187- Bioética, pensamento humilde e narcisismo benigno

egoUma relação médico-paciente  com grande tensão emocional gerou a crítica do familiar: “– Doutor, o senhor deveria ser mais humilde”. O episódio foi trazido para a Oficina de Bioética e debatido por jovens médicos sob supervisão.

Pois é, humildade deriva de humus, terra, aquilo que fica no chão e compartilha etimologia com humanidade. É uma virtude com um amplo histórico de correlações religiosas.

Textos de Bioética destacam o valor da humildade nos cuidados com as necessidades de saúde. Sem dúvida, a beira do leito requer um estado de consciência profissional que favoreça o pensamento profissional humilde, ou seja, o reconhecimento do que somos e do que não somos, do  que estamos tecnicamente preparados e do que  precisamos de aprendizados e de reciclagens. Um pensamento profissional humilde desde a formatura até a aposentadoria.

Idealmente, o jovem médico amplia os  limites de potência profissional numa curva de aprendizado onde o  pensamento profissional humilde funciona como auto limitante do necessário narcisismo benigno.  Este é essencial para a realização ética, pois  dá contornos realistas à autoimagem e traz a exata percepção da contribuição que pode dar para  um resultado favorável, sentindo  um orgulho equilibrado  por “ver-se capacitado a fazer a tarefa necessária”.

Enxergar-se além destes limites, extrapolar limitações dos métodos, comportar-se de modo egocêntrico como “proprietário-fornecedor” da conduta, já seria ambição, presunção, arrogância, antônimos de humildade.

Portanto, o jovem médico não estará depreciando o seu valor, fazendo pouco de si, comprometendo o seu prestígio quando aplica o pensamento profissional humilde ao raciocínio clínico. Pelo contrário, pensamento humilde-narcisismo benigno é binômio gerador de “energia” empreendedora, classificável como ética porque na  real dimensão  para trazer benefícios e para evitar danos ao paciente. O pensamento profissional humilde mais do que “fazer baixar o olhar” do médico, apura-o na direção de condutas individualizadas em meio a vulnerabilidades, em função tanto da legitimidade da atuação -auto-análise da capacitação para desempenhar-se com prudência e com zelo-, quanto da admissão em prover ajustes possíveis a pontos de vista do paciente em prol do consentimento- tolerância com segurança. O valor da consciência ética que reconhece que não se deve fazer tão-somente “ao seu modo”- reforço à inadequação ao oximoro mencionado acima-, que médico e paciente se necessitam mutuamente do máximo de concordâncias. É fato que o médico conhece o que paciente tem em relação a sua saúde, mas que apenas o paciente pode expor não somente o que os esclarecimentos médicos significam para ele – uma relação entre o físico e o simbólico que tem raízes culturais- como também a disposição para a adesão ao processo diagnóstico e/ou terapêutico.

Entendo que o pensamento humilde, ao conter os riscos de ego inflado por dimensionar o que devo praticar e o que não devo praticar, configura-se como matéria prima da Prudência referida no art 1º (… É vedado ao médico ação ou omissão caracterizável como imprudência…) do Código de Ética médica vigente, tornando-se, assim, eficiente antídoto do erro profissional, do desrespeito a valores, objetivos e preferências do paciente e dos exageros da Medicina defensiva. Nunca é demais  lembrar  Niels Henrick David Bohr (1885-1962): “o oposto de uma verdade profunda pode ser outra verdade profunda”  e Andre Gide (1869 – 1951): “acredite em quem procura a verdade, duvide de quem a encontrou“.

A interpretação do art. 3º do Código de Ética médica vigente alerta que o trecho É vedado ao médico deixar de assumir responsabilidade sobre procedimento médico  significa que humildade nos cuidados com a saúde não deve ser vista como oximoro, ou seja seriam condições excludentes, como exposto em certos textos sobre desenvolvimento do profissionalismo, inclusive menção a ser postura anti-ética. Ao longo dos últimos 50 anos, eu tive oportunidade de testemunhar atitudes de falta de humildade no exercício da Medicina, que, felizmente, tornaram-se menos frequentes, tendência que reflete mudanças no âmbito da conexão médico-paciente, onde, inclusive a Bioética exerce contribuição para a harmonia entre o magnetismo da técnico-ciência e o respeito às boas práticas aplicadas a um ser humano. A escolha da forma de comunicação com o paciente para assumir um erro profissional é influenciada pelo desenvolvimento do pensamento profissional humilde.

Em suma, a Bioética reforça que a almejada excelência na prática da Medicina requer o lápis e a borracha do pensamento profissional humilde para constante atualização da autoimagem da suficiência de competência, atributo do narcisismo benigno que sustenta assumir responsabilidades para as quais se sinta de fato preparado, melhor ainda se reconhecido pelos pares e qualificada numa participação em equipe.

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