63-Tratamento fútil: o útil que é inútil na circunstância

Há certas curiosidades no uso de dicionários. Procurei por fútil e encontrei  inútil como um dos sinônimos. A seguir acessei o verbete inútil e não achei nenhuma menção a fútil.

Imagino que é por isso que se fala em tratamento fútil, por exemplo, em circunstâncias de terminalidade da vida. Porque o método que se deseja suspender ou não introduzir não é intrinsicamente  inútil. Pelo contrário, ele é conceitualmente  útil, mas  não tem utilidade individualizada ao caso em discussão.  Assim, tratamento fútil é um tratamento  que embora seja de reconhecida utilidade clínica  mostra-se inapropriado para uma determinada situação como a de manter artificialmente uma vida que se encontra ao final irreversível de uma doença fatal.

O tratamento útil que  ganha um rótulo de fútil para determinado paciente difere do tratamento útil que se associa a uma apreciação de quebra da Segurança para o paciente, por exemplo, uma alergia  a um antibiótico com potencial de eficácia no caso.

O uso do termo fútil é uma iniciativa do médico para justificar a paciente/familiar  a inconveniência do tratamento, pretendendo uma concordância no processo de tomada de decisão. Em outras palavras, é um argumento que respeita a autonomia do paciente, seus valores, mas impacta forte e, de certa forma, soa com menos neutralidade do médico no processo de consentimento. Pois, a recomendação é para não fazer, ao contrário das habituais insistências para fazer.  O fato de que algo estava sendo feito e agora não deve mais porque a evolução foi desfavorável é um passo adiante em relação ao ainda não testado e que o médico recomenda fazer. Continue lendo