217- Medicina De(O)fensiva

imagesFoi uma conversa interessante com enorme contexto em Bioética:

Paciente (homem com 60 anos de idade que retorna, pela primeira vez, ao cardiologista que o acompanhou na cirurgia de troca da valva mitral há 2 anos): Pois é doutor, como o exame de cateterismo que fiz antes de operar mostrou que eu tinha 50% de entupimento numa artéria coronária, o cardiologista que me acompanha onde eu moro insiste que eu devo tomar aspirina e estatina.

Médico:  Ele está preocupado com uma possível piora do entupimento.

Paciente: Doutor, eu li muito sobre estes dois medicamentos e cheguei à conclusão que os efeitos colaterais não justificam que eu tome, não sinto nada e não quero ter dor de estômago, dor nos músculos. Agora que me aposentei quero aproveitar a vida. Minha mãe tomava aspirina, o médico lhe dizia que ela estava bem protegida e teve um derrame cerebral hemorrágico que a deixou dois anos entrevada numa cama até falecer. 

Médico: É uma decisão sua não tomar, mas o médico tem obrigação de lhe esclarecer sobre os benefícios de tomar os medicamentos.

Paciente: Eu sei, ele está certo, me explicou  direitinho, mas o que eu não entendo é que toda a vez que eu vou nele ele me dá uma receita com estes dois remédios, mesmo sabendo que eu não vou tomar.

Médico: Mas ele já deve ter anotado no seu prontuário que lhe recomenda, mas você se recusa a usar.

Paciente: Exatamente, doutor, já lhe perguntei isso, mas ele responde que se não me der uma receita é como se ele achasse desnecessário que eu tome os remédios, não estaria sendo um médico que conhece Medicina, que está atualizado. Rasgo a receita assim que chego em casa, nem deixo a minha esposa ver, doutor, o senhor como é que é se ela souber…

Medic.Defens.4Este prescreveu para o paciente, resolveu para si  ilustra uma das infinitas facetas da Medicina Defensiva que tem dominado a realidade médica nos últimos tempos. Cada médico tem sua própria coleção de temores profissionais e os acalma invocando práticas que julga antídotos a juízos que outrem possa fazer de negligência e de imprudência com o paciente, dois vilões da infração ética.

Art. 1º do Código de Ética Médica  vigente: É vedado ao médico causar dano ao paciente, por ação ou omissão, caracterizável como imperícia, imprudência ou negligência.

É difícil vislumbrar o que o papel da receita nas mãos do paciente acrescentaria em termos de zelo ao suficiente registro em prontuário sobre a não adesão manifesta do paciente capaz à recomendação. Alguém poderia até argumentar que entregar uma receita não desejada a um paciente bem esclarecido e bem convicto  da decisão negativa seria uma violência, como já ouvi de um advogado numa situação análoga pretendendo acusar que houve uma coerção: enfiar goela abaixo com autoritarismo.

Evidentemente, a contraposição acima relatada já deve ter passado pelo estágio da elucidação entre o paciente acreditar ser a melhor escolha e ele desejar esta escolha. Há uma zona cinzenta entre paciente supor  e paciente querer, onde o médico pode exercer o chamado paternalismo fraco, fazer ver ao paciente que a interpretação por ele feita como leigo tem certos equívocos, exageros de cautela, que ele deveria reconsiderar a opinião, “acreditar diferente”. A próxima etapa é a definição pelo paciente do de fato desejo, por exemplo, de não aceitar mesmo após as novas ponderações, o que deverá ser respeitado dentro do chamado princípio da autonomia. Neste contexto, elaborar um documento na contramão do consentimento do paciente – a receita por exemplo- forçando a recepção indesejada pelo paciente poderia ser apreciado como um desrespeito do médico à liberdade de opinar e de se conduzir em relação às próprias necessidades de saúde de quem é que padece de fato da enfermidade. Muitos contra-argumentariam: Se ele mudar de opinião… O efeito esposa existe… Se ele sentir algo, vai repensar….

O comportamento em questão mostra-se de certa forma em oposição ao mais habitual que é a exigência do paciente por solicitações de exame e prescrição de medicamentos longe de critérios admissíveis.

O princípio da autonomia foi incorporado à Medicina como salvaguarda dos muitos horrores praticados contra o ser humano, especialmente na primeira metade do século XX. Que nada passasse a se ser feito sem o consentimento esclarecido do paciente- ou voluntário de pesquisa, foi o desencadeante em harmonia com o humanismo. Acontece que ele é válido tanto para o paciente quanto para o médico. O profissional que não está cogitando em fazer maldades usando em vão o nome da Medicina sente-se incomodado em vir a ser interpretado como negligente e/ou imprudente e assim ver-se  sujeito a um processo ético e/ou legal.

A beira do leito tem suas areias movediças. Confundir acreditar na utilidade com desejo de dela se valer, enroscar-se num juízo de direito do paciente, indispor de tempo hábil esclarecedor são terrenos que prejudicam  sustentação da ética e se tornam propícios para que o atendimento afunde numa burocratização que passa a ser objetivo maior do mesmo, uma papelada que escorre como eficiente guardiã do zelo. Por isso, a Medicina Defensiva tem como um dos seus dublês uma Medicina Ofensiva – no sentido de injuriosa- às boas práticas.

Carimbadas a mais do que necessário acontecem sob nomes de medicamentos, exames complementares, relatórios. Pelos excessos, Medicina De(O)fensiva é cruzamento sob pseudos valores. Folhas de desperdícios por um discutível papel do médico. Não estaríamos na hora de começar a virar a página?

Enquete 254- Colega e irmão?

O Juramento de Hipócrates  original contém: Ter seus filhos por meus próprios irmãos.

O chamado Juramento de Hipócrates moderno, na verdade a Declaração de Genebra de 1948, inclui: Meus colegas serão minhas irmãs e irmãos.

Uma bonita figura de linguagem, sem dúvida. Mas será que persiste aplicável? Ainda mais quando há necessidade de o  nosso Código de Ética Médica vigente lembrar ao médico que ele deverá ter para com os colegas, respeito, consideração e solidariedade?

Ademais, há o capítulo Relações entre os médicos sob o caput É vedado ao médico, de onde destaco 5 artigos: 47-  Usar de sua posição hierárquica para impedir, por motivo de crença religiosa, convicção filosófica, política, interesse econômico ou qualquer outro, que não técnico-científico ou ético, que as instalações e os demais recursos da instituição sob sua direção, sejam utilizados por outros médicos no exercício da profissão , particularmente se forem os únicos existentes no local; 48 – Assumir emprego, cargo ou função para suceder médico demitido ou afastado em represália à atitude de defesa de movimentos legítimos da categoria ou da aplicação deste Código; 51 – Praticar concorrência desleal com outro médico; 53 – Deixar de encaminhar o paciente que lhe foi enviado para procedimento especializado de volta ao médico assistente; 54 – Deixar de fornecer a outro médico informações sobre o quadro clínico de paciente, desde que autorizado.

Numa visão realista, você que convive com colegas médicos há pelo menos 10 anos, manteria a superposição entre coleguismo e irmandade na próxima revisão prevista do Juramento moderno?

  • Sim, pela tradição, apesar dos muitos Caim e Abel que conheço (0%, 0 Votes)
  • Sim, vejo sempre os médicos comportarem-se como verdadeiros irmãos (0%, 0 Votes)
  • Não, no máximo colegas, comportamento fraterno não é aplicável (0%, 0 Votes)

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Enquete 253- Discriminação à mulher ainda no útero na Índia

Anatole France (1844-1924) disse que o povo vive mais de ações do que de ideias.  Há muitas boas ideias que provocam dificuldades de aplicação, praticamente invalidando-as.

É comum na Índia, país com 1,2 bilhão de habitantes e taxa de natalidade estimada em 21 nascimentos por mil habitantes, o aborto seletivo do concepto do sexo feminino.

Em post recente, Michael Cook do BioEdge atualiza a situação http://www.bioedge.org/bioethics/indian-medical-association-backs-pre-natal-sex-tests/11766 e torna atual o pensamento do escritor francês.

Na opinião do bioamigo, uma mudança de comportamento a respeito do aborto seletivo do concepto feminuno pode se beneficiar de

  • Proibição da realização de ultrassonografia para identificação do sexo do concepto na gestação, o que tem implicações negativas sobre acompanhamento do desenvolvimento estrutural (0%, 0 Votes)
  • Obrigatoriedade de registro do sexo feminino e vigilância evolutiva, com chance de não eliminar abortos encobertos como "naturais" e causar dilemas éticos ao médico, bem como um pesadelo burocrático (0%, 0 Votes)
  • Campanha intensa de conscientização contra o feticídio feminino (0%, 0 Votes)
  • A cultura de um povo deve ser tolerada (0%, 0 Votes)

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Enquete 252-O asno de Buridan e a hesitação numa tomada de decisão pelo paciente

caminhoO filósofo francês Jean Buridan (1300-1358) ficou famoso pelo asno que mentalizou. O asno de Buridan representa o paradoxo de se deixar morrer em função do livre-arbítrio para decidir o que fazer para bem viver.

Buridan considerou que o asno movimenta-se invariavelmente na direção do que estiver mais próximo. Em decorrência, a colocação de um feixe de feno e de um recipiente de água a igual distância do animal impedirá uma tomada de decisão e o animal morrerá de fome e de sede. Este pensamento é aplicado a estudos sobre inteligência artificial.

Quem tem experiência com a beira do leito sabe que muitos pacientes ficam paralisados quando instados pelo médico a tomar uma decisão autonômica entre o método A e o método B. Eles não conseguem distinguir qual deles encontra-se mais perto de suas preferências e desejos em relação ao risco/benefício.

Diante da situação, o médico perspicaz e empático repete os esclarecimentos e se propõe ao diálogo com o objetivo de uma deliberação. Ao constatar que a hesitação do paciente é recorrente, o médico poderá ficar propenso a e dar um empurrãozinho numa direção. Evidentemente, ela será a que julga mais favorável para o paciente.

A autonomia fica contaminada por um grau de paternalismo.

O empurrãozinho acima mencionado deve ser considerado anti-ético?

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216- O valor da empatia no médico. Uma contramão ao Dr. House

empatia

Crédito: http://blog.acelerato.com/atendimento/empatia-atendimento-ao-cliente/

O término da produção do seriado Dr. House em 2012 reduziu o impacto do personagem do inglês James Hugh Calum Laurie (nascido em 1959) sobre o atual estudante de Medicina.

Se por um lado o Dr. Gregory House é um herói-estímulo para o jovem se habilitar ao diagnóstico difícil, por outro lado, é um vilão-desserviço para a proximidade humana ao paciente, tocando mesmo numa aversão social.

Digno de nota é que os importunos éticos acontecem num hospital universitário, o sacrossanto ambiente onde o hipocrático exemplo do professor é matéria-prima essencial do aprendizado médico.

A Bioética endossa a opinião majoritária de educadores da área da saúde que a atenção às necessidades do paciente beneficia-se por um entorno de empatia do médico, ao mesmo tempo que reconhece que ela é um produto escasso em muitas beiras do leito.

Já discutimos em outros artigos que o tempo (falta de) é contraponto  ético distanciador do paciente – nós não temos o tempo, ele é que nos tem. Trata-se de uma realidade do atarefado sistema de saúde, sem dúvida, mas que precisa ser modificada. Insatisfações gerais decorrem, tanto o paciente se sente mal acolhido, quanto o médico se vê passando por mau profissional.

Sendo palavra-chave da beira do leito para o alívio das tensões habituais provocadas pela doença e da pouca palatabilidade de métodos diagnósticos e terapêuticos, a empatia precisa participar como tempero ubíquo no curriculum médico desde a entrada na Faculdade.

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Crédito: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/medu.12806/epdf

Empatia subentende mais de uma definição. Diferenças estão no peso aplicado aos componentes cognitivos, emocionais e comportamentais. O quadro mostra combinações distintas de pensar, atuar e sentir na consideração da empatia.

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Crédito: http://ovidsp.tx.ovid.com/sp-3.18.0b/ovidweb.cgi? WebLinkFrameset=1&S=CGECFPCCFHDDFDMLNCJKPGMCINHNAA00& returnUrl=ovidweb.cgi%3f%26Full%2bText%3dL%257cS.sh.22.23%257c0%257c00001888-200909000-00012%26S%3dCGECFPCCFHDDFDMLNCJKPGMCINHNAA00& directlink=http%3a%2f%2fgraphics.tx.ovid.com %2fovftpdfs%2fFPDDNCMCPGMLFH00%2ffs046%2fovft%2flive%2fgv025%2f00001888%2f00001888-200909000-00012.pdf &filename=The+Devil+is+in+the+Third+Year% 3a+A+Longitudinal+Study+of+Erosion+of+Empathy+in+Medical+School.& amp;pdf_key=FPDDNCMCPGMLFH00& pdf_index=/fs046/ovft/live/gv025/00001888/00001888-200909000-00012

Fato preocupante é o reconhecimento que  a capacidade do estudante de Medicina de  ouvir  e entender  a perspectiva do paciente e respeitar  durante o atendimento é prejudicada durante os anos da formação médica. Preocupante e revoltante pelos objetivos que devem nortear uma Faculdade de Medicina.

O Quadro evidencia que ocorre um declínio de escore que mede empatia no estudante de Medicina quando as atividades curriculares aproximam-se do paciente, justamente quando a empatia precisa perpassar o avental e o estetoscópio.

Na prática, isso significa que o diabo espreita na terceira série do curso médico- o título do artigo da revista Academic Medicine de autoria de M Hojat e col (2009), de onde reproduzimos o desalentador gráfico do Quadro.

A mensagem é que o prioritário foco nas explicações sobre a doença, no exercício do diagnóstico e na aplicação terapêutica que costuma ocorrer no ensino – a beira do leito como sala de aula, o paciente como o livro- precisa ser mais bem compartilhado com um real comprometimento do jovem estudante com o paciente que lhe empresta seus males para a aquisição de conhecimentos necessários ao futuro médico.

É ilusória, pois, a visão que o paciente é tão-somente uma fonte passiva de dados e fatos pedagógicos. O estudante de Medicina tem que ser treinado a observar que é um ser humano quem está lhe doando saberes, um humano vulnerável  e necessitado do acolhimento a objetivos, desejos e preferências.

A velha observação reparadora que o paciente não é um número qualquer de leito que identifica, um estranho nome de doença que exemplifica ou aquele caso interessante que enche a boca repercutir não pode ser negligenciada.

A Bioética entende que o professor de Medicina tem responsabilidade sobre o acompanhamento da qualidade empática com que cada estudante entra na Faculdade de Medicina e suas modificações ao longo do curso. A pulverização de professores, a delegação do ensino a menos qualificados, a desatenção de alunos são prejudiciais neste contexto.

Aquele que é de fato mestre, que vibra quando ensina e que se esforça para que haja aprendizado, deve insistir no franco comprometimento do seu discípulo com o paciente, vale dizer, conscientizando-o sobre o mau exemplo tipo “Dr. House” neste quesito da atuação na beira do leito.

Evidentemente, Escolas de Medicina devem formar bons médicos, subentendido como dotados de visão igualitária entre ciência e humanismo. É responsabilidade social das mesmas que inclui não fechar os olhos para aspectos relacionados à empatia do estudante de Medicina.

A excelência técnico-científica de uma instituição de ensino médico não deve ser exaltada se não possuir uma contrapartida de humanismo, especialmente na comunicação interpessoal entre médico e paciente. É sabido que o humanismo é calcanhar de Aquiles no progresso tecnológico na Medicina, quando o jovem – seguro pela Faculdade qual nereida Tétis- nele mergulha em busca da imersão determinante de qualidade de vida e sobrevida.

A Bioética é partícipe do movimento de transformação do silêncio  entre médico e paciente  num diálogo sincero e voltado para um autonômico consentimento. É ocasião onde a empatia atenua impulsos paternalistas e direciona para o acatamento à participação ativa do paciente nos processos de tomada de decisão.

Afinal, a placa Silêncio Hospital modernizou-se. Reduziu-se o valor para o descanso do paciente. Ela visa a impedir que ruídos externos perturbem a recepção da emissão de comunicação entre médico e paciente em suas duas vias de direção. Na verdade, um não perturbe  nosso ambiente de resolução está na linha do quanto possível resgate da imagem idealizada do médico do passado, que  ainda permanece na expressão do idealismo do  vestibulando para Medicina, com seu componente de empatia com o sofrimento alheio. Pena que idealismo e empatia estejam correndo para ralos  que parecem representar cada vez mais bocas de lobo em recintos de Faculdades.

Há, inclusive, linhas de pensamento que entendem que Escolas Médicas poderiam vir a ser intimadas ao Judiciário, num futuro não distante, para prestar esclarecimentos a respeito de suposições de negligenciamento com o desenvolvimento de qualidades do aluno relativas a caráter e a personalidade essenciais para o cuidado de um ser humano por outro ser humano. Elas incluem o radicalismo de impedir a progressão acadêmica para o estudante propenso à aversão social, a fim de preservar o conceito de Escola de boa qualidade na formação profissional – o estudante House impedido de se tornar  Dr. House. Polêmico, sem dúvida!

Fala-se muito sobre amnésia do Juramento de Hipócrates para sustentar críticas à carência de empatia por parte de médicos. Neste contexto, é válido apontar alguns fatores que costumam influenciar oscilações da prática empática. Ou seja, não há um nível constante de empatinemia de mesmo médico no entorno do paciente.  É sabido que, na média, médicas são mais empáticas que médicos, talvez pelo chamado espírito maternal. Psiquiatras e pediatras costumam oferecer mais empatia do que radiologistas  e patologistas, significando que o tipo de relação médico-paciente é fator determinante da empatinemia – ou, ao contrário, é fator determinante da escolha da especialidade. Momentaneidades do médico de natureza íntima, familiar, bem como estar com um pé no burnout, prejudicam o controle necessário para o exercício do profissionalismo que embute a empatia.

A empatia não está relacionada em Diretrizes clínicas. “Mesmo assim”,  ela é  útil para  as boas práticas e eficaz para a boa evolução do atendimento, segundo evidências disponíveis.  Em Medicina, parece que  o aspecto cognitivo supera o  afetivo no processo de educação do futuro médico, o que representaria uma superioridade da empatia sobre a simpatia. Por fim, não pode ser esquecido que a  chamada Inteligência emocional  é denominador comum  em pessoas que  transbordam empatia em diferentes atividades  e sob distintas valorizações sociais.

Enquete 251- Proteção legal do ser humano ainda no útero

O mundo está prestando mais atenção ao útero, atualmente, pelos dados e fatos a respeito da formação embrionária e fetal que têm sido associados à infecção pelo vírus Zika.

Uma recém-publicação da Oxford University, coincidentemente,  traz uma análise a respeito da ausência de proteção legal ao concepto enquanto no útero, na Inglaterra.

oxfordO artigo não foi inspirado na infecção pelo vírus Zika, em nenhum momento a menciona, porém, dá oportunidade para  alguns pensamentos em analogia.

no-terceiro-mes-futuro-bebe-passa-ser-considerado-feto-1308662844Por isso, apresento abaixo uma tradução do Resumo de Protecting Future Children from In-Utero Harm, de autoria de  D. Wilkinson, L. Skene, L. De Crespigny e J. Savulescu, membros da respeitada organização Oxford Uehiro Centre for Practical Ethics.

Ações praticadas pela gestante podem  causar danos à futura criançaA lei geralmente não faz nenhuma intervenção perante grande chance de ocorrência de  dano sério. Um feto no útero carece, pois, de direito à proteção legal.

De maneira oposta, quando nasce vivo, o recém-nato pode provocar um processo por lesão intrauterina. Inclusive, a criança pode vir a ser afastada do convívio com os pais, se necessário para a sua proteção.

Existe a obrigação legal não somente de os profissionais de Saúde relatarem dano suspeito, como também das autoridades em proteger o bem-estar da criança.

Justificam-se tais respostas contraditórias?

Deveria a lei intervir quando ações da gestante trazem sérios riscos de danos fetais, que poderiam ser prevenidos? O argumento para intervenção legal a fim de proteger o feto é por vezes vinculada ao conceito de “personalidade fetal” e à condição moral do feto.  

Sugerimos que mesmo que o feto não seja considerado uma pessoa à parte da mãe, que não tenha ainda um status moral e legal, certamente, há uma circunstância ética e legal demandando uma intervenção para impedir sérios danos futuro à criança.

Examinamos os argumentos favoráveis e desfavoráveis à proposta de intervenção em nome da futura criança, utilizando o exemplo  da gestante alcoólatra. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26871875

Este exemplo refere-se à Síndrome Alcoólica Fetal cujas manifestações diversas associadas ao consumo de álcool pela mãe durante a gestação incluem em seu polo mais danoso malformações cerebrais e prejuízo ao  desenvolvimento cognitivo e comportamental. Observa-se, contudo, que há percentual expressivo de crianças nascidas de mães que comprovadamente consumiram álcool durante a gravidez onde não se comprova nenhum dano. Sabe-se que a possibilidade associa-se a qualquer tipo de bebida alcoólica que ao atravessar a chamada barreira placentária, provoca nível sanguíneo alcoólico no feto equivalente ao da mãe,  desta maneira concorrendo para o desenvolvimento da síndrome em alguns conceptos.

Qual é a sua opinião sobre a proteção do ser humano quanto a danos evitáveis ainda no útero?

  • Orientações médicas para conscientização da gestante sobre danos possíveis nas consultas de pré-natal são suficientes (0%, 0 Votes)
  • Disposições legais aplicáveis à gestante para redução do potencial de danos devem existir (0%, 0 Votes)

Total de Respostas: 0

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Enquete 250- Prioridade no socorro em cenário de ataque terrorista

De acordo com o Jewish Press.com  http://www.jewishpress.com/news/breaking-news/israeli-medical-association-doctors-must-treat-the-worst-injury-first-including-terrorists/2015/12/16/,  e repercutido no Global Bioethics  Blog   http://globalbioethics.blogspot.com.br/,  o Comitê de Ética da Associação Médica de Israel modificou a orientação para atendimento a pessoas  com lesões severas em cenário de ataque terrorista.

Antes, havia prioridade “local”.  Agora, qualquer distinção a respeito de etnia, vítima ou agressor, nacionalidade tornou-se irrelevante. Deve prevalecer  o critério médico de gravidade, o que traz a possibilidade de um terrorista vir a ser atendido antes do que uma de suas vítimas.

Você concorda que o critério médico de gravidade deve prevalecer para priorizar o socorro num cenário de ataque terrorista, conforme orientação da organização Physicians for Human Rights (PHR)?

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215- Índice de Retratação e Síndrome do último artigo publicado

goyaHá anos, chamo a atenção dos colegas, especialmente dos jovens colegas, para o que denomino de Síndrome do último artigo publicado. A síndrome do último artigo publicado é a manifestação de certa imprudência na “tradução” açodada de conclusões de artigos originais para a beira do leito, contendo o risco de muita expectativa  clínica e pouca eficácia de resultado.

É que leituras atualizadíssimas costumam provocar várias apreciações de empoderamento clínico, incluindo a sensação de agora sim, vou poder cuidar (ainda) melhor do meu paciente. Neste contexto, conhecimentos resultantes de pesquisas recentes são valorizados, adotados e imediatamente aplicados ao cotidiano. A síndrome do último artigo publicado é a manifestação de certa imprudência na “tradução” açodada de conclusões de artigos originais para a beira do leito, contendo o risco de muita expectativa  clínica e pouca eficácia de resultado.

Há avaliação individual – cada médico tem o direito de fazê-la-  que apõe um rótulo pessoal de verdade para o momento. Contudo, ela antecipa-se à inclusão em Diretriz clínica, à manifestação de formadores éticos de opinião, Serviços universitários qualificados e Comitês de Sociedades de especialidade. É sabido que a profusão de informações na literatura médica  exige cada vez mais  uma coletivização do juízo científico e clínico que considera aquela nova árvore analisada sob a perspectiva da floresta como um todo. Evidentemente, o grande juiz chamado tempo se encarregará de transformar a verdade do momento numa certeza de época – ou não.

A concorrência entre forças que vislumbram benefícios e as que exigem cautelas de segurança sucede-se à medida que outra publicação na sequência apresenta reforço ou contraposição. Tudo bem fundamentado num esmerado rigor científico. Um justificável sob um ângulo x justificável sob outro ângulo sustenta a manifestação da síndrome do último artigo publicado. De alguma forma, a Medicina baseada em Evidências e a estruturação de Diretrizes Clínicas  concorreram para uma prevenção da referida síndrome. Mas não se pode esquecer que o referendo de Diretrizes depende de atualizações formais, no intervalo das quais vários “últimos artigos publicados” que serão- ou não- incluídos, já passam a compor rotinas da beira do leito.

Em outras palavras, o médico ter a consciência sobre a síndrome do último artigo publicado significa o seu reconhecimento da necessidade de se valer de uma análise crítica judiciosa das recém-conclusões quanto ao impacto imediato no cotidiano. É a prudência derivada da correta suposição que amanhã poderá vir nova publicação de crédito com distinta orientação determinando o mesmo pensamento de agora sim, vou poder cuidar (ainda) melhor do meu paciente. 

O nível de credibilidade na conclusão norteadora  de eventual adoção de ajustes de conduta costuma ser diretamente proporcional ao ranking de qualidade da revista científica que fez a publicação. A citação de um artigo publicado por outro autor é um indicador da confiabilidade, fato que motivou Eugene Garfield (nascido em 1925), o fundador do Institute of Scientific Information (ISI)  a criar o fator de impacto de revista científica. O centenário New England Journal of Medicine (NEJM) é a publicação sobre Medicina com maior fator de impacto, o que significa que a proporção de trabalhos nele apresentados há um ou dois anos utilizados como referência  no conjunto de  publicações em  determinado supera a dos demais.

Prós e contra a respeito das conclusões de trabalhos científicos são comumente difundidos na literatura, quer pela emissão de opinião pós-publicação, quer por nova pesquisa em busca de reprodutibilidade  e  provocam idas-e-vindas do pensamento sobre a pertinência ao endosso e à aplicação. Uma motivação essencial à crítica é o exame de segurança biológica sobre informações de fato geradas com austeridade científica. A desvalorização de uma comunicação pode resultar  de mal-feitos no planejamento e/ou na realização do protocolo de pesquisa, por exemplo.

“Equívocos honestos” existem a reboque de incompetências sem freios aceleradas pela boa intenção. Contudo, incorreções intencionais desonestas existem, infelizmente. Elas são componentes menos reconhecidos na composição do alerta permanente da Síndrome do último artigo publicado.

A desonestidade científica pós-publicação descoberta até há pouco tempo ficava pouco revelada, especialmente quando não preenchia critérios de um escândalo. Atualmente, a retirada do artigo por iniciativa do próprio autor ou do editor da revista alertado por leitores, ficou mais organizada e exposta. Assim, qualquer Publicação subentende o potencial de Retratação (confissão de equívoco cometido, declaração contrária à anterior; desmentido). err

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http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3187237/pdf/zii3855.pdf

Desta maneira, o prazo de validade de uma publicação científica para uso prático, numa escala que varia  desde o nobilíssimo extremo eterno até o frustante extremo imediatamente inaplicável, comporta um término com níveis vexatórios distintos provocado pela eliminação do artigo do acervo da literatura. Esta última situação é a antítese da sabedoria de quanto mais duradoura for a persistência da adoção de um erro científico, mais ele foi um “acerto” do seu tempo.

A expulsão eletrônica – a gráfica é impossível- pode ser motivada por um olhar mais acurado da “fase de mercado” sobre a elaboração do mesmo, que alerta sobre dados não percebidos pelo corpo editorial do periódico publicador, sem nenhum juízo moral sobre o autor – que, inclusive pode ser a via de solicitação da retirada. Contudo, ela pode ser causada por fraude científica, um imperdoável e doloroso subproduto do fascínio pela fama de cientista. E desta maneira, é desejável que haja um fio condutor da excelência científica que funcione como pêndulo entre manutenção da visibilidade de conclusões e supressão da mesma.

Há um aparente crescimento do número de Retratações numa lógica de se a comunicação deveria ter sido evitada, que a eliminação seja inevitável. Talvez haja mais mesmo, mas, certamente, ocorre mais atenção para encontrar o joio. Afinal, um erro não deve justificar outro.

Manipulação de métodos  e inclusão de resultados não obtidos podem passar desapercebidos e escorregar pelos filtros editoriais.  Ajustes em gráficos e figuras, impureza de reagentes, não reprodutibilidade, racional pouco confiável e plágio – inclusive, o chamado auto-plágio numa publicação redundante-  são exemplos se matérias-primas para Retratação.

O quadro mostra uma tão robusta quanto curiosa relação direta entre fator de impacto e índice de retratação. Como pode ser visto, a revista mais crível é a mais ligada ao não crível. Uma explicação para este aparente paradoxo é a sedução apresentada por autores “desesperados com o publique ou está morto“, um desvirtuamento acadêmico que induz a comportamentos anti-éticos no processo de obtenção, apresentação, interpretação e revisão dos resultados. Vendas da alma de pesquisador ao diabo em troca da sobrevida universitária e no meio científico precisam ser anuladas. Paralelamente, pode-se supor que publicações em revistas de menor impacto científico não provoquem tanta motivação para refiltragens, como que já contivessem “desqualificações intrínsecas”.

Qualquer esforço em prol da saúde da literatura científica é endossado pela Bioética. Neste sentido, a transparência científica recomenda que cada periódico passe a exibir um Índice de Retratação ao lado do Fator de Impacto. A adoção significará que o editor do periódico -que na maioria das vezes não foi negligente no endosso à má publicação- continua a ter responsabilidade na pós-publicação com a comunidade científica- e a assume pela exposição do Índice de Retratação.

Desde há um lustro, o acompanhamento das Retratações a respeito de publicações científicas pode ser feito pelo blog Retraction Watch  retractionwatch.com.  Criar o hábito é saudável para evitar a Síndrome do último artigo publicado.

Enquete 249- Revisão da competência do médico após os 65 anos de idade?

Considerando contrapontos sobre a competência do médico aos 65 anos de idade, equivalente a cerca de 40 anos de formado, que  incluem: conhecimentos em Medicina evoluem rapidamente, nem sempre o médico tem oportunidade de manter-se atualizado em sua especialidade, a experiência é bom juiz para fundamentar o bom senso clínico e  uma base humana em tomadas de decisão,  o trabalho de equipe é uma realidade crescente e há facilidades crescentes em obter atualizações sobre doenças por via eletrônica.

Testes de avaliação da competência atualizada deveriam ser praticados pelos Conselhos Regionais de Medicina quando o médico completar 65 anos de idade

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