65-Meu doutor, me Leve, me Love, me Lave

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Ilustração do Post Bioética da Beira do leito no blog Morte sem tabu de Camila Appel, publicado em 15 de janeiro de 2015 na Folha de São Paulo

Olá, eu sou o estetoscópio. Mas pode me chamar de esteto. Aliás, eu sou o seu estetoscópio. Não me reconheceu? Eu sei, você mal me olha. É difícil mesmo reparar em mim  pendurado nos seus ombros, no bolso ou em cima da mesa durante uma consulta. O meu doutor me põe nos ouvidos, no tórax do paciente, sem prestar atenção, ato automático, não é mesmo?

Já me conformei que eu sou mero instrumento de trabalho. O meu doutor não acredita que eu tenho sentimentos. Eu me compadeço com aqueles sopros e estertores. Já chorei pela gravidade do caso.

Pois é, meu doutor, eu vim lhe pedir um favor, em nome da nossa amizade, se é que eu posso falar assim. Não leve a mal, mas é muito importante.

É que eu me sinto sujo, na verdade eu estou sujo. Claro, o meu doutor não vê como estou cheio de micróbios, os seus olhos não são microscópio. Há pouco contei mais de vinte colônias de bactérias, espécies diferentes, elas gostam de puxar conversa, mas não dou papo, me deixam muito incomodado. Têm razão aqueles que me chamam de fômite, palavra horrível, mas verdadeira no meu caso.

Meu doutor, por favor, me dê banho todos os dias, pode ser de manhã, à noite, tanto faz, mas mande estas malditas bactérias pro ralo. Se não quiser pensar em mim, se achar que elas não me causam nenhum dano aparente, pense nos seus pacientes, na sua responsabilidade de não fazer nenhum mal. Fico angustiado por transmitir bactérias de um peito para outro, parece metro, uma embarca, outra desembarca e tem cada tipo!

O meu doutor já reparou que quando me guarda enrolado no aparelho de pressão, no dia seguinte nos encontra separados? Não? Então repara. O aparelho de pressão tem nojo da minha sujeira, afasta-se rapidinho.

Meu doutor, escuta quem o ajuda a auscultar: Me Leve, me Love, me Lave!