54-Acesso livre à literatura científica. Um desejo. Um direito.

journalsinterne_gratisEmbora abstêmio, eu costumo frequentar um PUB. Certamente, veio à mente do bioamigo a imagem da Public House que serve bebida alcoólica na Grã-Bretanha. Um estabelecimento de acesso livre de acordo com normas vigentes.

O meu PUB é o Pubmed.  É a minha cachaça de acordo com um dos seus significados constantes no dicionário Houaiss –  aquilo que se faz com entusiasmo, paixão, mania, vício.

O acesso ao Pubmed é livre, mas, comumente, a sequência  para a leitura do artigo é restrtita. Nem sempre estou na rede do InCor que facilita a baixa completa. Irrita-me  verificar que  há cobrança  na difusão da ciência, reduzindo  o impacto instrutivo segundo o espírito hipocrático. Se somos instados a valorizar as revistas de maior impacto, a contrapartida é podermos exercer o compartilhamento irrestrito do seu acervo para o bem do paciente. Assinaturas e compras individuais de artigos são caras para o profissional de saúde brasileiro, considerando-se que há necessidade de um número razoável de leituras  para a manutenção da mínima atualidade científica de quem trabalha na beira do leito. Continue lendo

53-Glossário sobre Ética

glossarioExiste uma excelente publicação do National Center for Ethics in Health Care Veterans Health Administration (VHA)  http://www.ethics.va.gov/PEprimer.pdf sobre  Ética integrada: Um mecanismo local  da organização de cuidados em Saúde que  eleva a qualidade dos níveis de decisão e de ações, dos sistemas e dos processos e do ambiente e da cultura por meio de 3 funções  essenciais- consultoria ética, ética preventiva e liderança ética.

Ela contém um glossário que reproduzo abaixo pela contribuição que traz para uma comunicação mais amigável sobre os inúmeros assuntos de interesse da Bioética da Beira do leito. Creio que será útil para os bioamigos.

1.       Capacidade de tomada de decisão: A habilidade do paciente  em  realizar uma decisão a respeito do próprio cuidado com a saúde. A determinação clínica da capacidade em tomar decisão deve ser efetuada por  experientes bem treinados.

2.       Caso ético: Uma situação isolada que envolve decisões e ações específicas que compreendem preocupações éticas, isto é,  trazem incertezas e conflitos de valores. Continue lendo

52-Você já tomou o seu remédio hoje?

comprimidos

 

 

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Há muito se sabe que não basta o paciente receber uma prescrição de medicamentos. É necessário que haja  um suporte para que eles sejam tomados, a começar pela posse dos mesmos. Programas governamentais no Brasil fornecem fármacos, garantindo a disponibilidade, mas, não necessariamente, a ingestão pelo paciente.

São seis os fatores de não aderência ao uso de medicamentos: a)o tipo de doença; b) as reações adversas; c) o tempo de uso- há uma linha de corte aos 6 meses; d) a complexidade da tomada, incluindo o número de medicamentos; e) a gravidade clínica; f) o custo do medicamento. Continue lendo

51-Precisamos movimentar a Bioética

Existe a Bioética que lida com tomadas de decisão num determinado caso, como a Bioética da Beira do leito. Existe a Bioética “acadêmica” que  realiza exercícios  intelectuais na busca da verdade. Existe a  Bioética na politica de saude que cuida de formulações para um coletivo.

Em relação a esta última modalidade, há nos EUA a The Presidential Commission for the Study of Bioethical Issues (the Bioethics Commission). A atual foi constituída em 2009 pelo president Barack Obama e funciona como um órgão de aconselhamento por líderes nacionais em Medicina, Cieência, Ética, Religião, Direito e Engenharia. A Bioethics Commission faz recomendações ao Presidente a respeito de temas de Bioética que surgem em função de avanços em Biomedicina e áraes correlatas de ciência e tecnologia. A Bioethics Commission procura identificar e promover políticas e práticas que assegurem  uma condução social e ética responsável em pesquisa científica, cuidados de saúde, e inovação tecnológica. Continue lendo

50-A construção do progresso

CaduceuMedicina

 

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Quando se fala em progresso da Medicina, logo vem à mente  uma inovação técnica preenchendo uma lacuna de utilidade. Todavia, ele  pode ser uma mudança de  ponto de vista acerca  do efetivo emprego dos métodos vigentes em atenção à circunstância clínica.

A Bioética da Beira do leito entende que todos os argumentos  verbalizados acerca de complexidades devem ser conhecidos. É oportunidade para o fortalecimento da apreciação de contraditórios pelo profissional da Saúde. Especialmente, quando a questão envolve mudança de paradigma  a respeito da não aplicação de métodos conceitualmente beneficentes ao paciente, orientada pelo prognóstico da sua doença.

Há muitos anos, a percepção de inutilidade de recursos da Medicina em função da individualidade de má situação clínica na terminalidade da vida é fundamento para a tomada de decisões tendo como pano de fundo a evitação da distanásia. O pensamento é evitar o sofrimento atroz desta fase da vida e privilegiar a dignidade na morte inevitável a curto prazo.  Demanda uma construção pela falta de unanimidade transdisiciplinar.

Só recentemente, em 2006,  aconteceu uma iniciativa mais resolutiva para dar sustentação ética ao médico brasileiro que, tendo a técnica na mão, incomoda-se em prolongar o sofrimento irreversível do seu paciente

Foi então que o Conselho Federal de Medicina  publicou a Resolução CFM 1.805/2006 pela qual permitia-se ao médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente em fase terminal, de enfermidade grave e incurável, respeitada a vontade da pessoa ou de seu representante legal. http://www.portalmedico.org.br/resolucoes/cfm/2006/1805_2006.htm

A Resolução, portanto, teve a preocupação de respeitar a capacidade de uma pessoa conduzir  uma vida  auto-determinada e de ser reconhecido  como  um ser autônomo por outros. Continue lendo

HM15-O cilindro e o manguito

esfigmoRivaRocci

Esfigmomanometro de Riva Rocci

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Estetoscópio Cilindro) de Laennec

Laennec

René Théophile Hyacinthe Laënnec (1781-1826)

 

riva rocci

Scipione Riva Rocci (1863- 1937).

korotkov

Nikolai Sergeyevich Korotkoff (1874-1920)

Dois símbolos da Medicina. Uma convivência ubíqua. Baixa tecnologia que transcende especialidades médicas. Antes do estetoscópio, a ausculta direta (… se você escutar colocando o ouvido no peito…

Hippocrates “De Morbis”- 400 a.C.). Antes da identificação dos ruídos de Korotkoff, uma noção da pressão sistólica, tão somente.

A dupla persiste imprescindível em meio a tantas máquinas recém-incorporadas ao cotidiano das boas práticas. Não há dúvida, estetoscópio e esfigmomanometro motivam abrir o baú da História da Medicina.

O médico francês René Théophile Hyacinthe Laënnec viveu 45 anos (1781-1826). Hipocondríaco, depressivo e sofrendo de tuberculose – sua causa mortis.  Foi aos 35 anos de idade (1816) que Laennec inventou o estetoscópio.

Nenhuma prancheta, nenhuma indústria, gasto mínimo de matéria prima, nenhuma avaliação de custos, nenhum protocolo de validação. Foi, simplesmente, a recordação de criança. Ele  gostava de aproximar um graveto ao ouvido e ouvir o som propagado do arranhar a  outra ponta.

Diante da dificuldade de aproximar o ouvido do peito de uma gestante obesa com mamas muito desenvolvidas, Laënnec enrolou papel em forma de canudo e, assim vinculado, criou o símbolo da relação médico-paciente (…Imediatamente enrolei folhas de papel em forma de cilindro bem apertado, encostei uma ponta no tórax da gestante, me inclinei e apoiei o meu ouvido na outra. Pude perceber a ação do coração de uma maneira muito mais clara e distinta do que fora capaz até então pela ausculta direta…”). http://publicacoes.cardiol.br/caminhos/014/

A estetoacústica suscitou a confecção de uma peça cilíndrica em madeira monoauricular. Médicos de vários países  foram a Paris aprender o novo método do cilindro. Eles retornavam a seus consultórios com a novidade no bolso. Logo aconteceu a cilindromania. A população passou a preferir ser examinada pelos que usavam o “cilindro importado”. O estetoscópio nasceu com o status de instrumento de boas práticas.

Passemos do século XIX para os primeiros anos do século XX. Da paz francesa para a guerra entre Rússia e Japão. O personagem aqui é o médico russo Nikolai Sergeyevich Korotkoff  que viveu por um número de anos semelhante a Laennec (1874-1920) e cuja causa-mortis foi tuberculose pulmonar também. Korotkoff foi para os campos de batalha na Manchuria como cirurgião vascular. Ele estava interessado em fístulas arteriovenosas causadas por arma de fogo. Na bagagem levou o esfigmomanometro rudimentar criado pelo médico italiano Scipione Riva Rocci (1863- 1937).

Korotkoff tornou-se epônimo dos ruídos do exame da pressão arterial ao constatar, aos 31 anos de idade, variações acústicas associadas ao grau de compressão do manguito sobre a artéria braquial (…Inicialmente não se ouve nenhum ruído, depois aparecem os primeiros tons curtos que é a pressão máxima, após outros tons há silêncio, é a pressão mínima…).

A pressão diastólica tornara-se mensurável!  Korotkoff, de volta a Moscou, fez experiências em animais para provar que os sons eram produzidos localmente e não eram provenientes do coração como seus críticos – sempre eles- afirmavam.

Foi o neurocirurgião Harvey William Cushing (1869-1939), outro epônimo, quem levou o esfigmomanometro de Riva Rocci para centros cirúrgicos dos Estados Unidos da América e, de modo pioneiro, aplicou os achados de Korotkoff para controlar a pressão arterial sistêmica de seus operandos.

Dois cenários europeus de inovação, única aliança mundial “eterna”!

 

49-Droga!

balançaBioamigo, imagine aquela velha balança de 2 pratos.  Coloque no prato 1 uma muda  de Nicotiana  tabacum   e no  prato 2 uma muda de Cannabis sativa.  Isso mesmo, tabaco x maconha. Qual a de maior peso maléfico? A verificação é complexa.

No presente momento, no Brasil, observamos a disposição de duas normatizações praticamente simultâneas.  A lei 12546, anti-fumo federal, aprovada em 2011 e regulamentada em 2014 e a Resolução CFM nº 2.113/2014, que autoriza o uso compassivo do Canabidiol para  situação especíífica  http://portal.cfm.org.br/canabidiol/ e que torna nacional o que já havia sido motivo da Resolução CREMESP 268 de outubro de 2014.

Há um efeito psicossocial nesta regulamentação. Reforça-se a associação do tabaco ao  malefício e dá-se um bônus de benefício para a maconha. A proibição do fumo em recintos públicos traz a conotação de Segurança para os não fumantes e a liberação do Canabidiol  admite potencial de utilidade e eficácia.  Modifica-se o caráter recreativo do tabaco para um olhar restritivo ao uso e reduz-se a visão punitiva sobre a maconha por uma participação  terapêutica. Continue lendo