96-No siso, um juízo sobre Bioética

siso

Crédito: http://drrubecy.blogspot.com.br/2012/04/o-inutil-dente-do-juizo-siso.html

Eu tenho estudado vários aspectos da relação médico-paciente pelo interesse na Bioética. Escrevo apoiado numa plataforma constituída pela experiência direta com o paciente, pela participação em ambientes de discussão da Bioética e pelo mergulho na literatura.

Recentemente, eu tive uma vivência que reforçou o valor pedagógico do sentir na carne. Estive no outro lado do balcão. Necessitado de um procedimento, solicitado ao consentimento. Num zás-trás.

Nada grave. Um já conhecido dente do siso incluso que aflorou e se mostrou cariado. A suspeita que a cárie poderia ser mais extensa. A indicação de extração preventiva, uma pulpite poderia acontecer. A qualquer momento.

Eu havia marcado com o dentista para uma limpeza rotineira, a tal da retirada de tártaro (cálculo) que se faz necessária com certa periodicidade.  Benefício para  saúde bucal. Não é lá muito agradável, mas nada que impeça uma descontração na cadeira do dentista. A malfalada cadeira do dentista  reveladora do medo de sofrimento da Humanidade.

Eis que sou surpreendido pela notícia e pela recomendação: “-… É preciso extrair este siso cariado…”. Primeiro impacto. “- … Quer fazer agora? Tenho tempo disponível…”. Nocaute!

De repente, necessidade de processamento das informações, rapidinho: Já ou noutro dia, afinal eu estava assintomático. E se a perspectiva de haver uma cárie “profunda” e provocar forte dor efetivar-se no curto prazo? Tantos anos com este dente inaparente e agora ele aparece desta maneira? Justo na minha idade! Como vou conviver com a dúvida sobre a evolução? E a iatrogenia- melhor odontogenia-, não do dentista, evidentemente, mas do procedimento em si, mexer num osso? Vários flashes instantâneos. Os ponteiros do relógio exigentes! Os olhos do dentista acima da máscara solicitando uma resposta.

Eu, ali, na terrível posição de inferioridade, deitado na cadeira, olhando de baixo para cima para o causador do dilema: ser ou não ser agora. Aí veio o paternalismo fraco: “… Vamos fazer, fica livre logo, pode dar um pouquinho de trabalho, mas evita problemas…”.  O empurrão acolhedor. Respondi  sim, meio que no automático. Dizem que coragem não é não ter medo, é prosseguir apesar do medo. E que neste momento, respira-se fundo. Respirei fundo e me coloquei paciente. Preparado para o que poderia ser até 2 horas de intervenção na palavra do dentista.

Anestesia, 20 minutos sentindo mexer, mas sem dor, e ouço a palavra aliviadora: “… Pronto! Tirei, veja que grandãoE muito cariado… Receei que ele quebrasse na extração…”. Uma hora depois da “má notícia”, a boa notícia para a esposa: “-… Extraí um siso… É, tirei um siso… Está tudo bem… Já estou saindo do consultório do dentista… O jantar tem que ser líquido ou pastoso… Tenho que tomar antibiótico…”.  A natureza humana é  interessante, ao “vencer”  a situação desagradável, por ter enfrentado o desafio pra mim mesmo, eu experimentei uma reconfortante sensação de bem-estar.

No caminho de volta, carregando o dente-troféu num vidrinho com água oxigenada para dar cores vivas à história a ser contada em casa, veio um turbilhão de pensamentos.

Como é que o meu caso  se conjugou com a “minha” Bioética de todos os dias? O que eu tenho lido, dito e escrito é veraz? Reforço ou contestação?

Reforço. O fortalecimento que: a) o que é uma tranquila emissão de recomendação pelo profissional da saúde tem alto potencial de provocar recepção intranquila pelo paciente; b) o consentimento a ser dado numa situação clínica de baixo sofrimento tem forte alicerce na confiança no profissional e na constatação que ele está disposto a fazer porque se preocupou com a situação; c) o conhecimento – e imaginação por um paciente profissional da saúde- das adversidades possíveis  pode causar muita apreensão.

Evidentemente, o que ora descrevo foi o meu modo de vivenciar a situação, mas não devo estar fora da média. Eu fico conjecturando sobre a possibilidade de a assistente do dentista ter me trazido uns papéis para assinar contendo uns 30 itens explicativos  da recomendação e informativos sobre adversidades possíveis. Teria provocado uma prioridade pelo pensamento positivo calcado na  indicação? Induzido a efeitos nocebo?  Como  se pode prever o grau de autossugestionamento de cada paciente? Enfim, teria mantido o meu consentimento-relâmpago? E se o dentista desejasse uma segurança máxima e exigisse um exame de coagulação, por exemplo. E, quem nomear como responsável indicado? A esposa pela afetividade ou o filho médico pela função?

Foi só um dente, é verdade, anos-luz de uma operação com riscos intensos. Depois do procedimento, ou para quem está de fora, uma bobagem!

Mas uma bobagem que  enfatiza  que ali estava um  ser humano com sua razão e seus afetos. Acompanhado, bem acompanhado pela expertise do dentista, mas sozinho para o consentimento e para os efeitos. Com a sua análise própria sobre imprevisibilidades, influenciada por ser médico e conhecedor dos fundamentos de relações risco-benefício. A  lição  renovada que a aparência do paciente como disposto a se submeter esconde um turbilhão de afetos conflitantes.

Fico pensando o quanto a ênfase no aspecto legal pela preocupação com representações do paciente após adversidades é polêmica. Poderia ser plausível a utilização de uma linha de corte em função da relação risco-benefício, caso-a-caso, contudo, um documento para que a assinatura convença o juiz que o paciente sabia da possibilidade de dano, não pode ser mais vigoroso do que a confiança de que será corretamente feito e que foi feito corretamente, embora tenha provocado uma adversidade. Ninguém, hoje, sob boa fé, ignora que medicamentos podem dar dor de estômago e alergia, operações podem causar uma hemorragia expressiva e a permanência doente em hospital é fator para a infecção hospitalar.

É lógica do lado de cá do balcão. Porém, o ser humano do outro lado…