Enquete 43: Filho marca consulta para ter informações sobre o pai internado

Filho de paciente que está internado marca uma consulta com o médico assistente do pai e revela que o objetivo é saber tudo sobre o que está acontecendo com o pai, que este não sabe desta iniciativa e que vai pagar a consulta. O paciente está capaz, conversando normalmente e plenamente partícipe das tomadas de decisão. Qual deve ser a atitude do médico?

BioAmigoBR 36- Jeca Tatu e a verminose como causa da preguiça do caipira

José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948) criou o personagem Jeca Tatu, caipira preguiçoso. Desejoso de melhorar o saneamento no Brasil e motivado pelo trabalho dos cientistas do Instituto Manguinhos (hoje Fiocruz), Monteiro Lobato colocou o personagem a serviço dos cuidados com a saúde do brasileiro do campo. A indolência foi creditada à verminose.

Um escrito seu sobre o tema foi  aproveitado como propaganda de medicamento contra a ancilostomíase.  A marca Fontoura tem origem no sobrenome do farmacêutico produtor, Candido Fontoura Silveira (1885-1974), amigo de Monteiro Lobato e epônimo do hospital Infantil Candido Fontoura, em São Paulo.

 

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capa

Almanaque do Biotonico Fontoura, 1935

 

100-Famoso com uma mancha moral

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Gerhard Henrik Armauer Hansen (1841–1912) Crédito: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/aos.12159/epdf

Faz parte do Juramento de Maimonides (Moshe Bem Maimon,  1135-1204):  Que nem cobiça nem avareza, nem sede de glória ou de uma grande reputação possam envolver minha mente.

O norueguês Gerhard Henrik Armauer Hansen (1841–1912), epônimo da hanseníase, não seguiu a lição.

O seu nome eternizou-se na denominação atual da lepra, mas com uma mancha moral indelével.

Hansen, após o reconhecimento  do caráter infeccioso da lepra por meio de um bacilo- Mycobacterium leprae-, inoculou coelhos com material de nódulos leprosos e concluiu, pelo insucesso, que a doença deveria ser humana apenas.

Foi, então, que Hansen ignorou o legado de Maimonides.  Ele cometeu um deslise moral. Em 1879, portanto, aos 38 anos de idade, ele fez um corte na conjuntiva de uma paciente de 33 anos de idade com a forma cutânea da doença e inoculou material retirado de  nódulo de outro paciente com  diagnóstico de lepra.

Não houve o desenvolvimento de lepra oftalmológica, contudo a paciente denunciou Hansen por ter feito uma violência contra ela. Não houvera nem esclarecimento sobre o propósito do procedimento, nem consentimento da paciente, que se queixava. além do mais, de grande desconforto local e dificuldade visual.

Hansen tornou-se réu confesso. Justificou-se alegando que não estaria provocando uma nova doença na paciente. Professores testemunharam a favor de Hansen, destacando que houve uma intenção científica que poderia ser útil  para o melhor conhecimento da doença.

Hansen foi considerado culpado pelo Tribunal de Justiça. Não foi preso. A pena foi a perda da  condição de médico de leprosários em Bergen.

Hansen continuou as pesquisas com o bacilo da lepra, sem maior restrição  pela comunidade médica da época. Em 1897, o Primeiro Congresso de Leprologia, realizado em Berlim aceitou a tese de Hansen que a lepra era transmitida de pessoa para pessoa.

Hansen conviveu com dois expoentes da Bacteriologia.  O alemão Albert Ludwig Sigesmund Neisser (1855-1926) – quem identificou  a Neisseria  gonorroheae– tentou  desviar para si a primazia da identificação do Mycobacterium leprae. Já o alemão Heinrich Hermann Robert Koch (1843-1910) – descobridor do Mycobacterium tuberculosis e Prêmio Nobel  de Fisiologia ou Medicina em 1905- incentivou Hansen a procurar outros meios de cultura mais adequados.

Reproduzo abaixo o Juramento de Maimonides como homenagem da Bioética da Beira do leito a este filósofo que procurou harmonizar  conflitos existentes entre a filosofia e a teologia:

http://www.abmanacional.com.br/arquivo/9a39f70c1232b2767068f3a5da6044bd9abe332d-33-4-para-meditacao.pdf

A eterna providência nomeou-me para vigiar a vida e a saúde das Tuas criaturas.

Que o amor pela minha arte possa me impulsionar todo o tempo;

Nem cobiça nem avareza, nem sede de glória ou de uma grande reputação possam envolver minha mente;

Pois os inimigos da verdade e da filantropia poderiam facilmente me enganar e me fazer esquecer o meu sublime objetivo de fazer o bem a Teus filhos.

Que eu nunca veja no paciente nada mais do que um semelhante em sofrimento.

Conceda-me sempre a força, tempo e oportunidade para corrigir o que eu adquiri, para estender seus domínios;

Pois o conhecimento é imenso e o espírito do homem pode se estender indefinidamente para se enriquecer todos os dias com novas exigências.

Ele pode descobrir hoje seus erros de ontem, e amanhã ele pode obter uma nova luz sobre o que ele pensa estar certo hoje.

Oh, Deus, Tu me nomeaste para vigiar a vida e a morte de Tuas criaturas,

Eis-me aqui pronto para minha vocação e agora eu me volto ao meu chamado.

A História da Medicina evidencia que antes da segunda metade do século XX, parte expressiva da comunidade científica privilegiava o interesse científico em relação à humanização. O “para o bem da ciência” calava mais forte, no duplo  sentido. O esclarecimento e o consentimento do paciente são jovens partícipes da comunicação médico-paciente ética observada nos dias de hoje.

Aliás, não faz muito tempo, ensinaram-me que o “interesse científico” dispensava autorização para necropsia dos familiares. Re-aprendi com a Bioética. E hoje, a alta tecnologia traz nova variável para a conciliação de interesses, a realização de autopsia não invasiva por meio de imagens captadas por ultra-som, tomografia e ressonância magnética.

Sete séculos após Maimonides, a Bioética  cuida para a sintonia humana da ciência da Medicina.

BioAmigoBR 35- Primórdios dos Conselhos de Medicina

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Crédito http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19510929-23430-nac-0010-999-10-not

 

Em 29 de setembro de 1951, o Estadão publicou o edital para a eleição do primeiro Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo. Ficamos sabendo que:

1- A convocação foi feita pelo Sindicato dos Médicos de São Paulo- fundado em 1929.

2- Houve um Conselho Federal de Medicina provisório- criado pelo decreto-lei 7955 de 1945 com mandato de 12 meses e com a atribuição de promover a eleição para os Conselhos Regionais e do Conselho Federal definitivo.

3- Havia a constituição de chapas com 5 titulares e 5 suplentes. O mandato era trienal.

O decreto-lei 7955 foi assinado por Getulio Dornelles Vargas (1882-1954) e já estabelecia as 5 penas aplicáveis:

a) advertência confidencial em aviso reservado;

b) censura confidencial em aviso reservado;

c) censura pública no Boletim do Sindicato Médico ou em outra publicação oficial;

d) suspensão do exercício profissional  até 30 dias;

e) cassação da autorização para o exercício profissional, ad referendum do Conselho Federal.

O decreto-lei 7955  vigorou até 1957, quando foi  substituído pela lei 3268.

 

BioAmigoBR 34- Hojé o Dia Mundial de Combate à Tuberculose

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Robert Koch (1843-1910)

Hoje, 24 de Março é o Dia Mundial de Combate à Tuberculose.  Trata-se de homenagem  da Organização Mundial de Saúde ao descobrimento do   Mycobacterium tuberculosis, o  bacilo causador  da doença pelo médico alemão Heinrich Hermann Robert Koch (1843-1910), anunciado em 24 de março de 1882.

O Brasil associa-se à história do combate à tuberculose Abreugrafia  por intermédio  da invenção  de um método radiográfico, em 1936, facilitador do diagnóstico com baixo custo, a fotografia da tela radioscópica. O inventor foi o médico paulista Manuel Dias de Abreu (1894-1962), razão pela qual o método tornou-se conhecido como abreugrafia. Durante anos, ela foi ré-requisito para ingresso em escolas e em empregos.

 

99-Um paradoxo no caminho da insatisfação do paciente com o médico

2+24Eu li no Estadão do dia 22 de março que o número de processos no Supremo Tribunal de Justiça por erro médico cresceu 140% em 4 anos. A chamada está na primeira página.  http://digital.estadao.com.br/home.asp.

Nada bom para a classe médica. Uma aparente contradição. O médico que pode aplicar mais benefícios do que outrora está sendo considerado mais maléfico para o paciente.

Esta notícia chega cerca de um mês depois que se divulgou que o médico ausentar-se para ir a um Congresso reduz a mortalidade intra-hopsitalar no período.  O que de alguma forma conjuga-se a pensamentos que menos é mais em determinadas circunstâncias clínicas. A Bioética alvoroça-se.

É provável que os casos  que estão no Superior Tribunal de Justiça correspondam tanto a insuficiências da Medicina quanto a negligência/imprudência de profissional. Maus resultados acontecem, inclusive, por  causas à margem do vínculo Medicina-médico-paciente, ligadas a instituições da Saúde e ao sistema de Saúde. A matéria publicada não dá detalhes. Fica tudo como erro médico, o que é lido como erro de um médico.

Há muito que a expressão erro médico tem sido empregada de forma difusa. Ela deve ser substituída por erro profissional. Uma parte deste é que ocorre por erro comprovado do médico, sendo, então, passível de condenação ética, além daquela de que trata a matéria jornalística.

É essencial analisar o termo cometer um erro. O médico cometeu um erro não aceita único patamar de indignação. Façamos uma analogia com mentira:  Quem mente sabe qual é a verdade, ou crê que a conhece. Caso contrário, ele não estaria deliberadamente faltando com a verdade. Ele estaria expressando a sua percepção, embora dissociada da realidade.

Numa relação de correspondência, quem erra, então, pode estar fazendo uma interpretação inexata, uma má escolha, uma decisão desnorteada. É erro por carência de conhecimento, por  inabilidade. Assim, é erro do médico não cometido por intenção, não houve o dolo. Não se deve supor má-fé, pretendia-se acertar. Mas, tem o seu preço, que deverá ser pago na forma da lei. Continue lendo