208- Auto-confiança e arrogância

Já ouvi  inúmeros depoimentos de colegas em situação de representação ética e/ou administrativa contra os mesmos. Situação desagradável, é verdade, contudo extremamente pedagógica. Há cenários óbvios em que não cabe mais do que uma interpretação do ocorrido: o médico visou ao lucro ou satisfez o pedido do amigo e deu um atestado anti-ético, muito simples de caracterizar o ilícito. Há cenários complexos com idas-e-vindas de apreciações  em meio a nebulosa fronteira entre ético e não ético: um mau resultado mal esclarecido  ao paciente subsequente a uma estratégia terapêutica que vem sendo contestada na literatura, embora constante de diretrizes clínicas não recentemente atualizadas.

Fica perceptível que médicos reagem de várias maneiras ante suposição de erro profissional. Alguns admitem prontamente que foi um mau dia de má decisão/conduta, ficam constrangidos, sensíveis a se desculparem e a reconhecerem que uma penalidade poderia ser justa. Outros entendem que não cometeram nenhuma infração a códigos, normais ou leis e defendem diligentemente seus argumentos técnicos e suas atitudes, resultando, inclusive numa alta proporção de convencimento sobre a pertinência dos mesmos pelos ouvintes e julgadores do contraditório do expediente.

Habitualmente, são momentos de intensidade emocional energizada por contraposições enfeixadas  sob rótulos como verdade x mentira, infração x não infração, conciliação x penalidade. Eticófonos, eticodislálicos e eticopatas http://bioamigo.com.br/enquete-222-eticofono-eticodislalico-eticopata/ alternam-se como representados, pois nenhum médico está isento de ser denunciado em função de entendimentos por expertos ou por leigos sobre o seu profissionalismo. Não raramente, nos deparamos com certo x certo, aguardando que alguém nivele as percepções a partir de ângulos distintos, mas não excludentes.

Primeiras vezes de médico não faltam e que independem de quão antigo possa ser o número do CRM. O bom passado é fator de afastamento da eticopatia nos colegas mais velhos, mas não necessariamente da eticodislalia – um useiro e vezeiro de determinado ilícito finalmente exposto.

É comum a observação entre os eticófonos – alta chance de não ser infrator- , mas não apenas neles, a manifestação de  posturas de defesa que, de certa forma, estimulam algum exercício mental sobre o porquê da representação de real insatisfação que não encontra guarida nas regras vigentes, especialmente se provocada por aspectos ligados a atitudes do médico com o paciente/familiar.   Destaco duas: auto-confiança e arrogância.

A auto-confiança representa afirmação de si para si próprio que é competente, aprendeu a aplicar métodos pela experiência, conhece os limites e as limitações, está preparado para cuidar das variações de resultados, adquiriu sabedoria suficiente para desempenhar a necessária atenção às necessidades de saúde do caso em questão. Um discurso de legítima auto-confiança como defesa de alguma acusação, se por um lado, é eficaz no julgamento, por outro, faz supor que um “excesso” do mesmo possa ter atropelado um diálogo com o paciente, incentivado à realização do procedimento -leia-se constrangimento ao consentimento- sem a devida passagem por certos filtros de possibilidades de não acontecer exatamente com a precisão confiante. A Bioética da beira do leito, neste contexto, reforça como o entendimento sobre iatrogenia é diferente entre médicos e entre leigos. A interpretação da bula do medicamento é exemplar, neste sentido.

Já a arrogância não se refere a si para si próprio. Ela reflete um entendimento que o outro é inferior a seus padrões de atuação. No período pré-procedimento, pacientes toleram eventuais arrogâncias do médico – “… você não entende nada sobre isso… Não vou perder meu tempo…” – em função do momento delicado de sofrimento que deseja ser revertido. No pós-procedimento, as circunstâncias poderão provocar um rewind  das imagens gravadas e fazer “vomitar o mal engolido”, assim exteriorizando crítica denunciadora da atitude de soberbia. É suposição explicativa válida quando o médico se porta com arrogância perante uma comissão avaliadora do seu comportamento profissional.  A Bioética da beira do leito, neste contexto, reforça a necessidade de o médico preocupar-se em se conscientizar da diferença entre “o que realmente é” e ” o que gostaria de ser”, essencial para colocar o orgulho na sua real medida. Pois, como já dito por filósofos, o orgulho não quer dever, e o amor-próprio não quer pagar.