198- Medicina na medida do ser humano?

Precisamos difundir uma nova atitude dos profissionais de

Não faltam textos análogos difundidos por vários sites. Alguém que chega agora no nosso mundo ficará preocupado. Entenderá que impera uma atitude arcaica, inadequada e desrespeitosa na beira do leito.

No cotidiano, Comissões de Humanização esforçam-se para preencher lacunas e lapidar o que aparenta completo. Atos médicos constituíram suas bulas. Vocalizar virou precioso. A comunicação interpessoal extrapolou a anamnese. Decodificar para o leigo a complexidade da Medicina incorporou-se à atenção ética. Estatísticas insistem que são autênticas as frustrações do paciente a respeito de atitudes que ele esperava como ser humano do profissional de saúde. A Medicina parece não estar na medida do ser humano.

Porque este panorama, quando sabemos que nossos profissionais de saúde não são seres abjetos, insensíveis e desprovidos de afeto?  Por mais que exceções  possam ter expressividade, o que é que está acontecendo? Exagero de expectativas? Carência de cuidados?

Cada um lê da sua forma com os óculos da vivência de fato experimentada, da ouvida falar e da apreendida em escritos de várias fontes. Leitura plausível é que a Medicina é uma ciência de aplicação agressiva ao ser humano.

Comprimidos e bisturis são invasivos à intimidade. Expõem órgãos internos com uma missão de embate autêntica, diferenciada e sedutora. Eles são pró-saúde, mas não costumam ser apreciados como agradáveis, inclusive, podem ser tão ou mais dolorosos do que a enfermidade. E, ademais, carregam o potencial de efeitos indesejáveis, no médio e no longo prazo, pois combater uma expressão clínica de doença pode comprometer comorbidades existentes e pode iniciar novas morbidades.

Uma transitoriedade de incômodos iatrogênicos por “uma boa causa” é compreensível, mas a legitimidade precisa das justificativas. Ou o paciente as admite por si, culturalmente, ou o médico as promove. Assim nos ensina a história da Medicina, reforçada pela vertiginosa multiplicação de métodos, cada qual não podendo ser exatamente denominado de prazeroso.

Há cada vez mais para ser feito na beira do leito, o que significa adições de probabilidades e de incertezas, acréscimos de agressões à intimidade, amplificações de adversidades, receios mais intensos da submissão ao poder do saber científico. O corolário é mais vigor ao perfeito desempenho ético, vale dizer, mais atenção à aplicação e à recepção da Medicina ajustada às identidades do ser humano.

Dever de aplicar e direito de receber num cenário humano subentendem infinitas expressões do interpessoal na beira do leito, incluindo aquelas que estão sendo mal classificadas  para uma relação médico-paciente padrão.

É o corpo humano que adoece e não a doença como ser à parte que vem habitar o corpo do paciente. Esta lição de Michel Foucault (1926-1984) sustenta a necessidade de se fazer religações periódicas com o afeto a cada estruturação da técnica para o alivio de sintoma, a promoção da qualidade de vida e o apoio à sobrevida. Pois ocorre uma tendência involuntária desviante.

Caso contrário, teríamos uma abstração, a doença considerada à parte do contexto humano numa frouxa relação com o paciente. Ou seja, a Medicina pró-humana -nunca anti-humana- se desdobra em incontáveis formas de atender as necessidades de saúde de um corpo humano que não foi projetado para fáceis ajustes aos intuitos de benefício da ciência médica.

A expectativa acerca de um diagnóstico em meio a uma série de exames interpretativos e a revelação do mesmo como má notícia admitem traumas ao ser humano. O mau prognóstico também. O tratamento vigoroso idem. Já foi considerado  desumano contar certos diagnósticos, como hoje é aplicar tratamento em certas fases da doença. A Medicina sob distintas estéticas.

Cada paciente enfrenta as aversões a sua maneira. Há os que se encastelam em si como avestruzes que afundam a cabeça na terra diante do perigo, há os que se tornam verborrágicos, usando palavras como escudos,  há os que procuram apoio na espiritualidade, em busca do sobrenatural, há os que negam, na esperança de um próximo momento diferente, há os que desistem de lutar com suas justificativas de não vida. Todos estes comportamentos cabem numa única recomendação médica. Quando se sabe que há milhares delas, fica fácil entender como é complexo estabelecer padrões de assistência “humanizadora”, ainda mais quando nós não temos o tempo disponível para encaixar as peças do quebra-cabeça.  A orientação é cada profissional da saúde deve abrir o leque da empatia e animar-se a encontrar o mais adequado posicionamento, caso a caso.

O que precisa ficar claro é que a boa Medicina, por si, é fator de difusão de atitudes dos profissionais de saúde em prol da relação interpessoal e do respeito aos direitos dos pacientes. O que conceituo como boa Medicina é aquela que apoiada por uma tomada de decisão ética dá oportunidade de modificar a história natural da doença, de alcançar um benefício com o mínimo possível de adversidades. Esta Medicina como saber científico, como utilidade e como eficácia deve ser vista como um componente da humanização, assim como é a comunicação interpessoal empática ou um acatamento respeitoso de não consentimento. Por isso, humanização=técnica+atitude na atenção à saúde entendida em seu sentido amplo como recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Reafirmo,  grandeza de atitude que atende objetivos, valores e preferências do paciente é parte relevante da humanização, mas há mais para ser igualmente considerado e que atende pelo nome de tecnociência bem aplicada ao caso.

O médico que atua eticamente no campo do conhecimento, utiliza-o judiciosamente para fazer diagnósticos, aplica a prudência nas tomadas de decisão, é zeloso no desencadeamento da intervenção terapêutica, incluindo a atenção ao processo evolutivo está praticando um aspecto essencial do respeito ao ser humano. Evidentemente, poderá ser classificado numa escala de atitude como “pouco humano”, caso não atente para o afetivo. Insuficiente, mas não destituído de algum grau de humanização, não importa qual definição se queira empregar.

Obviamente, não ser indiferente a esta atenção é ampliar o ser médico dominador da técnica científica. É uma expansão da sabedoria que se almeja progressiva, pois humanização em Medicina cada vez mais transformada e transformadora não tem ponto final -tem ponto de interrogação.

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