190- O bordão do Chacrinha na beira do leito

chacrChacrinha, o pernambucano José Abelardo Barbosa de Medeiros (1917-1988) foi um estudante de Medicina que não se formou. Todavia, ele legou para os ex-futuros colegas um bordão pé no chão imprescindível para a saúde da relação médico-paciente: “Quem não se comunica, se trumbica!”. 

Não é uma expressão ao gosto da Academia, mas é de uma veracidade ímpar. Cada vez mais consistente. E que se perpetua  como matéria prima nas inovações de ferramentas de comunicação. Ademais, vale  para a linguagem corporal, a comunicação extra verbal com alto vigor de expressão, inclusive, para contrapor o dito verbalmente. É clássico como um balanço da cabeça para os lados pode transformar o Sim dito num Não real.

Uma alegação de não-comunicação sob aspecto qualitativo e quantitativo sustenta um percentual relevante de queixas  de paciente/familiar sobre médicos aos Conselhos de Medicina, atestando que o significado dado pelo autor do bordão existe no mundo real, embora a palavra trumbica esteja meio afastada dos dicionários. Afinal, a nossa língua é viva, no sentido do idioma e da anatomia.

“Quem não se comunica, se trumbica!”  poderia ser uma placa na beira do leito, que certamente não conflitaria com uma externa “Silêncio, Hospital”. Esclarecer não é o mesmo que importunar. Curiosamente, a indefectível buzina do Chacrinha ajuda nesta figura.

Relação médico-paciente é termo clássico e abrangente. Comunicação médico-paciente é um dos seus aspectos.  Conexão médico-paciente é uma expressão moderna que incorpora tecnologias de apoio cada vez mais eficientes e obrigatórias. Conectar-se na beira do leito carrega o potencial de transformar (maus) Momentos Inesquecíveis em (admissíveis) Momentos Esquecíveis. É capital partir da premissa que toda palavra dita e todo movimento corporal tem um sentido de comunicação e, desta maneira,  ativar  o olho clínico para possíveis significados. Um escoteiro Sempre Alerta  porque nem sempre uma presumida boa ação é igualmente entendida pelo outro, o que deixa de plantão permanente a questão Bom para quem? com alta conotação na Bioética numa visão integrada entre benefício, segurança e livre arbítrio.

Não há momento na relação médico-paciente que dispense a comunicação, mas a forma da conexão deve ser sensível  a cada um. É essencial reconhecer o conceito de proxêmica conforme apresentado pelo antropólogo Edward Twitchell Hall, Jr. (1914-2009), a respeito do espaço interpessoal. Ele observou 4 zonas distintas de uso territorial interpessoal: a) distância íntima- 15 a 45 cm. O exame físico e um procedimento invasivo a utilizam; b) distância pessoal- com duas medidas, a  45-75 cm, quando um toque pode ser natural e a 75-120 cm, quando não haveria naturalidade num toque. A anamnese a utiliza; c) distância social- 120 a 200 cm; d) distância pública- 200 a 350 cm. Creio que podemos acrescer a distância infinita, aquela que não permite a visualização direta interpessoal, sendo representada classicamente pelo telefone e que, atualmente, estende-se pelos aplicativos, inclusive com imagem.chacr1

Há muitos assuntos inevitáveis na comunicação médico-paciente e para cada um deles há peculiaridades nas idas-e-vindas de informações, interrupções e retomadas. Além disso, há individualidades, quer pessoais, quer culturais, que determinam valores distintos à linguagem.  Há a doença, há o tratamento, há o prognóstico, há a evolução, há as adversidades, há o desconhecido pelo médico, há o receio pelo paciente do não ainda identificado.

Os diálogos não necessariamente seguem uma cronologia pré-definida e, além disso, admitem fragmentações em função da dinâmica de atendimento. Objetivos  ligados à humanização amplificam  a chamada comunicação colaborativa relacionada aos aspectos técnico-científicos, fato que se beneficia de um clima com harmonia e com intenção multiprofissional e interdisciplinar de valorizar as qualidades humanísticas.

Definitivamente, não cabe mais aquele tempo em que o avental do médico era decodificado como barreira para livre comunicação, em que perguntas eram autocensuradas pelo paciente como inconvenientes para uma autoridade sempre ocupada com “assuntos mais relevantes”. Jovens médicos que não se sentem à vontade para a conexão com pacientes e que possam sofrer do que já foi rotulado como erosão das qualidades humanísticas  devem pensar cuidadosamente sobre a escolha da especialidade- há linha de pensamento que estudantes de Medicina avessos à empatia não deveriam se formar  http://www.nejm.org/doi/pdf/10.1056/NEJMp1501440.

Um destaque da comunicação é que momentos emocionais do paciente turvam a clareza da informação e nem sempre há a percepção do calor dos mesmos pelo médico dialoga tendo uma temperatura mais próxima da frieza. Conectar-se com a realidade afetiva do paciente empodera pela empatia,  comportamento que proporciona uma percepção mais realista de como a situação está sendo vivenciada o médico conhece o doente, mas não necessariamente o cidadão que tem a doença- favorece a tolerância- vantagem para o respeito ao princípio da Autonomia-, equilibra os tempos de emissão e de recepção  das palavras – ouvir-se ouvir e ouvir-se falar-, inclusive, valorizando períodos de silêncio,  vale dizer, é proveitoso para a prudência na tomada de decisões e para o zelo na realização do decidido e consentido.

Conscientizar-se que não basta cumprir o seu ofício técnico direcionado para “o bem” do paciente segundo o estado da arte, facilita atuação do médico reversiva ao “se trumbica”. É necessário ter a disposição para reconhecer que o paciente pode vivenciar algum sentimento “absurdo” em função da dedicação que o médico imagina prestada. Se ele existe, se é como ele sente, dadas as características de caráter, personalidade e temperamento, não deve ser ignorado por uma interpretação desdenhosa.

A vulnerabilidade a críticas é constante em qualquer cuidado com as necessidades de saúde. Por isso, ela é  razão bastante para movimentos de encontro de tempo para um diálogo que faça prestar  atenção nos sentimentos da pessoa-paciente (Quadro). Sombras no espaço mental do paciente podem ser assim iluminadas, oportunidade para esclarecimentos, mudanças de comportamento e ajustes de atitudes visando à prevenção de denúncias de negligência e de imprudência. A experiência em lidar com representações de natureza ética permite-me afirmar: cinco minutos a mais de conversa com o paciente/familiar podem evitar sujeitar-se a cinco anos de processo no CRM.

Chacrinha, permita-me fazer uma transposição do advérbio para ficar lição mais articulada com o caráter de pró-benefício e pró-segurança da Bioética: Quem se comunica não se trumbica!

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