154- A Saúde dos Números


numeros-lotofacilNúmero é coisa séria. Falar de número, mais ainda. Pensar em número nem se fala. Número não mente, mas pode desmentir.

Rei poderoso, eu peço o meu pagamento em grãos de trigo.

– Como poderei pagar-lhe com tão insignificante moeda?

-Alteza, considere o tabuleiro de xadrez. Dar-me-eis um grão de trigo pela primeira casa, dois grãos pela segunda, quatro pela terceira, oito pela quarta e assim, dobrando, sucessivamente.

-Quanto desamor à fortuna, mas vou satisfazer o seu desejo.

Quando os calculistas  terminaram as contas, o resultado foi uma montanha: 18 446 744 073 709 551 615 grãos.

Ante o espanto do rei, o súdito completou:

-Os  homens menos avisados iludem-se com a aparência enganadora dos números. 

(Adaptado de O Homem  que Calculava, Malba Tahan, Distribuidora Record, 1983)

Há cerca de duas semanas, não faltaram números para fundamentar  a opinião A marcha da insensatez  do Dr. Braulio Luna Filho, laborioso Presidente do CREMESP: – O Governo Federal autorizou a abertura de mais 36 escolas de Medicina no Brasil, 13 delas no Estado de São Paulo. Em visita ao Cremesp, em julho, o ministro da Saúde, instado a explicar os motivos, argumentou – “com a política de criar novas faculdades médicas, o governo visa chegar à meta de 600 mil profissionais daqui a 10 anos”.

Segundo o Dr. Luna Filho, (o ministro) reduziu a questão da formação e distribuição dos médicos a um viés quantitativo. Olvida a experiência mundial – que também lida com o mesmo problema de escassez de médicos em áreas remotas e pequenos aglomerados –, e assume uma visão economicista, “achando’ que graduando médicos a granel, esses transbordarão dos centros urbanos para os rincões do Brasil! https://www.cremesp.org.br/?siteAcao=NoticiasC&id=3735

Há poucos dias, o Prof. Milton de Arruda Martins, Professor Titular da FMUSP, declarou no VI Fórum Nacional de Ensino Médico: ” – … Não é preciso expandir o número de novos cursos de medicina no Brasil e isso já era desnecessário em 2012. O que precisamos é garantir a qualidade das escolas que estão em funcionamento…”.  http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=25700:2015-08-27-18-12-22&catid=3

Segundo a Demografia Médica do Brasil, 2011, há curva ascendente do número de médicos no Brasil, atribuída  a uma conjugação de fatores incluindo as crescentes necessidades em saúde, as mudanças no perfil de morbidade e mortalidade, as garantias de direitos sociais, a incorporação de tecnologias médicas,  o envelhecimento da população, a expansão do sistema de saúde e a oferta de mais postos de trabalho médico. grafico1pg2

A aplicação do chamado Exame do CREMESP em 2014 a 3.328 egressos de Medicina em todo o País provocou reprovação de 55% entre os recém-formados por escolas públicas e de 65% entre aqueles por escolas privadas.

Números per se são desvinculados do exame moral, mas sustentam embates entre aspecto ético e regulação normativa, como os que estão acontecendo na área da Saúde.

Quando o número expressa quantidade, é essencial supor a qualidade. Há sempre o risco de dissonâncias. Uma baciada pode impressionar. A impressão sobre único exemplar seleto pode ser mais valorizada. Fazer às colheradas é medida de prudência sobre a aceitação.

Em Políticas de Saúde, o equilíbrio deve prevalecer. Nem um batalhão de médicos pouco qualificados, nem um médico solitário ultra-especializado. Há proporções ideais entre número de médico e de habitante, que resultam de fatores colocados no tabuleiro de xadrez  de cada país, como demografia de pacientes, demografia de médicos, incidência de doenças, sistema de saúde, peculiaridades geográficas. Há poucos países no mundo que podem ser considerados atendidos em suas taxas ideais.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a proporção mundial varia de 0,014 na Liberia a 7,739 no Qatar. O Brasil ocupa um “meio caminho” de 1,891 no gráfico, incluído no contingente mais numeroso (faixa de 1.0 a 2.99).Apresentação3

Atualizando, 409 mil médicos divididos por 204 milhões de brasileiros dá 2 médicos por 1000 habitantes. Considerando a pretensão do Ministério da Saúde de 600 mil médicos e a estimativa que em 2025  seremos cerca de 220 milhões de brasileiros, a proporção subiria para 2,72. Em outras palavras, teríamos 50% mais médicos para um acréscimo populacional de 8%. Em relação ao gráfico exibido, ficaríamos entre os EUA (2,452) e o Reino Unido (2,809).

Ocorre que a distribuição dos médicos pelos mais de 8,5 milhões de Km² de área geográfica do Brasil é heterogênea. Os estados do Amapá, Pará e Maranhão têm menos do que 1 médico por mil habitantes e o Distrito Federal tem mais de 4.  A maioria situa-se em decimais de 1. http://bioamigo.com.br/?p=4349

Fica difícil de entender neste contexto, o racional de São Paulo, que tem uma taxa médico-1000 habitantes de 2,64,  receber 36% do total de novas Escolas previstas. E mais, levando em conta todas Mais Faculdades de Medicina de que cartola sairá o número calculável de necessidades PL maiúsculas- Professores, Preceptores, Laboratórios e Leitos?

A aplicação de fundamentos da Bioética, incluindo equidade, beneficência, não maleficência, responsabilidade faz aflorar a prioridade para a adequação do já existente às casas do tabuleiro de xadrez em cores verde e amarela.

Em outras palavras, a atenção a garantir a qualidade das escolas que estão em funcionamento, acima  mencionado  e às palavras do Dr. Rogério Wolf de Aguiar, Presidente do CREMERS: “… Em relação aos médicos, temos de continuar defendendo um plano de carreira médica no SUS, além, é evidente, de lutar por um imediato reajuste na tabela do SUS…”. http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=25624:2015-07-22-15-34-11&catid=46.

É essencial colocar no topo das realizações a visão da qualidade profissional e o incentivo à distribuição nacional dos jovens médicos. Mais beiras de leito pelo Brasil atendidas por uma Política de Saúde apoiada pelo desejável saber médico e pelo Princípio fundamental III – Para exercer a Medicina com honra e dignidade, o médico necessita ter boas condições de trabalho e ser remunerado de forma justa do Código de Ética Médica vigente.

Cabe, pois, que, os que detém autoridade bem oxigenada pela expertise Ensino&Pesquisa&Assistência em saberes da Saúde mergulhem no oceano da Saúde, olhem o iceberg por baixo, e ciente das reais dimensões, analisem etiopatogenias da má formação e da má distribuição de médicos e, atentos à fisiopatologia, considerem métodos diagnósticos e condutas terapêuticas de melhor prognóstico para nossas morbidades e comorbidades da Saúde.

Quem desvaloriza a si mesmo é justamente desvalorizado pelos outros. Olho nesta sabedoria do escritor inglês William Hazlitt (1778-1830) e nos números! Miopias correm o risco de apenas provocar agravamento do congestionamento atual em seletas cidades. E de um rodízio local pelo algarismo final do número do CRM.

 

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