92-Parabéns às mulheres e às médicas em especial no seu Dia Internacional

Neste 8 de março de 2015, o blog Bioamigo presta homenagem ao Dia Internacional da Mulher. A data origina-se num movimento  realizado por  mulheres na Russia, em 1917 e foi oficializada pela ONU, 60 anos depois.

Saliento uma representante do sexo feminino que, ao longo das últimas décadas, trabalhou para merecer o respeito da sociedade, a médica brasileira.

Eu vivi um tempo em que havia um abismo de confiança  na doutora, em relação ao doutor. Especialmente, nas especialidades- na década de 60 do século passado o número delas era menor do que agora-, muitos manifestavam preconceitos sobre a capacidade profissional da mulher. À baixa confiança do paciente, associava-se a de uma parcela dos médicos.

Recém-formado, motivado pelo renome do professor-cirurgião palestrante fui assistir à palestra o “Novo Bisturi”. Sensibilizado por ser neto e filho de médica, conhecedor desde o útero da capacidade de uma médica conciliar desempenhos familiares e profissionais, saí decepcionado e indignado por ter ouvido de uma “autoridade” da Medicina que a agulha para a mão do cirurgião era na verdade um masculino, diferente da agulha de pregar botões. Felizmente, testemunhei ao longo da minha carreira o encolhimento deste clima hostil. Tal  manifestação de ignorância e de desrespeito estava por conta do condicionamento social sistemático sobre a moralidade da mulher, que a ela incutia o compromisso com a abnegação a outros, submeter-se e obedecer, sintetizável nas “profissões” dona de casa e do lar.

Eu sou do tempo em que se aprendia que usando o substantivo masculino incluía a correspondência feminina. Ensinaram-se que  o masculino era gênero não marcado,  que admitia ambos os sexos, ao contrário do feminino, que era específico. Todos os gatos são pardos à noite, por exemplo. Mas, a bem da verdade, repetia-se frequentemente, senhoras e senhores, boa tarde! Atualmente, temos ouvido brasileiros e brasileiras e outros que tais referentes à equalização dos gêneros, o que me leva a uma dúvida: todos os gatos e todas as gatas são… Aí complicou… são pardos e pardas… Será?

O certo é que cada idioma tem suas regras gramaticais e sofrem revisões. E a “linguagem” da beira do leito, aquela que dá forma à relação médico-paciente, misto do deontológico com o ontológico, por mais universalidade que possa haver, é passível de mostrar peculiaridades associadas ao gênero do profissional de saúde. Nasce, assim, a tese que o médico foi um professor histórico da médica e agora, o discípulo- melhor a discípula-  pode ter muito a ensinar ao mestre-homem.

Recorde-se que a dificuldade que as mulheres tinham em obter o diploma de Medicina foi a motivação para a criação da The Female Medical College of Pennsylvania, em 1846. Houve grandes dificuldades para proporcionar o treinamento necessário dominado pelos médicos.

Cerca de 170 anos depois, a mulher é maioria em inúmeras salas de aula das Faculdades de Medicina brasileiras. O aprendizado da Medicina ganha, assim, novas decodificações, permitindo suposições sobre novas leituras da Medicina para o ser médico, como uma pessoa que cuida de outra pessoa.

A Demografia Médica no Brasil, editada pelo CREMESP em 2013, http://www.cremesp.org.br/pdfs/DemografiaMedicaBrasilVol2.pdf  evidencia o acréscimo percentual de médicas na razão inversa da faixa etária.  À reboque deste crescente  número de jovens médicas no Brasil, vai desaparecendo aquela ideia do paciente que um homem de branco no hospital identificava o médico e, uma mulher, a enfermeira- que é o profissional da Saúde –enquanto sentido de equipe como enfermagem- que, tradicionalmente, mais tempo passa prestando cuidados diretamente ao paciente internado.

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 Pelas transformações estatísticas, podemos então pensar que o nosso Código de Ética Médica, que diz que é vedado ao médico uma série de ilícitos éticos, teria de arrumar o texto nas próximas edições para uma redação é vedado ao médico e à médica…

 A adaptação estaria ao gosto da chamada Ética Feminista. Vale a pena aproveitar a oportunidade do Dia Internacional da Mulher para conhecer um pouco dela.

 Ela existe há mais de 20 anos com o objetivo de repensar entendimentos da Ética tradicional que poderiam representar depreciações e desvalorizações da experiência moral das mulheres. Integra o feminismo, que é um movimento multifacetado, e conta com filósofa Alison Jaggar que foi quem considerou haver uma visão de rebaixamento da mulher em 5 aspectos da Ética tradicional:

 a) menor zelo com temas e interesses da mulher em relação aos do homem;

 b) depreciação no chamado mundo privado, da condição de dona de casa, cuidadora dos filhos, dos enfermos e dos idosos;

 c) consideração de inferioridade da maturidade moral das mulheres;

 d) supervalorização dos traços culturalmente masculinos como autonomia, independência e intelecto;

 e) favorecimento do raciocínio moral masculino que enfatiza regras, direitos, universalidade e imparcialidade sobre o feminino que enfatiza relações, responsabilidades, particularidades e parcialidades.

Para quem desejar se aprofundar no tema:  http://plato.stanford.edu/entries/feminism-ethics/

Entendo que a Residência Médica é um espaço de alta contribuição para a equiparação de gêneros pretendida. Ela dá mesmas oportunidades àqueles que comungam-homens e mulheres- mesmo desejo pelo aperfeiçoamento da graduação e mergulho numa  especialidade.

A Bioética da Beira do leito, ao reconhecer a essencialidade da Residência Médica, interessa-se pela apreciação de realidades de comportamentos que possam distinguir  médico e médica.  Há o objetivo pedagógico de  aproveitar a beira do leito como sala de aula interativa e reflexiva sobre  a moralidade dos comportamentos. Pegando  carona com Michel Foucault (1926-1984),  sobre o comportamento real dos indivíduos em relação a regras e a valores prescritos por um código moral proposto para as boas práticas da beira do leito.

O passar dos anos tem demonstrado que não há razão para distinguir os gêneros por aspectos de conhecimento técnico-científico e de habilidades de aplicação de métodos. Evidente que há mais densidade de médicos e de médicas em especialidades e em áreas de atenção, muito embora alumas diferenças pareçam estar em declínio. Digno de registro é que componentes da minoria não se associam a menor qualidade nos cuidados com a saúde em relação à maioria.

  A Bioética da Beira do leito, sensível a movimentos para o correto posicionamento à beira do leito da apreciação e do valor da médica na interface com o paciente, mostra-se assim atenta às reinvidicações por “equiparação” pela Ética feminista, no campo dos cuidados com a saúde dos pacientes.

   Percebe-se o quanto a médica tem a oferecer bom exemplo para o humanismo. Não há dúvida que ela transita com propriedade sobre as subjetividades que acompanham as objetividades da Medicina. Neste contexto, a médica pode mostrar caminhos ao médico para que ele fique mais à vontade para conciliar a “dureza” da ciência com a expressão dos sentimentos.

   A relação médica-paciente com o “toque maternal”, com mais  atenção ao pessoal e ao social pode mostrar vantagens sobre a relação médico-paciente “masculina”, mais objetiva e mais emocionalmente neutra. Inclusive, auxiliando a mulher-paciente a pensar sobre o que muitos chamam de ideologia patriarcal presente no sistema de saúde, que inclui algumas das críticas  formuladas pelas feministas acerca dos direitos da mulher.

    Mais médicas, ademais, carregam a potencialidade de contribuição para a redução de afirmações repetidas que as queixas das mulheres são consideradas mais insignificantes do que as mesmas de um homem, que elas são atribuídas  em grande parte a aspectos emocionais e que, por isso, recebem maior número de prescrição de tranquilizantes. E que, mesmo quando os sintomas relatados pela mulher são entendidos como sérios, eles demandam condutas menos agressivas.

    Parabéns à médicas no Dia Internacional da Mulher! Mulher-médica, ganho para a Ética! Mulher-médica, vantagem para a excelência da beira do leito!