrosas cientistas-dependentes podem estar em franco andamento. Há necessidade do desenvolvimento de um novo senso  de responsabilidade entre os cientistas, espontâneo e propenso ao diálogo com não cientistas.  A questão é como subsequentes imperativos da ciência  poderão conviver com os valores tradicionais da ciência…”. 

Passadas cerca de quatro décadas, pode-se dizer que o alerta de Potter ressoou na comunidade científica brasileira?

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