168- Bioética e ascensão do exame complementar

 

male doctor looking at tomography brain

Um sinal físico à mão, uma imagem que salta à vista. Eficiência à beira do leito, moderna na dimensão de conectividade, elegante no sentido de rede à beira do leito. Um dito propedêutica básica, outro dito propedêutica complementar.

Complemento é o que é preciso juntar, dar o acabamento. Exame complementar é, originalmente, a fonte de informação que dá remate a uma hipótese diagnóstica em Medicina. Tradicionalmente, ele sucede à anamnese e ao exame físico e tem sua necessidade determinada pelo raciocínio clínico.

Novos tempos – hipertrofia de complementos e atrofia de sinais básicos- provocaram variações nos momentos da solicitação pretensamente suplementar. Antecipações do exame complementar habitam o mundo real, sendo tanto malvistas porque subvertem o ritual tradicional, quanto bem-vistas pelo benefício ao alívio e ao prognóstico em função da presteza e da acurácia.

O acesso ao diagnóstico desloca-se cada vez mais das mãos semióticas para a “biometria” ocular, motivado pela  imagenologia. De fato, o poder clínico do exame complementar ascendeu nas últimas décadas acompanhando uma transferência de “reputação” desde o binômio anamnese-exame físico, uma redistribuição do valor de cada método diagnóstico. Ele passou a ser menos complemento e mais núcleo central. Pela diversidade de informações, o exame complementar aproximou-se da indispensabilidade. Reduziu-se drasticamente o número de atendimentos em ausência de algum exame complementar.  A sua densidade por paciente/dia na esfera de UTI  atinge dois dígitos, habitualmente. No InCor, 30% dos cerca de 300 000 exames/mes de Laboratório Clínico referem-se a pacientes internados em UTI, o que representa 50 exames/hora.

A promoção de uma cultura do exame complementar é  sustentada pela tecnologia e traz a necessidade da apreciação ética na interface com o conceito tradicional da Clínica soberana. Recorde-se que a inquietação acerca do impacto da tecnologia sobre o ser humano compõe o DNA da Bioética conforme notado por  van Rensselaer Potter (1911-2001), o Pai da Bioética.

Assim, cada médico precisa ter o seu juízo de valor acerca da hierarquia, caso a caso, dos componentes da triarquia diagnóstica- anamnese, exame físico e exame complementar.

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Quando II

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Quadro I

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Quadro III

A Bioética da beira do leito considera distinguir as duas modalidades clássicas de seleção, disponibilização e aplicação de exame complementar – específica e difusa- para instruir análises sobre a Beneficência, a Não Maleficência (Segurança) e a Autonomia (Quadros I, II e III) e gerar as composições bem-mal (científico) e bom-mau (pessoal) para cada circunstância clínica.  .

Note-se que a noção que o exame complementar subentende a existência de situação clínica a ser melhor esclarecida pode ser expandida para a prevenção em saúde. Continue lendo